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I O Viês da Semana
A etiqueta olha primeiro
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Em 2009, a revista NeuroImage publicou um experimento de Ulrich Kirk, Martin Skov, Oliver Hulme, Mark Christensen e Semir Zeki. Os voluntários viam imagens abstratas dentro de um aparelho de ressonância magnética e davam nota ao quanto gostavam de cada uma.
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Antes de cada imagem, aparecia uma etiqueta. Metade dizia que a obra vinha de uma galeria de arte. A outra metade dizia que tinha sido gerada no computador pelos próprios pesquisadores. As etiquetas eram sorteadas: a mesma figura podia receber qualquer uma das duas.
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A MESMA IMAGEM, DUAS NOTAS |
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As imagens com a etiqueta de galeria receberam notas maiores. A diferença apareceu também no cérebro: áreas ligadas à recompensa e ao valor, como o córtex orbitofrontal medial, se ativaram mais quando o voluntário acreditava estar diante de arte de museu.
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A psicologia chama o efeito de viés de contexto (a tendência de julgar um objeto pelo rótulo que vem com ele, e não só pelo objeto). A pintura era a mesma. O que mudava a nota era a frase lida um segundo antes.
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DEZESSETE SEGUNDOS |
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Em 2001, Jeffrey Smith e Lisa Smith, pesquisadores ligados ao Metropolitan Museum de Nova York, publicaram na revista Empirical Studies of the Arts uma medição simples. Cronometraram 150 visitantes diante de seis obras famosas do acervo do museu.
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O tempo médio foi de 27,2 segundos por obra, e a mediana, de 17 segundos. Parte desse tempo ia para a etiqueta da parede, lida ao lado da pintura, muitas vezes antes dela.
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Quem lê o nome antes de olhar o quadro dá ao nome uma parte da nota. |
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No salão de Lina, a ordem se invertia. O visitante via a tela sem saber de quem era, julgava pela cor, pela figura e pelo tamanho, e só depois descobria se tinha passado meio minuto diante de um Van Gogh ou de um pintor ausente dos livros.
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Na fonte “Procurei uma arquitetura simples, uma arquitetura que pudesse comunicar de imediato aquilo que, no passado, se chamou de monumental, isto é, o sentido de coletivo, de dignidade cívica.” Lina Bo Bardi, texto sobre o MASP, reproduzido em Lina Bo Bardi, Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, 1993 |
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A frase fala de comunicar de imediato. A ficha atrás do vidro servia ao mesmo propósito: tirar do caminho o intermediário entre a pessoa e a pintura, a autoridade do nome famoso.
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O experimento de 2009 mediu o efeito do rótulo em laboratório. O MASP testou o contrário numa avenida de São Paulo, por 28 anos, e depois desistiu. A seção II conta por quê, e como o cavalete voltou.
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II Na Prática
Dezenove anos de parede
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Em 1996, a direção do MASP, presidida pelo arquiteto Júlio Neves, retirou os cavaletes de cristal da pinacoteca. As obras passaram para divisórias, organizadas por escola e período, com etiquetas ao lado.
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Os argumentos da época eram conservação e segurança: o vidro exposto à luz do salão, a dificuldade de controlar temperatura num espaço aberto e o risco de acidente com as placas. O segundo andar ganhou paredes internas, e a planta livre de Lina deixou de existir.
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O QUE A PAREDE TROUXE |
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1. Um roteiro. As escolas europeias passaram a ocupar salas em sequência, e o visitante seguia a ordem escolhida pela curadoria.
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2. Uma hierarquia. As obras mais famosas ganharam as paredes de destaque, e o olhar chegava a elas guiado.
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3. A etiqueta ao lado. Autor, título e data voltaram a aparecer junto da tela, lidos no mesmo segundo da pintura.
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Arquitetos e críticos protestaram por anos. O prédio foi tombado pelo Iphan em 2003, mas o tombamento protegia a estrutura, e os cavaletes seguiram no depósito.
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A VOLTA DE 2015 |
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Em 2014, o curador Adriano Pedrosa assumiu a direção artística do museu. Em dezembro de 2015, o MASP reabriu a pinacoteca com a exposição Acervo em Transformação: 119 obras de novo sobre cavaletes de vidro, no salão sem divisórias.
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Os novos cavaletes foram redesenhados pelo escritório Metro Arquitetos, com vidro laminado e base de concreto, seguindo o desenho original. A ficha voltou para trás da obra, agora acompanhada de textos de curadores e artistas.
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Dezenove anos de parede terminaram com o vidro de volta ao salão. |
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Pedrosa defendeu a volta como posição de curadoria: a planta livre põe obras de séculos e países diferentes lado a lado, sem a hierarquia da sala de destaque. Um retrato europeu do século 16 pode ficar perto de uma pintura brasileira do século 20, e o visitante faz a comparação sozinho.
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A remontagem também trouxe o lado difícil de volta. Sem setas, parte do público se perde no salão e sente falta de percurso; sem etiqueta ao lado, quem quer saber o nome tem de andar até a parte de trás da placa.
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Os dois desenhos de museu passaram pela mesma casa: o do roteiro, com a parede e o nome à vista, e o da escolha, com o vidro e o nome escondido. A seção III leva os dois para fora do museu.
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