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Os olhos na calçada de Jane Jacobs

Jane Jacobs, 1916-2006

Calçada da Hudson Street, em Manhattan, com lojas abertas e janelas acesas

A calçada da Hudson Street, no West Village

▼

Em 1961, a jornalista Jane Jacobs escreveu em Morte e Vida de Grandes Cidades, lançado pela editora Random House, que a calçada cheia de gente é o que protege um bairro. Em 1968, os psicólogos John Darley e Bibb Latané publicaram no Journal of Personality and Social Psychology, uma revista científica americana, um experimento em que mais gente ouvindo um pedido de socorro rendia menos socorro.

Jacobs nasceu em 1916 em Scranton, na Pensilvânia, e chegou a Nova York em 1934, aos 18 anos, no auge da Grande Depressão. Fez dois anos de cursos avulsos na Universidade Columbia e nunca terminou uma graduação.

Em 1952, virou redatora da Architectural Forum, uma revista de arquitetura. Morava com o marido, o arquiteto Robert Jacobs, e os três filhos num sobrado da Hudson Street, uma rua de casas baixas e lojas no West Village, bairro do oeste de Manhattan.

Os urbanistas da época liam a mesma rua ao contrário. A Lei de Habitação de 1949 pagava, com dinheiro federal, a demolição de quarteirões classificados como degradados. A receita das escolas de planejamento era uma só: separar a moradia do comércio, trocar a rua por superquadras, quarteirões gigantes sem rua cortando, e erguer torres soltas num gramado.

Calçada lotada, banca de frutas na porta e cortiço com loja embaixo eram o sintoma que o projeto vinha curar. Jacobs anotou o oposto durante anos: quem ficava na porta das lojas, quem olhava pela janela e a que horas a calçada esvaziava.

A disputa terminou numa delegacia e num mapa. Em 1968, ela foi presa numa audiência pública sobre a via expressa de Robert Moses, o funcionário nunca eleito que comandou pontes, parques e estradas da cidade por quatro décadas. No ano seguinte, a via expressa foi enterrada.

Logo abaixo, uma reportagem de 1964 que pareceu desmentir Jacobs, o experimento do interfone de Darley e Latané e as câmeras de rua que, em 2019, contaram quem ajuda numa briga.

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I  O Viês da Semana

As 38 testemunhas de Kew Gardens

 
 
 

Na madrugada de 13 de março de 1964, Kitty Genovese, gerente de bar de 28 anos, foi atacada a facadas a poucos metros de casa, em Kew Gardens, no distrito do Queens. Duas semanas depois, o jornal New York Times publicou na primeira página que 38 vizinhos tinham visto ou ouvido o ataque e nenhum chamou a polícia a tempo.

A reportagem virou o retrato nacional da apatia urbana. Chegou três anos depois do livro de Jacobs e parecia provar a tese contrária: um quarteirão cheio de janelas não tinha protegido ninguém.

O INTERFONE DE 1968

Darley e Latané, dois jovens professores de universidades de Manhattan, quiseram medir o que a notícia descrevia. Cada estudante ficava sozinho numa cabine e conversava por interfone com colegas que não via. Durante a conversa, um dos colegas, na voz gravada de um ator, tinha uma crise convulsiva e pedia ajuda.

Quem se achava o único a ouvir saiu da cabine para buscar ajuda em 85% dos casos antes de a crise acabar. Quem achava que outras quatro pessoas também ouviam fez o mesmo em 31% dos casos, segundo o artigo de Darley e Latané de 1968.

Os dois chamaram o mecanismo de difusão de responsabilidade: cada testemunha supõe que outra já agiu. Os manuais de psicologia batizaram o conjunto de efeito espectador, a tendência de ajudar menos quando há mais gente olhando.

Cada ouvinte a mais no interfone tirava um pedaço do dever de quem ouvia.

