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I O Viês da Semana
O homem que não podia ter inventado
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O conselho cherokee não tinha motivo para duvidar dos sinais em si, porque ninguém os tinha lido ainda. A dúvida vinha do autor: um homem sem escola, que não lia inglês, não poderia ter feito o que missionários com universidade não tinham feito.
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O EFEITO HALO AO CONTRÁRIO |
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O psicólogo americano Edward Thorndike deu nome ao mecanismo no artigo A Constant Error in Psychological Ratings (Um erro constante nas avaliações psicológicas), publicado em 1920 no Journal of Applied Psychology. Ele analisou as notas que oficiais do exército davam aos próprios soldados e viu que a impressão geral sobre o homem contaminava a nota de cada qualidade separada.
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Quem era visto como bom de porte recebia nota alta também em inteligência e lealdade. Thorndike chamou o padrão de efeito halo (a auréola dos santos nas pinturas, que faz tudo em volta brilhar). O mesmo erro corre na direção oposta: um traço que o grupo despreza apaga o resto, e a psicologia chama essa versão de efeito chifre.
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Sequoyah juntava os traços desprezados: não lia, não tinha escola, vivia isolado, mancava. A conclusão saltava do homem para o produto. Se o homem não sabia ler, o papel dele não podia ser escrita. E se não era escrita, só sobrava a explicação da feitiçaria.
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O rótulo do autor chega antes da obra e decide por ela. |
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A ESCRITA TINHA DONO |
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Os cherokees de 1821 não eram crédulos. Eram uma nação com conselho, leis escritas por intérpretes e comércio com os Estados Unidos. Mas a escrita tinha chegado a eles sempre pelas mãos de brancos, missionários e agentes do governo. O dono da escrita, na cabeça de quase todos, já estava definido.
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Na fonte “O intelecto humano, quando adota uma opinião, seja por ser a opinião aceita, seja por lhe agradar, arrasta todo o resto para apoiá-la e concordar com ela.” Francis Bacon, Novum Organum, aforismo 46, 1620 |
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Sequoyah não discutiu com os acusadores. Pediu um teste. A ideia dele era simples: se os sinais guardavam a fala, alguém longe dele teria de ler o que ele escreveu, sem ajuda nenhuma. O teste não pedia a ninguém que acreditasse nele, só que observasse o papel.
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II Na Prática
A prova da menina de seis anos
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A pessoa escolhida para o teste foi Ayoka, filha de Sequoyah, então com cerca de seis anos. Ele tinha ensinado os sinais a ela em casa. Segundo o relato preservado pela Cherokee Nation, os chefes do conselho levaram pai e filha para lugares separados, longe o bastante para um não ouvir a voz do outro.
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COMO O CONSELHO MONTOU O TESTE |
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1. Separação: Sequoyah ficava num ponto, Ayoka noutro, sem linha de visão nem de voz entre os dois.
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2. Ditado: os chefes falavam a Sequoyah palavras e frases escolhidas por eles, e ele as escrevia com os sinais.
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3. Leitura: um mensageiro levava o papel até a menina, ela lia em voz alta, e os chefes comparavam com o que tinham ditado.
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A menina leu as mensagens. O conselho repetiu o processo no sentido oposto, com ela escrevendo e o pai lendo, e o resultado bateu. A acusação de feitiçaria perdeu o chão: o que funcionava longe do autor era sistema, e não poder pessoal.
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Os relatos não guardam quais palavras foram ditadas nem quantas rodadas o teste teve. A tradição registrou só o resultado e o pedido dos chefes para aprender os sinais.
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POR QUE 86 SINAIS BASTAVAM |
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O silabário (sistema de escrita em que cada sinal vale uma sílaba, e não uma letra) tinha uma vantagem sobre o alfabeto inglês para quem falava cherokee: o sinal soa sempre igual. Quem decorava os 86 sinais já sabia ler qualquer palavra da própria língua.
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Por causa dessa regularidade, o aprendizado corria em dias, e não em anos. Adultos aprendiam com vizinhos, sem escola e sem missionário. Em 1825, o conselho adotou o silabário oficialmente. Um dos 86 sinais acabou caindo de uso, e o conjunto ensinado hoje tem 85.
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Em 21 de fevereiro de 1828 saiu em New Echota, capital cherokee no atual estado da Geórgia, a primeira edição do Cherokee Phoenix, jornal em inglês e em cherokee, impresso com tipos fundidos para os sinais de Sequoyah. A Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos registra o título como o primeiro jornal publicado por uma nação indígena no país.
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DEPOIS DO TESTE |
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Sequoyah mudou para o oeste, no território que hoje é Oklahoma, e ali ensinou o silabário aos cherokees que já tinham migrado. Em 1824, o conselho lhe deu uma medalha de prata pelo trabalho. Ele faleceu por volta de 1843, numa viagem ao México atrás de um grupo cherokee que vivia lá. A data exata e o lugar do túmulo nunca foram confirmados: a comitiva voltou sem documento, e as buscas posteriores não acharam o corpo.
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