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I O Viês da Semana
Ninguém provou a razão do arado
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Em 1943, o agrônomo americano Edward H. Faulkner, extensionista rural em Ohio, publicou Plowman's Folly (A Loucura do Lavrador), pela editora da Universidade de Oklahoma. O livro chegou às livrarias dez anos depois das tempestades de poeira do Dust Bowl (a Bacia do Pó), quando o vento levou o solo lavrado das planícies americanas.
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A tese cabia numa linha. O arado expunha a terra ao sol e à chuva, enterrava a palha que protegia o solo e desfazia os canais que raízes e minhocas tinham aberto.
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Na fonte “Ninguém jamais apresentou uma razão científica para arar.” Edward H. Faulkner, Plowman's Folly, 1943 (tradução livre) |
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A frase irritou professores de agronomia e vendeu bem entre fazendeiros. Mesmo assim, a lavra seguiu como norma nas fazendas americanas por mais três décadas. O plantio direto (semear sem revirar o solo) só ganhou escala por lá depois dos anos 1970, quando herbicidas e semeadoras especiais chegaram ao mercado.
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O PESO DO JÁ FEITO |
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Em 1988, os economistas William Samuelson, da Universidade de Boston, e Richard Zeckhauser, de Harvard, publicaram no Journal of Risk and Uncertainty o artigo Status Quo Bias in Decision Making (viés do status quo na tomada de decisão).
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Num dos experimentos, os voluntários recebiam uma herança hipotética e escolhiam onde aplicar o dinheiro. Para uma parte, a herança chegava sem aplicação definida. Para outra, o dinheiro já estava numa das opções, deixado assim pelo parente.
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A opção apresentada como ponto de partida ganhava preferência, qualquer que fosse ela. Os autores deram ao efeito o nome de viés do status quo: a tendência de manter o estado atual porque ele já é o atual, sem compará-lo com as alternativas.
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Uma prática que ninguém compara com a alternativa passa por obrigatória. |
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O CUSTO DE TESTAR |
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No campo, o viés tem um agravante. Um ano de colheita perdida custa a renda de um ano, e o agricultor que arava seguia o vizinho, o pai e o manual da cooperativa. Quem testasse o contrário arriscava sozinho e perdia sozinho.
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Fukuoka arriscou com a terra do pai. O pomar de mikan que secou foi o preço da tentativa sem método, e ele levou quase uma década, entre a guerra e a volta, para desenhar o sistema que funcionou.
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Faulkner questionou o arado no papel; Fukuoka provou a dúvida no próprio arrozal. A faixa seguinte descreve o calendário que ele montou, estação a estação, no lugar da lavra.
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II Na Prática
O calendário da palha
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Fukuoka chamou o método de shizen nōhō (agricultura natural, em japonês). No livro de 1975, ele o resumiu em quatro proibições, que valiam para o arrozal e para o pomar.
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OS QUATRO NÃOS |
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1. Não arar. A terra não era remexida nem com arado nem com enxada.
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2. Não usar adubo químico nem composto preparado. A fertilidade vinha da palha devolvida ao campo e do trevo.
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3. Não capinar com ferramenta nem com herbicida. A palha e o trevo ocupavam o espaço do mato.
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4. Não depender de agrotóxico. Insetos e doenças ficavam por conta do equilíbrio entre predadores e pragas.
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O ANO DO ARROZAL |
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No outono, semanas antes da colheita do arroz, ele espalhava sementes de trevo branco e de cevada entre as plantas ainda de pé. Quando o arroz era cortado, os brotos de cevada já estavam no chão.
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Depois da debulha, a palha inteira voltava ao campo, sem picar, espalhada por cima dos brotos. Ainda no outono, ele jogava a semente do arroz do ano seguinte envolvida em nendo dango (bolinhas de argila, em japonês), que protegiam o grão de pássaros e ratos até a germinação.
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A cevada era colhida em maio. Nesse ponto o arroz já tinha brotado embaixo dela, e a palha da cevada também voltava ao chão. Em junho, ele inundava o campo por cerca de uma semana, o bastante para enfraquecer o trevo sem afogar o arroz, e depois drenava a água.
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Duas colheitas por ano, no mesmo chão, sem um dia de lavra. |
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Pelas contas do próprio Fukuoka em A Revolução de Uma Palha, o rendimento do arroz e da cevada empatava com o das fazendas mais produtivas da província, e o trabalho cabia em um ou dois agricultores, sem máquina pesada.
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Ele também registrou o limite do método. Avisou no livro que a receita não se transplanta pronta para outro solo e outro clima: o sistema dependia da chuva de Ehime, do trevo certo e de anos de ajuste, e cada lugar pedia o próprio calendário.
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Na fonte “O objetivo final da agricultura não é o cultivo de lavouras, mas o cultivo e o aperfeiçoamento dos seres humanos.” Masanobu Fukuoka, A Revolução de Uma Palha, 1975 (tradução livre da edição inglesa de 1978) |
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O livro saiu no Japão em 1975, e a tradução inglesa, The One-Straw Revolution, em 1978, pela editora americana Rodale Press. Em 1988, Fukuoka recebeu o Prêmio Ramon Magsaysay, nas Filipinas. Viveu até 2008, aos 95 anos, ainda no morro de Ehime. Nos anos finais, viajou à Índia, à África e aos Estados Unidos espalhando bolinhas de argila com sementes em terras secas, para testar o método longe do arrozal.
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