 

O QUE A REPORTAGEM ERROU

O agressor, Winston Moseley, foi preso dias depois e passou o resto da vida na cadeia. Em 2016, no obituário dele, o próprio New York Times reconheceu que a reportagem de 1964 tinha exagerado o número de testemunhas e o que elas perceberam.

Poucos vizinhos viram o ataque, a maioria ouviu gritos sem entender a cena e houve quem telefonasse para a polícia. Uma vizinha, Sophia Farrar, desceu e segurou Kitty nos braços até o socorro chegar. Kitty morreu a caminho do hospital.

AS CÂMERAS DA RUA

Faltava medir a rua real, fora da cabine. Em 2019, o psicólogo Richard Philpot, da Universidade de Lancaster, na Inglaterra, e quatro colegas publicaram na revista American Psychologist a análise de 219 brigas gravadas por câmeras de segurança em Amsterdã, Lancaster e na Cidade do Cabo. Em 91% delas, pelo menos uma pessoa que passava interveio, e a chance de alguém ajudar subia a cada testemunha a mais.

A diferença está em quem ocupa a cena. No interfone, eram estranhos sem rosto, cada um preso na própria cabine. Na rua filmada, as pessoas viam a briga inteira e viam umas às outras.

Na fonte

“A paz pública, a paz da calçada e da rua, não é mantida principalmente pela polícia, por mais necessária que ela seja. É mantida sobretudo por uma rede complexa, quase inconsciente, de controles e normas voluntárias entre as próprias pessoas.”

Jane Jacobs, Morte e Vida de Grandes Cidades, 1961 (tradução livre)

 

A tese de Jacobs nunca dependeu de uma multidão qualquer. A faixa seguinte mostra quem, na Hudson Street, fazia o papel da testemunha que age.

 
 
 
 
 
 

II  Na Prática

O balé da Hudson Street

 
 
 

Jacobs chamou a rotina da própria rua de balé da calçada. No capítulo sobre segurança, ela descreve a Hudson Street do amanhecer à madrugada, com nomes: o senhor Lofaro, o vendedor de frutas baixinho de avental branco, plantado na porta com os braços cruzados; Joe Cornacchia, da mercearia do outro lado da rua, que guardava as chaves que os vizinhos deixavam para amigos e visitas.

Desse inventário saiu a lista que contrariava os urbanistas.

AS TRÊS CONDIÇÕES DA RUA SEGURA

1. Limite claro entre o espaço público e o privado. A calçada não se confunde com o pátio de ninguém.

 

2. Prédios virados para a rua, com porta e janela de frente para a calçada, nunca de costas para ela.

 

3. Gente na calçada de forma contínua, de manhã à noite. O movimento soma olhos e dá a quem está dentro do prédio um motivo para olhar.

 

Na fonte

“Precisa haver olhos na rua, olhos que pertencem àqueles que poderíamos chamar de proprietários naturais da rua.”

Jane Jacobs, Morte e Vida de Grandes Cidades, 1961 (tradução livre)

 

A receita oficial violava as três condições. A torre no gramado apagava o limite entre o público e o privado, a superquadra afastava as janelas da calçada e o zoneamento, a divisão da cidade em áreas de uso único, esvaziava a rua a cada turno.

A rua segura tinha dono: o lojista na porta e o morador na janela.

 

A AUDIÊNCIA DE 1968

A via expressa do Baixo Manhattan, defendida por Moses desde os anos 1940, cortaria a ilha de leste a oeste em pista elevada sobre a rua Broome. Ligaria o túnel Holland às pontes Williamsburg e Manhattan, passando por cima de quarteirões de prédios de ferro fundido e de cortiços com loja embaixo.

Em 10 de abril de 1968, o Departamento de Transportes do estado fez a audiência pública da obra no auditório da escola secundária Seward Park, no Lower East Side, o bairro do sudeste da ilha. Jacobs subiu ao palco com um grupo de moradores, os manifestantes arrancaram a fita da estenotipista, a profissional que registrava a sessão, e a espalharam pelo chão. Ela declarou que, sem registro, a audiência não existia.

