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Os cavaletes de vidro de Lina Bo Bardi no MASP

Em 1968, o museu expôs o acervo sem parede e sem ordem de visita. Tirou os cavaletes em 1996 e devolveu em 2015.

Pinturas sobre cavaletes de vidro no salão do MASP

Os cavaletes de vidro na pinacoteca do MASP

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Em 7 de novembro de 1968, o MASP abriu o prédio da Avenida Paulista sem pendurar um quadro sequer na parede: o acervo ficava em placas de vidro presas a blocos de concreto, soltas no salão. Em 1996, a mesma instituição desmontou as placas e levou as pinturas para divisórias (histórico do acervo publicado pelo próprio MASP).

O projeto era de Lina Bo Bardi, arquiteta nascida em Roma em 1914 e radicada no Brasil desde 1946. O museu tinha sido fundado em 1947 por Assis Chateaubriand e Pietro Maria Bardi, marido dela, e passou duas décadas numa sede provisória na Rua 7 de Abril, no centro de São Paulo.

Na Paulista, ela suspendeu o prédio inteiro sobre quatro pilares e deixou embaixo um vão livre de 74 metros, uma praça coberta aberta para a rua. A pinacoteca ocupa o segundo andar, um salão único com fachadas de vidro, sem corredor e sem sala fechada.

Cada obra ganhou um cavalete próprio: uma lâmina de cristal temperado, encaixada num cubo de concreto, com a pintura presa no meio. De longe, os quadros pareciam flutuar no ar do salão. Rafael, Van Gogh, Renoir e Portinari dividiam o mesmo espaço, sem escola separada de escola.

A ficha técnica, com autor, título e data, ficava atrás da tela. Quem quisesse saber de quem era o quadro precisava primeiro olhar o quadro, e só depois dar a volta no cavalete.

Também não havia ordem de visita. Nenhuma seta, nenhum percurso cronológico, nenhuma sala do Renascimento seguida da sala do século 19. O visitante entrava e escolhia por onde começar, como numa floresta de pinturas.

A montagem durou quase três décadas. Depois, os cavaletes foram para o depósito, e as obras voltaram ao formato que quase todo museu do mundo usa: parede, etiqueta ao lado e roteiro marcado.

A primeira seção mostra o que a etiqueta ao lado faz com o olhar, segundo um experimento de neurociência publicado em 2009.

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I  O Viês da Semana

A etiqueta olha primeiro

 
 
 

Em 2009, a revista NeuroImage publicou um experimento de Ulrich Kirk, Martin Skov, Oliver Hulme, Mark Christensen e Semir Zeki. Os voluntários viam imagens abstratas dentro de um aparelho de ressonância magnética e davam nota ao quanto gostavam de cada uma.

Antes de cada imagem, aparecia uma etiqueta. Metade dizia que a obra vinha de uma galeria de arte. A outra metade dizia que tinha sido gerada no computador pelos próprios pesquisadores. As etiquetas eram sorteadas: a mesma figura podia receber qualquer uma das duas.

A MESMA IMAGEM, DUAS NOTAS

As imagens com a etiqueta de galeria receberam notas maiores. A diferença apareceu também no cérebro: áreas ligadas à recompensa e ao valor, como o córtex orbitofrontal medial, se ativaram mais quando o voluntário acreditava estar diante de arte de museu.

A psicologia chama o efeito de viés de contexto (a tendência de julgar um objeto pelo rótulo que vem com ele, e não só pelo objeto). A pintura era a mesma. O que mudava a nota era a frase lida um segundo antes.

DEZESSETE SEGUNDOS

Em 2001, Jeffrey Smith e Lisa Smith, pesquisadores ligados ao Metropolitan Museum de Nova York, publicaram na revista Empirical Studies of the Arts uma medição simples. Cronometraram 150 visitantes diante de seis obras famosas do acervo do museu.

O tempo médio foi de 27,2 segundos por obra, e a mediana, de 17 segundos. Parte desse tempo ia para a etiqueta da parede, lida ao lado da pintura, muitas vezes antes dela.

Quem lê o nome antes de olhar o quadro dá ao nome uma parte da nota.

 

No salão de Lina, a ordem se invertia. O visitante via a tela sem saber de quem era, julgava pela cor, pela figura e pelo tamanho, e só depois descobria se tinha passado meio minuto diante de um Van Gogh ou de um pintor ausente dos livros.

Na fonte

“Procurei uma arquitetura simples, uma arquitetura que pudesse comunicar de imediato aquilo que, no passado, se chamou de monumental, isto é, o sentido de coletivo, de dignidade cívica.”

Lina Bo Bardi, texto sobre o MASP, reproduzido em Lina Bo Bardi, Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, 1993

 

A frase fala de comunicar de imediato. A ficha atrás do vidro servia ao mesmo propósito: tirar do caminho o intermediário entre a pessoa e a pintura, a autoridade do nome famoso.

O experimento de 2009 mediu o efeito do rótulo em laboratório. O MASP testou o contrário numa avenida de São Paulo, por 28 anos, e depois desistiu. A seção II conta por quê, e como o cavalete voltou.

