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Grace Hopper e o compilador de 1952

Ela escreveu o primeiro compilador em 1952, ouviu por três anos que computador só fazia aritmética e provou o contrário com a FLOW-MATIC.

Grace Hopper diante do painel do computador UNIVAC I

Grace Hopper e o UNIVAC I

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Em maio de 1952, Grace Hopper apresentou à Association for Computing Machinery, em Pittsburgh, o artigo The Education of a Computer, descrevendo um programa capaz de escrever outros programas. Em 1955, a mesma empresa onde ele rodava ainda tratava o computador como uma calculadora gigante, e a ideia dela de programar com palavras era vista como impossível (relato de Hopper em entrevista ao Smithsonian, 1980).

O programa se chamava A-0. Funcionava no UNIVAC I, a máquina da Remington Rand, e fazia uma tarefa simples de descrever e difícil de aceitar na época: juntava pedaços de código já testados e montava sozinho o programa final. Hopper deu a esse tipo de ferramenta o nome de compilador (o programa que traduz instruções para a linguagem da máquina).

Ela chegou ao UNIVAC depois de uma guerra inteira dentro de computadores. Em 1944, como oficial da Marinha americana, foi mandada para Harvard para programar o Mark I, uma máquina de 15 metros de comprimento que calculava trajetórias de artilharia. Lá aprendeu o trabalho na mão: cada instrução era um código numérico, escrito por gente e conferido por gente.

Os erros eram constantes. Um número trocado numa tabela de dezenas de páginas fazia o cálculo inteiro sair torto, e alguém passava a noite procurando onde. Hopper percebeu que boa parte do trabalho se repetia: as mesmas rotinas de seno, logaritmo e arredondamento eram copiadas à mão de programa em programa.

A pergunta dela era prática. Se a máquina faz conta sem errar, por que não deixar a máquina copiar o código também?

A resposta que recebeu, contada por ela anos depois, foi curta. Computador fazia aritmética. Não entendia instrução, não escrevia programa, não lia palavra. Ela tinha o compilador rodando, e ninguém queria usar.

A primeira seção mostra o nome que a psicologia deu para a força que segurou o compilador na gaveta.

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I  O Viês da Semana

A força do jeito antigo

 
 
 

Em 1988, os economistas William Samuelson, da Universidade de Boston, e Richard Zeckhauser, de Harvard, publicaram no Journal of Risk and Uncertainty um estudo sobre o viés do status quo (a tendência de preferir o estado atual das escolhas, mesmo quando outra opção é melhor).

Os dois montaram problemas de decisão iguais para grupos diferentes. Num grupo, todas as opções eram apresentadas como novas. No outro, uma delas aparecia como a escolha que a pessoa já tinha feito antes. A opção marcada como atual ganhava bem mais adesão, só por estar ali primeiro.

O MESMO MENU, DOIS PONTOS DE PARTIDA

Os autores repetiram o teste com dados reais. Analisaram planos de saúde de funcionários de Harvard e planos de previdência de professores americanos. Quem já estava num plano tendia a ficar nele por anos, mesmo quando um plano novo oferecia condição melhor pelo mesmo preço.

A explicação passa por três peças. Mudar exige esforço de comparar. Perder o que se tem dói mais do que ganhar algo igual. E errar por ter mudado parece pior do que errar por ter ficado parado.

Ficar parado também é uma escolha, só que ninguém assina embaixo.

 

A PROGRAMAÇÃO DOS ANOS 1950

Em 1952, programar era trabalho de especialista em código de máquina. As empresas que compravam um UNIVAC pagavam também uma equipe que dominava esse código. O jeito antigo tinha dono, salário e orgulho de ofício.

Um compilador ameaçava as três peças ao mesmo tempo. Pedia que gerentes confiassem numa máquina para escrever instruções. Mexia na função dos programadores. E, se desse errado, a culpa cairia em quem tinha aprovado a novidade.

Na fonte

“The most dangerous phrase in the language is: we've always done it this way.” (A frase mais perigosa da língua é: sempre fizemos assim.)

Grace Hopper, entrevista à revista Computerworld, 1976

 

Hopper resumiu o problema nessa frase décadas depois. Em 1952, ela ainda estava dentro dele. O compilador funcionava nas demonstrações. O que faltava era alguém disposto a pagar o preço de mudar primeiro.

Nos encontros com clientes, a objeção se repetia em formas diferentes. Um gerente dizia que a máquina era cara demais para gastar tempo traduzindo. Outro dizia que programador bom não precisava de ajuda. Nenhum dos dois apresentava a conta do tempo perdido corrigindo código à mão.

O viés do status quo não precisa de vilão. Basta um sistema que já funciona mais ou menos e um custo visível para trocar. O ganho da troca fica no futuro, e o futuro pesa pouco na hora de decidir.

 
 
 
 
 
 

II  Na Prática

Vinte frases em inglês

 
 
 

Em 1955, na Remington Rand, Hopper começou a trabalhar numa linguagem chamada B-0, que ganharia o nome comercial de FLOW-MATIC. A proposta parecia ousada para os chefes: em vez de símbolos matemáticos, o programador escreveria ordens em inglês, como multiply, compare e transfer (registros do Computer History Museum).