Foi presa ali, acusada de incitar tumulto, de dano ao patrimônio e de obstruir a administração pública. As acusações caíram depois para conduta desordeira. Em 1969, a prefeitura de John Lindsay deu o projeto por encerrado, e a via expressa nunca foi construída.

Os quarteirões poupados formam hoje o SoHo, sigla para o trecho ao sul da rua Houston, e a Little Italy, a Pequena Itália. Em 1973, a comissão de preservação da cidade tombou o distrito de ferro fundido do SoHo.

Ainda em 1968, Jacobs se mudou com a família para Toronto, em parte para que os filhos não fossem convocados para a Guerra do Vietnã. Lá, ajudou a barrar a via expressa Spadina, cancelada pelo governo de Ontário em 1971. Toronto foi a cidade dela pelo resto da vida; Jacobs viveu 89 anos, de 1916 a 2006.

 

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III  Teste Rápido

A contagem da sua calçada

 
 
 

O efeito espectador de Darley e Latané e os proprietários naturais de Jacobs aparecem longe de Manhattan, em qualquer lugar onde várias pessoas veem o mesmo problema. O grupo de mensagens do prédio que vê o portão quebrado e não chama ninguém repete o interfone de 1968. A padaria que conhece o cliente pelo nome repete a Hudson Street.

O teste abaixo mede qual das duas cenas cerca você. Leva 20 minutos em dois dias, com o celular e um caderno.

TRÊS PASSOS PARA CONTAR OS OLHOS

1. Escolha um trecho de calçada que você percorre toda semana e outro que você evita à noite. Anote os dois endereços no caderno.

 

2. Fique dez minutos em cada trecho às 21h e conte três números: pessoas a pé, portas de comércio abertas e janelas acesas viradas para a rua.

 

3. Do lado dos números, escreva quantas pessoas ali saberiam o seu nome. A lista de Jacobs pede gente, olhos e dono, e o caderno mostra qual dos três falta em cada trecho.

 

A calçada segura se conta em gente a pé, janelas acesas e nomes conhecidos.

 

Um exemplo de prédio: o aviso no grupo de 40 moradores sobre a lâmpada queimada da garagem. Mande o mesmo pedido a um vizinho só, pelo nome, e compare o tempo até a troca.

Um exemplo de trabalho: o email para a equipe inteira com a frase “alguém pode revisar?”. Escreva o nome de quem revisa na primeira linha e compare o prazo da resposta.

Um exemplo de quarteirão: a farmácia ou o bar que fica aberto até tarde perto de casa. Cumprimente o atendente pelo nome durante uma semana e repita a contagem do passo 2 no mesmo horário.

Um exemplo de escola: a reunião de pais em que a professora pergunta “alguém pode trazer o lanche da festa?”. Peça a uma família só, pelo nome, e compare quantas vezes o lanche chega no dia combinado.

O teste não condena o grupo grande. A Hudson Street vivia cheia, e as câmeras de Philpot mostraram que mais gente na cena aumentava a chance de ajuda. O que falta no interfone e no grupo de mensagens é rosto e dono: alguém que se sabe visto e responde pelo trecho.

Atravessar para a calçada vazia porque parece mais tranquila, a aposta dos urbanistas da Lei de Habitação de 1949, ou seguir pela calçada da farmácia aberta e das janelas acesas, a aposta de Jacobs em 1961. Os dois trechos estão no caderno, com a contagem ao lado.

 
 
Quiz da edição

No experimento do interfone de Darley e Latané (1968), que percentual dos participantes que se achavam os únicos a ouvir o pedido de socorro saiu da cabine para buscar ajuda antes do fim da crise simulada?

A31%
B85%
C91%
D38%

Resultado da última edição: 100% acertaram.

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