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I O Viês da Semana
O selo antes da prova
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Nas ciências, um artigo só costuma contar depois da revisão por pares (dois ou três especialistas anônimos leem o texto e recomendam aprovar ou recusar). O selo da revista poupa tempo: ninguém precisa reler tudo, basta saber quem aprovou.
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O PESO DO JALECO |
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O psicólogo Stanley Milgram, da Universidade Yale, mediu a força de uma figura de autoridade no artigo Behavioral Study of Obedience (Estudo comportamental da obediência), publicado em 1963 no Journal of Abnormal and Social Psychology. Um homem de jaleco cinza pedia aos voluntários que dessem choques num desconhecido a cada resposta errada.
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Os choques eram falsos e o desconhecido era um ator. Mesmo assim, 26 dos 40 voluntários foram até o último botão do painel, marcado com 450 volts. A ordem vinha de alguém com cargo, num laboratório de universidade, e a maioria obedeceu.
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A psicologia chama esse padrão de viés de autoridade: a tendência de medir uma afirmação pelo posto de quem a faz, e não pelo conteúdo. Na pesquisa, o selo da revista cumpre o papel do jaleco. Texto aprovado passa com pouca leitura; texto sem selo é lido à procura do erro.
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O selo conta quem aprovou o texto. A prova se confere lendo. |
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O CASO DE 1993 |
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O próprio selo erra. Em junho de 1993, o inglês Andrew Wiles anunciou em Cambridge, na Inglaterra, a prova do Último Teorema de Fermat. Os revisores da revista Annals of Mathematics acharam uma falha no argumento meses depois. Wiles levou mais de um ano, com a ajuda do aluno Richard Taylor, para fechar a lacuna, e a versão corrigida saiu na Annals em 1995.
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O processo funcionou porque alguém leu o texto com cuidado. O selo veio depois da leitura, e não no lugar dela. Perelman cortou o selo e deixou só a leitura: pôs a prova onde qualquer matemático do mundo podia abri-la de graça.
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Na fonte “Se a prova está correta, nenhum outro reconhecimento é necessário.” Grigori Perelman, citado por Sylvia Nasar e David Gruber em Manifold Destiny, The New Yorker, 2006 |
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A frase troca a pergunta habitual. Quem lia o arXiv não podia perguntar qual revista tinha aprovado; só podia perguntar se o argumento parava em pé. Sem parecer de revista, alguém precisava fazer a conferência inteira, e ela demorou três anos.
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II Na Prática
Três equipes conferiram as linhas
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Perelman construiu a prova sobre o fluxo de Ricci (uma equação que alisa uma forma aos poucos, como o calor que se espalha por uma chapa de metal), proposto em 1982 pelo americano Richard Hamilton, da Universidade Cornell. Hamilton travou nas singularidades (pontos em que a forma se estrangula durante o alisamento). Perelman mostrou como cortar essas regiões e costurar o resto, um passo chamado de cirurgia.
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Em abril de 2003, ele foi aos Estados Unidos e deu palestras no MIT, na Universidade Stony Brook e em Princeton. Respondeu às perguntas de quem estava na sala, voltou para São Petersburgo e não escreveu uma quarta parte. Os textos tinham poucas páginas para um problema daquele tamanho, e muitos passos ficavam implícitos.
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COMO A PROVA FOI CONFERIDA |
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1. Bruce Kleiner e John Lott, da Universidade de Michigan, puseram notas online a partir de 2003, completando passo a passo os textos; a versão final saiu na revista Geometry & Topology em 2008.
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2. Huai-Dong Cao e Xi-Ping Zhu publicaram em junho de 2006, na Asian Journal of Mathematics, uma reconstrução completa da prova.
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3. John Morgan e Gang Tian lançaram em 2007 o livro Ricci Flow and the Poincaré Conjecture (O fluxo de Ricci e a conjectura de Poincaré), pela American Mathematical Society com o Clay Institute.
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Nenhuma das três equipes achou erro fatal. As três preencheram lacunas e chegaram à mesma conclusão: o argumento parava em pé. Em dezembro de 2006, a revista Science escolheu a prova como o avanço científico do ano.
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A prova ganhou valor quando três equipes a leram até a última linha. |
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AS DUAS RECUSAS |
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Em junho de 2006, o britânico John Ball, então presidente da União Matemática Internacional, viajou a São Petersburgo e passou dois dias tentando convencer Perelman a aceitar a Fields. Ele recusou. Em Madri, o nome dele foi lido, e ninguém subiu ao palco.
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Em 18 de março de 2010, o Clay Institute anunciou o prêmio do Milênio para ele. Em 1º de julho de 2010, a agência russa Interfax publicou a resposta: Perelman considerou a decisão injusta e disse que a contribuição de Hamilton não tinha sido menor do que a sua. O dinheiro ficou com o Clay, que o usou para criar, com o Instituto Henri Poincaré de Paris, uma cátedra para jovens matemáticos.
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Perelman já tinha deixado o Steklov em dezembro de 2005. Vive em São Petersburgo e não dá entrevistas. Não se sabe em que trabalha hoje: ele não publicou mais nada no arXiv e não fala com a imprensa, então qualquer versão sobre a vida dele depois de 2010 é palpite de jornal.
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