A escolha do inglês tinha um alvo. Os clientes do UNIVAC eram empresas que processavam folha de pagamento, estoque e cobrança. Quem tocava esse trabalho era gente de negócio, não matemático. Hopper queria um programa que o gerente conseguisse ler.

OS PASSOS DA PROVA

1. Montou um protótipo que entendia cerca de 20 comandos escritos em inglês, cada um correspondendo a uma operação de dados da empresa.

 

2. Para mostrar que as palavras eram só rótulos, fez a máquina aceitar o mesmo programa escrito em francês e em alemão. Os chefes, segundo o relato dela, ficaram mais preocupados do que convencidos.

 

3. Levou a FLOW-MATIC a clientes reais. Em 1958, a linguagem já rodava em empresas como a U.S. Steel e a Westinghouse, em tarefas de folha e estoque.

 

O episódio do francês e do alemão mostra o tamanho do obstáculo. A diretoria temia que cliente americano estranhasse uma máquina que lia outras línguas. A demonstração provava o ponto técnico e criava um problema comercial ao mesmo tempo.

Hopper respondeu com números de uso. Um programa de folha escrito em FLOW-MATIC ocupava menos páginas e podia ser conferido por quem conhecia a folha, não só por quem conhecia a máquina. O erro deixava de esconder-se num código numérico e aparecia numa frase em inglês.

DO PROTÓTIPO AO PADRÃO

Hopper insistiu no inglês. Entre 1955 e 1958, a FLOW-MATIC saiu do laboratório e virou produto vendido com o UNIVAC. Pela primeira vez, um programa de empresa podia ser lido por alguém fora da equipe técnica.

Em maio de 1959, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos reuniu fabricantes e usuários na conferência CODASYL para criar uma linguagem comum de negócios. A FLOW-MATIC foi uma das bases principais da linguagem que saiu dali, o COBOL, de 1959.

O compilador recusado em 1952 virou a base de uma linguagem usada em bancos até hoje.

 

O COBOL ainda roda em sistemas bancários e de governo em vários países. Hopper se aposentou da Marinha em 1986, aos 79 anos, como contra-almirante, a oficial mais velha da ativa na época.

 

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III  Teste Rápido

O teste do jeito antigo

 
 
 

O viés do status quo aparece longe dos computadores. Ele está na planilha que o time preenche à mão porque sempre foi assim, no plano de celular nunca revisado, na rotina de estudo mantida por hábito e não por resultado.

O sinal mais comum é a defesa sem número. Quando alguém pergunta por que o processo é assim, a resposta não traz custo nem tempo, só história. Hopper ouviu essa resposta por três anos.

Três passos para pesar o jeito antigo

 

1. Escolha um processo que você repete toda semana: um relatório, um trajeto, uma forma de estudar, uma conta paga do mesmo jeito. Escreva o nome dele numa linha.

 

2. Meça quanto ele custa hoje, em minutos ou em reais, durante uma semana. Anote o número, sem arredondar a favor do hábito.

 

3. Desenhe a versão nova mais simples possível e rode uma vez, como Hopper rodou o protótipo de 20 comandos, com o resultado anotado ao lado do número do passo 2.

 

Um exemplo de trabalho: o relatório mensal montado copiando dados de três sistemas. A versão nova é uma planilha que puxa os dados sozinha, testada num mês só.

Um exemplo de casa: o seguro do carro renovado sem cotação há cinco anos. A versão nova são duas cotações em meia hora, com o preço comparado ao da renovação automática.

Um exemplo de estudo: a revisão por releitura do caderno inteiro. A versão nova é responder dez perguntas sem olhar, contando os acertos.

Em todos os casos, o passo 2 vem antes do passo 3 por um motivo: sem o número do jeito antigo, a versão nova sempre parece pior no primeiro dia. O hábito tem a vantagem de já estar treinado, e a novidade começa devagar. Comparar sem o número favorece quem chegou primeiro, como os planos de saúde do estudo de 1988.

A troca tem custo. Hopper passou três anos ouvindo não, e a FLOW-MATIC levou mais três para chegar a cliente pagante. O jeito antigo às vezes vence a comparação, e o número do passo 2 serve para saber quando.

Manter o processo de hoje, com o custo já conhecido e anotado no passo 2, ou rodar uma vez a versão nova, como Hopper fez em 1955, e aceitar o tropeço do começo. Os dois números ficam lado a lado no papel.

 
 
Quiz da edição

Em maio de 1959, qual conferência reuniu fabricantes e usuários dos Estados Unidos para criar uma linguagem comum de negócios a partir da FLOW-MATIC?

AConferência Dartmouth sobre inteligência artificial
BReunião anual da ACM em Pittsburgh
CConferência CODASYL, convocada pelo Departamento de Defesa
DCongresso de usuários da IBM

Resultado da última edição: 50% acertaram.

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