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Wangari Maathai tirou um arranha-céu do Uhuru Park

Em 1989, uma bióloga queniana escreveu aos financiadores de uma torre de 60 andares no maior parque de Nairóbi, e a obra parou.

Wangari Maathai diante do gramado do Uhuru Park, em Nairóbi

O Uhuru Park, no centro de Nairóbi

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Em 1989, o partido único do Quênia anunciou uma torre de 60 andares no Uhuru Park, o principal parque público do centro de Nairóbi, com aprovação do governo e apoio do presidente Daniel arap Moi. No começo de 1990, a obra perdeu os financiadores estrangeiros e não saiu do papel (relato de Wangari Maathai no livro Unbowed, de 2006).

Entre um fato e outro não houve voto contrário no parlamento, nem decisão de tribunal, nem mudança de governo. Houve uma mulher escrevendo cartas.

O prédio seria a sede do Kenya Times Media Trust, grupo de mídia ligado ao partido KANU, o único permitido no país naquela época. O projeto previa escritórios, centro comercial, estacionamento e uma estátua do presidente. Seria o edifício mais alto da África.

O Uhuru Park fica ao lado do distrito comercial de Nairóbi. Uhuru quer dizer liberdade em suaíli, e o parque é onde a população da cidade passeia no domingo, faz comício e celebra datas nacionais. A torre ocuparia parte do gramado e faria sombra sobre o resto.

Wangari Maathai tinha 49 anos. Nascida em 1940, perto de Nyeri, foi a primeira mulher da África Oriental e Central a obter um doutorado, em 1971, e fundou em 1977 o Movimento Cinturão Verde, que pagava mulheres do campo para plantar árvores.

Ela leu sobre o projeto e começou a escrever. Mandou cartas ao Kenya Times, ao gabinete do presidente, ao ministério responsável, à prefeitura de Nairóbi e ao Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, que tem sede na cidade. Depois escreveu às embaixadas e aos investidores estrangeiros que bancariam a obra.

A resposta veio do plenário. Deputados a chamaram de louca, disseram que um grupo de mulheres divorciadas não tinha nada a dizer sobre o assunto, e o presidente sugeriu que ela respeitasse os homens. O Movimento Cinturão Verde foi despejado do escritório que ocupava num prédio do governo.

Ela não mudou de argumento e não parou de enviar as cartas. Meses depois, os financiadores retiraram o dinheiro.

A primeira seção mostra o que a psicologia mediu sobre uma voz sozinha contra a sala inteira, e por que a constância pesa mais do que o número de apoiadores.

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I  O Viês da Semana

Uma voz contra a sala

 
 
 

Em 1951, o psicólogo Solomon Asch, do Swarthmore College, nos Estados Unidos, pôs estudantes numa sala para comparar o tamanho de linhas desenhadas em cartões. A tarefa era fácil: sozinhos, os participantes erravam menos de 1% das vezes.

Na sala, porém, os outros sete ou oito estudantes eram atores combinados com o pesquisador. Em parte das rodadas, todos davam em voz alta a mesma resposta errada. O participante real falava por último.

A PRESSÃO DA SALA

Diante da maioria unânime, os participantes acompanharam o erro em cerca de 37% das respostas. Três em cada quatro cederam pelo menos uma vez ao longo do experimento (Asch, Scientific American, 1955).

Asch então mudou um detalhe. Pôs entre os atores um parceiro que dava a resposta certa. Com um único aliado na sala, a taxa de erro caiu para menos de um quarto do valor anterior. Uma voz discordante bastava para liberar as outras.

A MINORIA CONSTANTE

Em 1969, o psicólogo francês Serge Moscovici inverteu a pergunta. Em vez de medir quanto a maioria arrasta a minoria, mediu quanto uma minoria muda a maioria. Mostrou slides azuis a grupos de seis pessoas, duas delas combinadas com ele.

Quando as duas diziam "verde" em todos os slides, sem variar, cerca de 8% das respostas dos outros participantes também viraram "verde". Quando diziam "verde" só em parte dos slides, o efeito quase sumia, ficando perto de 1%, o mesmo do grupo sem atores (Moscovici, Lage e Naffrechoux, Sociometry, 1969).

Uma minoria muda a maioria quando repete o mesmo argumento, do mesmo jeito, por tempo suficiente.

 

Moscovici chamou o fenômeno de influência da minoria (a capacidade de um grupo pequeno alterar o julgamento de um grupo grande). O ingrediente central era a consistência: a minoria que hesita parece confusa, e a minoria que repete parece convicta.

Maathai fez os dois papéis medidos nos laboratórios. Foi o aliado de Asch para quem, dentro do governo e fora dele, discordava em silêncio da torre. E foi a minoria de Moscovici, repetindo o mesmo argumento em cada carta: o parque pertence ao público, e o público não foi consultado.

Na fonte

“No curso da história, chega um tempo em que a humanidade é chamada a passar a um novo nível de consciência, a alcançar um plano moral mais alto.”

Wangari Maathai, discurso do Prêmio Nobel da Paz, Oslo, 10 de dezembro de 2004

 

Os estudos explicam por que a constância funciona dentro de uma sala pequena. A segunda seção mostra como Maathai levou o argumento para fora da sala, até quem decidia o dinheiro.

