|
|
|
I O Viês da Semana
Uma voz contra a sala
|
| |
| |
| |
|
Em 1951, o psicólogo Solomon Asch, do Swarthmore College, nos Estados Unidos, pôs estudantes numa sala para comparar o tamanho de linhas desenhadas em cartões. A tarefa era fácil: sozinhos, os participantes erravam menos de 1% das vezes.
|
|
Na sala, porém, os outros sete ou oito estudantes eram atores combinados com o pesquisador. Em parte das rodadas, todos davam em voz alta a mesma resposta errada. O participante real falava por último.
|
A PRESSÃO DA SALA |
|
Diante da maioria unânime, os participantes acompanharam o erro em cerca de 37% das respostas. Três em cada quatro cederam pelo menos uma vez ao longo do experimento (Asch, Scientific American, 1955).
|
|
Asch então mudou um detalhe. Pôs entre os atores um parceiro que dava a resposta certa. Com um único aliado na sala, a taxa de erro caiu para menos de um quarto do valor anterior. Uma voz discordante bastava para liberar as outras.
|
A MINORIA CONSTANTE |
|
Em 1969, o psicólogo francês Serge Moscovici inverteu a pergunta. Em vez de medir quanto a maioria arrasta a minoria, mediu quanto uma minoria muda a maioria. Mostrou slides azuis a grupos de seis pessoas, duas delas combinadas com ele.
|
|
Quando as duas diziam "verde" em todos os slides, sem variar, cerca de 8% das respostas dos outros participantes também viraram "verde". Quando diziam "verde" só em parte dos slides, o efeito quase sumia, ficando perto de 1%, o mesmo do grupo sem atores (Moscovici, Lage e Naffrechoux, Sociometry, 1969).
|
Uma minoria muda a maioria quando repete o mesmo argumento, do mesmo jeito, por tempo suficiente. |
|
| |
|
Moscovici chamou o fenômeno de influência da minoria (a capacidade de um grupo pequeno alterar o julgamento de um grupo grande). O ingrediente central era a consistência: a minoria que hesita parece confusa, e a minoria que repete parece convicta.
|
|
Maathai fez os dois papéis medidos nos laboratórios. Foi o aliado de Asch para quem, dentro do governo e fora dele, discordava em silêncio da torre. E foi a minoria de Moscovici, repetindo o mesmo argumento em cada carta: o parque pertence ao público, e o público não foi consultado.
|
Na fonte “No curso da história, chega um tempo em que a humanidade é chamada a passar a um novo nível de consciência, a alcançar um plano moral mais alto.” Wangari Maathai, discurso do Prêmio Nobel da Paz, Oslo, 10 de dezembro de 2004 |
|
| |
|
Os estudos explicam por que a constância funciona dentro de uma sala pequena. A segunda seção mostra como Maathai levou o argumento para fora da sala, até quem decidia o dinheiro.
|
| |
| |
| |
|
| |
|
II Na Prática
Cartas para quem pagava
|
| |
| |
| |
|
A torre do Uhuru Park custaria cerca de 200 milhões de dólares, segundo o relato de Maathai em Unbowed. A maior parte do dinheiro viria de empréstimos e investidores de fora do Quênia. O governo tinha aprovado a obra, mas não tinha o dinheiro para erguê-la.
|
|
Maathai percebeu onde estava o ponto frágil do projeto. Dentro do país, o partido controlava o parlamento, a imprensa oficial e a prefeitura. Fora dele, os financiadores respondiam a acionistas, à imprensa internacional e à própria reputação.
|
O CAMINHO DAS CARTAS |
|
1. Primeiro, ela pediu informação ao Kenya Times e às autoridades de Nairóbi: quem aprovou a obra, com que estudo de impacto e com que consulta pública. As respostas não vieram ou vieram vagas.
|
|
| |
|
2. Depois, escreveu às embaixadas e aos financiadores estrangeiros, com o mesmo argumento: o parque era área pública, a obra não tinha consulta, e o dinheiro deles ajudaria a tomar um espaço da população.
|
|
| |
|
3. Por fim, levou o caso à Justiça queniana, pedindo a suspensão da obra. O tribunal recusou o pedido, mas o processo deixou o caso registrado e visível.
|
|
| |
|
O governo reagiu nos jornais e no plenário. Ministros e deputados disseram que ela não entendia de desenvolvimento, que servia a interesses estrangeiros e que uma mulher não devia contrariar decisões de homens. A imprensa internacional passou a acompanhar a disputa.
|
O RECUO DOS FINANCIADORES |
|
No começo de 1990, os investidores estrangeiros retiraram o apoio. Sem o dinheiro de fora, o projeto parou. A cerca levantada no parque foi retirada, e o gramado voltou a ser do público.
|
O governo tinha os votos, e os financiadores tinham o dinheiro; Maathai escreveu para quem tinha o dinheiro. |
|
| |
|
A disputa custou caro a ela. Nos anos seguintes, foi presa várias vezes, apanhou da polícia em protestos e passou a ser chamada de inimiga do governo. Continuou plantando árvores e escrevendo cartas pelo mesmo motivo.
|
|
Em 2002, foi eleita deputada pelo distrito de Tetu, no mesmo parlamento que a chamou de louca. Em 2004, recebeu o Prêmio Nobel da Paz, a primeira mulher africana premiada. O Movimento Cinturão Verde já tinha plantado mais de 30 milhões de árvores no Quênia.
|
|
O Uhuru Park segue no centro de Nairóbi, aberto ao público, sem torre.
|