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I O Viés da Semana
O bispo por trás de Filotea
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Em 1963, o psicólogo americano Stanley Milgram publicou no Journal of Abnormal and Social Psychology um experimento feito na Universidade Yale. Um homem de jaleco pedia ao voluntário que aplicasse choques cada vez mais fortes em outra pessoa, a cada erro dela num teste de memória. Os choques eram falsos e a outra pessoa era um ator, mas o voluntário não sabia.
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Dos 40 homens do primeiro estudo, 26 foram até o último botão do aparelho, marcado com 450 volts. Ninguém ameaçou ninguém. O jaleco e frases como “o experimento exige que você continue” bastaram.
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A psicologia chama de viés de autoridade a tendência de dar mais peso a uma opinião pelo cargo de quem fala do que pelo conteúdo dela. Quase sempre o atalho funciona: a médica sabe mais de remédio que o vizinho. O problema começa quando o cargo passa a responder por perguntas fora da área dele.
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No México do século 17, uma freira vivia cercada desses cargos. O confessor guiava a consciência dela, e o arcebispo governava o convento. Manuel Fernández de Santa Cruz, bispo de Puebla, não mandava no convento de São Jerônimo, e mesmo assim a carta dele chegou com o peso da mitra.
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A CARTA DE MONTERREY |
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Sor Juana já tinha enfrentado um desses cargos. Por volta de 1682, escreveu ao confessor, o jesuíta Antonio Núñez de Miranda, pedindo que ele deixasse de ser seu guia espiritual, porque criticava os versos dela diante de outras pessoas. A carta passou quase três séculos perdida, até o padre Aureliano Tapia Méndez encontrá-la em Monterrey, em 1980.
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Com Filotea, o jogo mudou. O bispo tirou a mitra do envelope e vestiu um hábito de freira. Conselho de igual para igual não pede obediência formal, e por esse motivo fica mais difícil recusar: quem recusa uma amiga parece ingrata.
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O disfarce trocava o tom da ordem e mantinha o peso dela. |
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A carta também usava o elogio como escada. Primeiro, chamava o texto de digno de Atena. Depois, apontava o defeito, com a delicadeza de quem oferece um presente.
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Na fonte “Não pretendo que vossa mercê mude de índole renunciando aos livros, mas que a melhore, lendo alguma vez o de Jesus Cristo.” Sor Filotea de la Cruz (Manuel Fernández de Santa Cruz), carta a Sor Juana Inés de la Cruz, 1690 (tradução livre) |
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Quem elogia antes de corrigir ganha a confiança e, em seguida, cobra a dívida. Milgram mediu a autoridade de jaleco; a carta de Puebla mostra a versão de luvas. A pergunta que some nos dois casos é a mesma: o pedido faria sentido se viesse de alguém sem cargo nenhum.
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II Na Prática
A resposta em quatro passos
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A Resposta a Sor Filotea abre com um pedido de desculpas pela demora e, debaixo da cortesia, segue uma ordem precisa. Sor Juana conta a própria vida, examina a regra que a proibiria de estudar, lista mulheres sábias que a Igreja respeitava e, por fim, encolhe o pedido até ele caber na regra.
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A vida contada serve de prova: a inclinação para o estudo nasceu com ela. Aprendeu a ler antes dos 3 anos, seguindo a irmã escondida até a escola. Evitava queijo porque ouvira dizer que embotava a cabeça. Pediu à mãe para estudar na universidade vestida de homem. Cortava quatro a seis dedos do cabelo e, se ele crescesse sem a lição aprendida, cortava de novo.
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Na fonte “Eu não estudo para escrever, menos ainda para ensinar (o que seria em mim soberba desmedida), mas só para ver se, estudando, ignoro menos.” Sor Juana Inés de la Cruz, Resposta a Sor Filotea de la Cruz, 1691 (tradução livre) |
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OS QUATRO PASSOS DA RESPOSTA |
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1. Separe o elogio do pedido. A carta de Filotea misturava os dois, e Sor Juana agradeceu o primeiro sem aceitar o segundo. Hoje: quando a avaliação diz “você é brilhante, mas melhor largar o projeto paralelo”, escreva numa linha só o que estão pedindo.
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2. Vá ao texto da regra. O argumento contra a mulher que estudava vinha de São Paulo: “as mulheres se calem nas igrejas” (1 Coríntios 14,34). Ela leu o trecho com os comentadores e concluiu que ele tratava do púlpito; o estudo e a escrita em particular ficavam fora do alcance da frase. Hoje: quando dizem que “a política não permite”, peça o documento e leia a frase inteira.
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3. Responda com a prova que o outro aceita. Diante de um bispo, Sor Juana citou a Bíblia e os santos: Débora, Ester, a rainha de Sabá e Paula, que aprendeu hebraico com São Jerônimo, o santo que dá nome à ordem dela. Hoje: se o chefe só confia em número, leve o número.
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4. Encolha o pedido até ele caber na regra. Ela não pediu púlpito nem cátedra; pediu para estudar e “ignorar menos”. Propôs ainda que senhoras instruídas ensinassem as meninas, sem professor homem dentro de casa. Hoje: peça o mínimo que a objeção não alcança.
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Pergunte quem assina, o que diz a regra e o que exatamente estão pedindo. |
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O trecho mais citado da carta mostra o passo 4 em ação. Uma superiora proibiu Sor Juana de estudar por cerca de três meses. Ela obedeceu quanto aos livros e passou a estudar o resto: o ovo que frita inteiro na gordura e se desmancha na calda de açúcar, o pião que duas meninas giravam sobre farinha peneirada para ver se o giro desenhava círculos. Daí a frase: se Aristóteles tivesse cozinhado, teria escrito muito mais.
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O método tem limite, e a vida dela mostra qual. Pela versão mais contada, em 1694 Sor Juana se desfez da biblioteca e dos instrumentos e escreveu no livro do convento “yo, la peor de todas”, eu, a pior de todas. Pesquisadores ainda discutem quanto daquela renúncia foi escolha e quanto foi pressão. Os quatro passos ajudam a responder; nenhum garante que o outro lado vá ceder.
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