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I O Viês da Semana
As 38 testemunhas de Kew Gardens
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Na madrugada de 13 de março de 1964, Kitty Genovese, gerente de bar de 28 anos, foi atacada a facadas a poucos metros de casa, em Kew Gardens, no distrito do Queens. Duas semanas depois, o jornal New York Times publicou na primeira página que 38 vizinhos tinham visto ou ouvido o ataque e nenhum chamou a polícia a tempo.
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A reportagem virou o retrato nacional da apatia urbana. Chegou três anos depois do livro de Jacobs e parecia provar a tese contrária: um quarteirão cheio de janelas não tinha protegido ninguém.
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O INTERFONE DE 1968 |
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Darley e Latané, dois jovens professores de universidades de Manhattan, quiseram medir o que a notícia descrevia. Cada estudante ficava sozinho numa cabine e conversava por interfone com colegas que não via. Durante a conversa, um dos colegas, na voz gravada de um ator, tinha uma crise convulsiva e pedia ajuda.
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Quem se achava o único a ouvir saiu da cabine para buscar ajuda em 85% dos casos antes de a crise acabar. Quem achava que outras quatro pessoas também ouviam fez o mesmo em 31% dos casos, segundo o artigo de Darley e Latané de 1968.
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Os dois chamaram o mecanismo de difusão de responsabilidade: cada testemunha supõe que outra já agiu. Os manuais de psicologia batizaram o conjunto de efeito espectador, a tendência de ajudar menos quando há mais gente olhando.
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Cada ouvinte a mais no interfone tirava um pedaço do dever de quem ouvia. |
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O QUE A REPORTAGEM ERROU |
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O agressor, Winston Moseley, foi preso dias depois e passou o resto da vida na cadeia. Em 2016, no obituário dele, o próprio New York Times reconheceu que a reportagem de 1964 tinha exagerado o número de testemunhas e o que elas perceberam.
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Poucos vizinhos viram o ataque, a maioria ouviu gritos sem entender a cena e houve quem telefonasse para a polícia. Uma vizinha, Sophia Farrar, desceu e segurou Kitty nos braços até o socorro chegar. Kitty morreu a caminho do hospital.
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AS CÂMERAS DA RUA |
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Faltava medir a rua real, fora da cabine. Em 2019, o psicólogo Richard Philpot, da Universidade de Lancaster, na Inglaterra, e quatro colegas publicaram na revista American Psychologist a análise de 219 brigas gravadas por câmeras de segurança em Amsterdã, Lancaster e na Cidade do Cabo. Em 91% delas, pelo menos uma pessoa que passava interveio, e a chance de alguém ajudar subia a cada testemunha a mais.
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A diferença está em quem ocupa a cena. No interfone, eram estranhos sem rosto, cada um preso na própria cabine. Na rua filmada, as pessoas viam a briga inteira e viam umas às outras.
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Na fonte “A paz pública, a paz da calçada e da rua, não é mantida principalmente pela polícia, por mais necessária que ela seja. É mantida sobretudo por uma rede complexa, quase inconsciente, de controles e normas voluntárias entre as próprias pessoas.” Jane Jacobs, Morte e Vida de Grandes Cidades, 1961 (tradução livre) |
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A tese de Jacobs nunca dependeu de uma multidão qualquer. A faixa seguinte mostra quem, na Hudson Street, fazia o papel da testemunha que age.
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II Na Prática
O balé da Hudson Street
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Jacobs chamou a rotina da própria rua de balé da calçada. No capítulo sobre segurança, ela descreve a Hudson Street do amanhecer à madrugada, com nomes: o senhor Lofaro, o vendedor de frutas baixinho de avental branco, plantado na porta com os braços cruzados; Joe Cornacchia, da mercearia do outro lado da rua, que guardava as chaves que os vizinhos deixavam para amigos e visitas.
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Desse inventário saiu a lista que contrariava os urbanistas.
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AS TRÊS CONDIÇÕES DA RUA SEGURA |
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1. Limite claro entre o espaço público e o privado. A calçada não se confunde com o pátio de ninguém.
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2. Prédios virados para a rua, com porta e janela de frente para a calçada, nunca de costas para ela.
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3. Gente na calçada de forma contínua, de manhã à noite. O movimento soma olhos e dá a quem está dentro do prédio um motivo para olhar.
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Na fonte “Precisa haver olhos na rua, olhos que pertencem àqueles que poderíamos chamar de proprietários naturais da rua.” Jane Jacobs, Morte e Vida de Grandes Cidades, 1961 (tradução livre) |
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A receita oficial violava as três condições. A torre no gramado apagava o limite entre o público e o privado, a superquadra afastava as janelas da calçada e o zoneamento, a divisão da cidade em áreas de uso único, esvaziava a rua a cada turno.
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A rua segura tinha dono: o lojista na porta e o morador na janela. |
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A AUDIÊNCIA DE 1968 |
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A via expressa do Baixo Manhattan, defendida por Moses desde os anos 1940, cortaria a ilha de leste a oeste em pista elevada sobre a rua Broome. Ligaria o túnel Holland às pontes Williamsburg e Manhattan, passando por cima de quarteirões de prédios de ferro fundido e de cortiços com loja embaixo.
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Em 10 de abril de 1968, o Departamento de Transportes do estado fez a audiência pública da obra no auditório da escola secundária Seward Park, no Lower East Side, o bairro do sudeste da ilha. Jacobs subiu ao palco com um grupo de moradores, os manifestantes arrancaram a fita da estenotipista, a profissional que registrava a sessão, e a espalharam pelo chão. Ela declarou que, sem registro, a audiência não existia.
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Foi presa ali, acusada de incitar tumulto, de dano ao patrimônio e de obstruir a administração pública. As acusações caíram depois para conduta desordeira. Em 1969, a prefeitura de John Lindsay deu o projeto por encerrado, e a via expressa nunca foi construída.
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Os quarteirões poupados formam hoje o SoHo, sigla para o trecho ao sul da rua Houston, e a Little Italy, a Pequena Itália. Em 1973, a comissão de preservação da cidade tombou o distrito de ferro fundido do SoHo.
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Ainda em 1968, Jacobs se mudou com a família para Toronto, em parte para que os filhos não fossem convocados para a Guerra do Vietnã. Lá, ajudou a barrar a via expressa Spadina, cancelada pelo governo de Ontário em 1971. Toronto foi a cidade dela pelo resto da vida; Jacobs viveu 89 anos, de 1916 a 2006.
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