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I O Viês da Semana
A força do jeito antigo
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Em 1988, os economistas William Samuelson, da Universidade de Boston, e Richard Zeckhauser, de Harvard, publicaram no Journal of Risk and Uncertainty um estudo sobre o viés do status quo (a tendência de preferir o estado atual das escolhas, mesmo quando outra opção é melhor).
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Os dois montaram problemas de decisão iguais para grupos diferentes. Num grupo, todas as opções eram apresentadas como novas. No outro, uma delas aparecia como a escolha que a pessoa já tinha feito antes. A opção marcada como atual ganhava bem mais adesão, só por estar ali primeiro.
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O MESMO MENU, DOIS PONTOS DE PARTIDA |
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Os autores repetiram o teste com dados reais. Analisaram planos de saúde de funcionários de Harvard e planos de previdência de professores americanos. Quem já estava num plano tendia a ficar nele por anos, mesmo quando um plano novo oferecia condição melhor pelo mesmo preço.
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A explicação passa por três peças. Mudar exige esforço de comparar. Perder o que se tem dói mais do que ganhar algo igual. E errar por ter mudado parece pior do que errar por ter ficado parado.
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Ficar parado também é uma escolha, só que ninguém assina embaixo. |
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A PROGRAMAÇÃO DOS ANOS 1950 |
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Em 1952, programar era trabalho de especialista em código de máquina. As empresas que compravam um UNIVAC pagavam também uma equipe que dominava esse código. O jeito antigo tinha dono, salário e orgulho de ofício.
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Um compilador ameaçava as três peças ao mesmo tempo. Pedia que gerentes confiassem numa máquina para escrever instruções. Mexia na função dos programadores. E, se desse errado, a culpa cairia em quem tinha aprovado a novidade.
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Na fonte “The most dangerous phrase in the language is: we've always done it this way.” (A frase mais perigosa da língua é: sempre fizemos assim.) Grace Hopper, entrevista à revista Computerworld, 1976 |
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Hopper resumiu o problema nessa frase décadas depois. Em 1952, ela ainda estava dentro dele. O compilador funcionava nas demonstrações. O que faltava era alguém disposto a pagar o preço de mudar primeiro.
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Nos encontros com clientes, a objeção se repetia em formas diferentes. Um gerente dizia que a máquina era cara demais para gastar tempo traduzindo. Outro dizia que programador bom não precisava de ajuda. Nenhum dos dois apresentava a conta do tempo perdido corrigindo código à mão.
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O viés do status quo não precisa de vilão. Basta um sistema que já funciona mais ou menos e um custo visível para trocar. O ganho da troca fica no futuro, e o futuro pesa pouco na hora de decidir.
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II Na Prática
Vinte frases em inglês
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Em 1955, na Remington Rand, Hopper começou a trabalhar numa linguagem chamada B-0, que ganharia o nome comercial de FLOW-MATIC. A proposta parecia ousada para os chefes: em vez de símbolos matemáticos, o programador escreveria ordens em inglês, como multiply, compare e transfer (registros do Computer History Museum).
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A escolha do inglês tinha um alvo. Os clientes do UNIVAC eram empresas que processavam folha de pagamento, estoque e cobrança. Quem tocava esse trabalho era gente de negócio, não matemático. Hopper queria um programa que o gerente conseguisse ler.
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OS PASSOS DA PROVA |
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1. Montou um protótipo que entendia cerca de 20 comandos escritos em inglês, cada um correspondendo a uma operação de dados da empresa.
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2. Para mostrar que as palavras eram só rótulos, fez a máquina aceitar o mesmo programa escrito em francês e em alemão. Os chefes, segundo o relato dela, ficaram mais preocupados do que convencidos.
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3. Levou a FLOW-MATIC a clientes reais. Em 1958, a linguagem já rodava em empresas como a U.S. Steel e a Westinghouse, em tarefas de folha e estoque.
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O episódio do francês e do alemão mostra o tamanho do obstáculo. A diretoria temia que cliente americano estranhasse uma máquina que lia outras línguas. A demonstração provava o ponto técnico e criava um problema comercial ao mesmo tempo.
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Hopper respondeu com números de uso. Um programa de folha escrito em FLOW-MATIC ocupava menos páginas e podia ser conferido por quem conhecia a folha, não só por quem conhecia a máquina. O erro deixava de esconder-se num código numérico e aparecia numa frase em inglês.
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DO PROTÓTIPO AO PADRÃO |
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Hopper insistiu no inglês. Entre 1955 e 1958, a FLOW-MATIC saiu do laboratório e virou produto vendido com o UNIVAC. Pela primeira vez, um programa de empresa podia ser lido por alguém fora da equipe técnica.
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Em maio de 1959, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos reuniu fabricantes e usuários na conferência CODASYL para criar uma linguagem comum de negócios. A FLOW-MATIC foi uma das bases principais da linguagem que saiu dali, o COBOL, de 1959.
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O compilador recusado em 1952 virou a base de uma linguagem usada em bancos até hoje. |
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O COBOL ainda roda em sistemas bancários e de governo em vários países. Hopper se aposentou da Marinha em 1986, aos 79 anos, como contra-almirante, a oficial mais velha da ativa na época.
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