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O arroz de Fukuoka nasceu sem arado

Masanobu Fukuoka, 1913-2008

Arrozal coberto de palha num morro de Ehime, no Japão

Arrozal sem lavra na província de Ehime

▼

Entre 1947 e 1975, Masanobu Fukuoka não passou arado nenhum no arrozal da família, em Iyo, na província japonesa de Ehime. Nos mesmos anos, as colheitas de arroz dele empataram com as das fazendas mais produtivas da região, segundo os números que ele publicou em A Revolução de Uma Palha, de 1975.

Fukuoka nasceu em 1913 e se formou em fitopatologia (o estudo das doenças das plantas). Aos 24 anos, trabalhava na seção de inspeção de plantas da alfândega de Yokohama, examinando ao microscópio os fungos que chegavam nos carregamentos estrangeiros.

Em 1937, uma pneumonia aguda o deixou internado. Na primavera de 1938, depois de uma noite inteira caminhando, ele parou num penhasco sobre o porto de Yokohama e, pelo relato do livro, concluiu que o conhecimento humano sobre a natureza valia muito menos do que a ciência supunha. Pediu demissão dias depois.

Voltou para Ehime, onde o pai cultivava mikan (a tangerina japonesa) num morro. O pai entregou ao filho um pomar já podado. Fukuoka deixou as árvores crescerem sem poda, os galhos se embolaram, as pragas entraram e boa parte do pomar secou. Ele mesmo contou o fracasso: tinha confundido abandonar a árvore com deixar a natureza trabalhar.

Durante a guerra, chefiou o controle de pragas e doenças no centro de pesquisa agrícola da província de Kochi. Em 1947, voltou à terra da família para ficar.

Lá, começou a cortar etapas do trabalho agrícola, uma por uma, perguntando a cada passo o que aconteceria se ele não fizesse. A etapa mais pesada da lista era a lavra, o revirar da terra com arado antes de cada plantio, que todo vizinho, todo manual e toda cooperativa tratavam como obrigatória.

Logo abaixo, dois economistas americanos e um agrônomo de Ohio explicam por que quase ninguém fazia a mesma pergunta sobre o arado.

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I  O Viês da Semana

Ninguém provou a razão do arado

 
 
 

Em 1943, o agrônomo americano Edward H. Faulkner, extensionista rural em Ohio, publicou Plowman's Folly (A Loucura do Lavrador), pela editora da Universidade de Oklahoma. O livro chegou às livrarias dez anos depois das tempestades de poeira do Dust Bowl (a Bacia do Pó), quando o vento levou o solo lavrado das planícies americanas.

A tese cabia numa linha. O arado expunha a terra ao sol e à chuva, enterrava a palha que protegia o solo e desfazia os canais que raízes e minhocas tinham aberto.

Na fonte

“Ninguém jamais apresentou uma razão científica para arar.”

Edward H. Faulkner, Plowman's Folly, 1943 (tradução livre)

 

A frase irritou professores de agronomia e vendeu bem entre fazendeiros. Mesmo assim, a lavra seguiu como norma nas fazendas americanas por mais três décadas. O plantio direto (semear sem revirar o solo) só ganhou escala por lá depois dos anos 1970, quando herbicidas e semeadoras especiais chegaram ao mercado.

O PESO DO JÁ FEITO

Em 1988, os economistas William Samuelson, da Universidade de Boston, e Richard Zeckhauser, de Harvard, publicaram no Journal of Risk and Uncertainty o artigo Status Quo Bias in Decision Making (viés do status quo na tomada de decisão).

Num dos experimentos, os voluntários recebiam uma herança hipotética e escolhiam onde aplicar o dinheiro. Para uma parte, a herança chegava sem aplicação definida. Para outra, o dinheiro já estava numa das opções, deixado assim pelo parente.

A opção apresentada como ponto de partida ganhava preferência, qualquer que fosse ela. Os autores deram ao efeito o nome de viés do status quo: a tendência de manter o estado atual porque ele já é o atual, sem compará-lo com as alternativas.

Uma prática que ninguém compara com a alternativa passa por obrigatória.

 

O CUSTO DE TESTAR

No campo, o viés tem um agravante. Um ano de colheita perdida custa a renda de um ano, e o agricultor que arava seguia o vizinho, o pai e o manual da cooperativa. Quem testasse o contrário arriscava sozinho e perdia sozinho.

Fukuoka arriscou com a terra do pai. O pomar de mikan que secou foi o preço da tentativa sem método, e ele levou quase uma década, entre a guerra e a volta, para desenhar o sistema que funcionou.

Faulkner questionou o arado no papel; Fukuoka provou a dúvida no próprio arrozal. A faixa seguinte descreve o calendário que ele montou, estação a estação, no lugar da lavra.

 
 
 
 
 
 

II  Na Prática

O calendário da palha

 
 
 

Fukuoka chamou o método de shizen nōhō (agricultura natural, em japonês). No livro de 1975, ele o resumiu em quatro proibições, que valiam para o arrozal e para o pomar.