 
 
 
 
 
 

II  Na Prática

Cartas para quem pagava

 
 
 

A torre do Uhuru Park custaria cerca de 200 milhões de dólares, segundo o relato de Maathai em Unbowed. A maior parte do dinheiro viria de empréstimos e investidores de fora do Quênia. O governo tinha aprovado a obra, mas não tinha o dinheiro para erguê-la.

Maathai percebeu onde estava o ponto frágil do projeto. Dentro do país, o partido controlava o parlamento, a imprensa oficial e a prefeitura. Fora dele, os financiadores respondiam a acionistas, à imprensa internacional e à própria reputação.

O CAMINHO DAS CARTAS

1. Primeiro, ela pediu informação ao Kenya Times e às autoridades de Nairóbi: quem aprovou a obra, com que estudo de impacto e com que consulta pública. As respostas não vieram ou vieram vagas.

 

2. Depois, escreveu às embaixadas e aos financiadores estrangeiros, com o mesmo argumento: o parque era área pública, a obra não tinha consulta, e o dinheiro deles ajudaria a tomar um espaço da população.

 

3. Por fim, levou o caso à Justiça queniana, pedindo a suspensão da obra. O tribunal recusou o pedido, mas o processo deixou o caso registrado e visível.

 

O governo reagiu nos jornais e no plenário. Ministros e deputados disseram que ela não entendia de desenvolvimento, que servia a interesses estrangeiros e que uma mulher não devia contrariar decisões de homens. A imprensa internacional passou a acompanhar a disputa.

O RECUO DOS FINANCIADORES

No começo de 1990, os investidores estrangeiros retiraram o apoio. Sem o dinheiro de fora, o projeto parou. A cerca levantada no parque foi retirada, e o gramado voltou a ser do público.

O governo tinha os votos, e os financiadores tinham o dinheiro; Maathai escreveu para quem tinha o dinheiro.

 

A disputa custou caro a ela. Nos anos seguintes, foi presa várias vezes, apanhou da polícia em protestos e passou a ser chamada de inimiga do governo. Continuou plantando árvores e escrevendo cartas pelo mesmo motivo.

Em 2002, foi eleita deputada pelo distrito de Tetu, no mesmo parlamento que a chamou de louca. Em 2004, recebeu o Prêmio Nobel da Paz, a primeira mulher africana premiada. O Movimento Cinturão Verde já tinha plantado mais de 30 milhões de árvores no Quênia.

O Uhuru Park segue no centro de Nairóbi, aberto ao público, sem torre.

 

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III  Teste Rápido

O teste da voz sozinha

 
 
 

Discordar da sala inteira aparece longe de Nairóbi: a reunião em que todos aprovam o plano com um erro visível, o grupo da família que repete a mesma notícia falsa, o condomínio que decide cortar as árvores do pátio. O estudo de Asch mostra que a maioria cede, e o de Moscovici mostra o que faz a minoria ser ouvida.

O teste abaixo leva dez minutos e pede papel e caneta. Funciona melhor com uma discordância concreta, com nome, data e um grupo definido, e não com uma insatisfação geral.

Quatro passos para discordar com constância

 

1. Escreva numa linha o argumento central, em uma frase só. Se ele não cabe numa frase, ainda não está pronto para ser repetido.

 

2. Escreva em outra linha quem decide de fato. Nem sempre é quem está na sala: Maathai perdeu no parlamento e ganhou com quem pagava a obra.

 

3. Procure um aliado antes de falar. No estudo de Asch, um parceiro só derrubou a taxa de erro para menos de um quarto.

 

4. Repita o mesmo argumento, nas mesmas palavras, cada vez que o assunto voltar. No estudo de Moscovici, a minoria que oscilava perdia quase todo o efeito.

 

Um exemplo de trabalho: o cronograma que todos aprovam e que você sabe ser impossível. A frase do passo 1 pode ser "o prazo ignora as três semanas de teste".

Um exemplo de bairro: a praça que a prefeitura quer transformar em estacionamento. O passo 2 pode apontar a câmara de vereadores, e não a reunião da associação.

Um exemplo de família: a decisão sobre o cuidado de um parente idoso, tomada por quem fala mais alto. O passo 3 pede um irmão que concorde antes do almoço de domingo.

O teste não garante vitória. Maathai perdeu no tribunal, perdeu no plenário e pagou com prisão e agressão nos anos seguintes. Ganhou onde o dinheiro estava, e ganhou porque o argumento foi o mesmo do início ao fim.

Falar agora, sozinho, com a frase pronta e o risco de ser chamado de louco, ou esperar um aliado e perder a reunião em que a decisão sai. As duas linhas estão no seu papel.

 
 
 

Quiz da edição

Segundo o texto, o que efetivamente fez os financiadores estrangeiros recuarem da torre de 60 andares no Uhuru Park?

AO parlamento queniano votou contra o projeto
BUm tribunal queniano decidiu suspender a obra
CWangari Maathai escreveu cartas aos financiadores estrangeiros
DUma mudança de governo cancelou o projeto

Resultado da última edição: 67% acertaram.

Veja o ranking de quem mais acerta →

 

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