 
 
 
 
 
 

II  Na Prática

Dezenove anos de parede

 
 
 

Em 1996, a direção do MASP, presidida pelo arquiteto Júlio Neves, retirou os cavaletes de cristal da pinacoteca. As obras passaram para divisórias, organizadas por escola e período, com etiquetas ao lado.

Os argumentos da época eram conservação e segurança: o vidro exposto à luz do salão, a dificuldade de controlar temperatura num espaço aberto e o risco de acidente com as placas. O segundo andar ganhou paredes internas, e a planta livre de Lina deixou de existir.

O QUE A PAREDE TROUXE

1. Um roteiro. As escolas europeias passaram a ocupar salas em sequência, e o visitante seguia a ordem escolhida pela curadoria.

 

2. Uma hierarquia. As obras mais famosas ganharam as paredes de destaque, e o olhar chegava a elas guiado.

 

3. A etiqueta ao lado. Autor, título e data voltaram a aparecer junto da tela, lidos no mesmo segundo da pintura.

 

Arquitetos e críticos protestaram por anos. O prédio foi tombado pelo Iphan em 2003, mas o tombamento protegia a estrutura, e os cavaletes seguiram no depósito.

A VOLTA DE 2015

Em 2014, o curador Adriano Pedrosa assumiu a direção artística do museu. Em dezembro de 2015, o MASP reabriu a pinacoteca com a exposição Acervo em Transformação: 119 obras de novo sobre cavaletes de vidro, no salão sem divisórias.

Os novos cavaletes foram redesenhados pelo escritório Metro Arquitetos, com vidro laminado e base de concreto, seguindo o desenho original. A ficha voltou para trás da obra, agora acompanhada de textos de curadores e artistas.

Dezenove anos de parede terminaram com o vidro de volta ao salão.

 

Pedrosa defendeu a volta como posição de curadoria: a planta livre põe obras de séculos e países diferentes lado a lado, sem a hierarquia da sala de destaque. Um retrato europeu do século 16 pode ficar perto de uma pintura brasileira do século 20, e o visitante faz a comparação sozinho.

A remontagem também trouxe o lado difícil de volta. Sem setas, parte do público se perde no salão e sente falta de percurso; sem etiqueta ao lado, quem quer saber o nome tem de andar até a parte de trás da placa.

Os dois desenhos de museu passaram pela mesma casa: o do roteiro, com a parede e o nome à vista, e o da escolha, com o vidro e o nome escondido. A seção III leva os dois para fora do museu.

 

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III  Teste Rápido

Olhar antes do nome

 
 
 

O viés de contexto do experimento de 2009 aparece longe da pinacoteca: o vinho escolhido pelo rótulo, o livro comprado pelo selo de prêmio na capa, a opinião aceita porque veio de alguém com cargo. Em todos os casos, o nome chega antes do objeto e decide parte da nota.

O teste abaixo reproduz o cavalete de Lina em casa. Leva dez minutos e pede papel, caneta e algo que você ainda não avaliou: um texto, uma música, uma proposta de trabalho, um vinho.

Três passos para julgar sem a ficha

 

1. Peça a alguém para esconder o nome do autor, a marca ou o cargo de quem fez. No texto, apague a assinatura; na música, toque sem dizer o artista; no vinho, cubra o rótulo.

 

2. Dê uma nota de 0 a 10 e escreva numa linha o motivo, citando só o que você viu, ouviu ou provou. Nada de reputação, preço ou prêmio.

 

3. Só então descubra a ficha. Dê uma segunda nota e compare com a primeira. A distância entre as duas mede quanto o nome pesava no seu julgamento.

 

Um exemplo de trabalho: duas propostas de fornecedor, uma de empresa conhecida e outra de uma desconhecida. Leia as duas com o logotipo coberto antes de comparar preço e prazo.

Um exemplo de leitura: um parágrafo de autor premiado e outro de autor estreante, os dois sem nome. Marque qual prende mais a sua atenção antes de saber de quem é cada um.

Um exemplo de casa: o vinho de R$ 40 e o de R$ 150, servidos em copos iguais, sem garrafa à vista. A nota sem rótulo é a do seu paladar.

O teste não condena a etiqueta. A ficha informa contexto, época e técnica, e às vezes a segunda nota sobe com razão. O MASP de 1996 escolheu dar o nome primeiro; o de 1968 e o de 2015 escolheram dar a obra primeiro.

Ler a ficha primeiro e deixar o nome conduzir o olhar, como na parede de 1996, ou olhar a obra sozinho e dar a volta no cavalete só depois, como no salão de 1968. As duas notas estão no seu papel.

 
 
 

Quiz da edição

No MASP, quantos anos os cavaletes de vidro ficaram fora do salão, entre a retirada em 1996 e a volta em 2015?

A28 anos
B17 anos
C19 anos
D25 anos

Resultado da última edição: 100% acertaram.

Veja o ranking de quem mais acerta →

 

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