OS QUATRO NÃOS

1. Não arar. A terra não era remexida nem com arado nem com enxada.

 

2. Não usar adubo químico nem composto preparado. A fertilidade vinha da palha devolvida ao campo e do trevo.

 

3. Não capinar com ferramenta nem com herbicida. A palha e o trevo ocupavam o espaço do mato.

 

4. Não depender de agrotóxico. Insetos e doenças ficavam por conta do equilíbrio entre predadores e pragas.

 

O ANO DO ARROZAL

No outono, semanas antes da colheita do arroz, ele espalhava sementes de trevo branco e de cevada entre as plantas ainda de pé. Quando o arroz era cortado, os brotos de cevada já estavam no chão.

Depois da debulha, a palha inteira voltava ao campo, sem picar, espalhada por cima dos brotos. Ainda no outono, ele jogava a semente do arroz do ano seguinte envolvida em nendo dango (bolinhas de argila, em japonês), que protegiam o grão de pássaros e ratos até a germinação.

A cevada era colhida em maio. Nesse ponto o arroz já tinha brotado embaixo dela, e a palha da cevada também voltava ao chão. Em junho, ele inundava o campo por cerca de uma semana, o bastante para enfraquecer o trevo sem afogar o arroz, e depois drenava a água.

Duas colheitas por ano, no mesmo chão, sem um dia de lavra.

 

Pelas contas do próprio Fukuoka em A Revolução de Uma Palha, o rendimento do arroz e da cevada empatava com o das fazendas mais produtivas da província, e o trabalho cabia em um ou dois agricultores, sem máquina pesada.

Ele também registrou o limite do método. Avisou no livro que a receita não se transplanta pronta para outro solo e outro clima: o sistema dependia da chuva de Ehime, do trevo certo e de anos de ajuste, e cada lugar pedia o próprio calendário.

Na fonte

“O objetivo final da agricultura não é o cultivo de lavouras, mas o cultivo e o aperfeiçoamento dos seres humanos.”

Masanobu Fukuoka, A Revolução de Uma Palha, 1975 (tradução livre da edição inglesa de 1978)

 

O livro saiu no Japão em 1975, e a tradução inglesa, The One-Straw Revolution, em 1978, pela editora americana Rodale Press. Em 1988, Fukuoka recebeu o Prêmio Ramon Magsaysay, nas Filipinas. Viveu até 2008, aos 95 anos, ainda no morro de Ehime. Nos anos finais, viajou à Índia, à África e aos Estados Unidos espalhando bolinhas de argila com sementes em terras secas, para testar o método longe do arrozal.

 

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III  Teste Rápido

A lavra da sua rotina

 
 
 

O viés do status quo de Samuelson e Zeckhauser não precisa de arrozal. Aparece na reunião semanal sem pauta, no relatório que segue saindo porque sempre saiu, na planilha refeita à mão todo mês.

O teste abaixo copia o gesto de Fukuoka: tirar uma etapa e olhar o resultado. Leva 15 minutos para montar e uma semana para rodar, com papel e caneta.

TRÊS PASSOS PARA CORTAR UMA ETAPA

1. Liste cinco etapas da sua semana feitas por hábito, no trabalho ou em casa. Na frente de cada etapa, escreva quem a criou e quando, se souber.

 

2. Escolha a etapa com o motivo mais fraco e suspenda por uma semana, como Fukuoka suspendeu o arado. Avise quem depende dela, se alguém depender.

 

3. No sétimo dia, anote o que piorou, o que melhorou e o que passou sem ninguém notar. A distância entre o medo e o resultado mede o peso do hábito.

 

Uma etapa só se prova necessária quando alguém a tira e mede.

 

Um exemplo de trabalho: o relatório de segunda-feira enviado para 12 pessoas. Suspenda uma semana e conte quantas perguntam por ele.

Um exemplo de casa: a faxina pesada de sábado. Troque por dez minutos diários durante uma semana e compare o estado da casa no domingo.

Um exemplo de cozinha: a lista de compras refeita do zero toda semana. Use a lista da semana anterior como base, risque o que sobrou na despensa e compare o tempo gasto e o desperdício ao fechar o mês.

Um exemplo de estudo: reler o capítulo inteiro antes da prova. Troque por responder de memória cinco perguntas sobre ele e compare o que ficou.

O teste não condena o hábito. O pomar de mikan secou porque Fukuoka tirou a poda sem pôr nada no lugar; o arrozal deu certo porque a palha e o trevo assumiram o trabalho do arado. Algumas etapas voltam depois da semana, e voltam com motivo escrito.

Manter a etapa porque o vizinho e o manual mandam, como os lavradores de Ehime faziam com o arado, ou suspender a etapa por uma semana e arriscar a colheita, como Fukuoka em 1947. As duas anotações cabem no mesmo papel.

 
 
 

Quiz da edição

No calendário do arrozal de Fukuoka, qual era a função das bolinhas de argila (nendo dango) usadas para semear o arroz?

AFertilizar o grão com nutrientes minerais antes da germinação
BMarcar a distância entre as covas de plantio no campo
CProteger a semente de pássaros e ratos até ela germinar
DAtrasar a germinação até depois da inundação de junho

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