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Sequoyah criou 86 sinais da escrita cherokee sem saber ler

Em 1821, acusado de feitiçaria, ele provou o silabário diante do conselho cherokee com a ajuda da filha de seis anos.

Sequoyah segura uma folha com os sinais do silabário cherokee

Os 86 sinais de Sequoyah

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Em 1821, Sequoyah, um ourives cherokee de cerca de 50 anos, não lia uma linha em inglês nem em língua nenhuma (Smithsonian, National Museum of the American Indian). Em 1825, o Conselho da Nação Cherokee adotou como escrita oficial o silabário de 86 sinais criado por ele (Cherokee Nation, histórico oficial do silabário).

Sequoyah nasceu por volta de 1770 em Tuskegee, aldeia no atual estado do Tennessee, filho de mãe cherokee e de um comerciante branco. Também atendia pelo nome inglês George Gist. Trabalhava a prata, consertava ferramentas e mancava de uma perna desde jovem.

Nas guerras do começo do século XIX, ele viu soldados americanos lendo cartas de casa e ordens escritas em papel. Os cherokees chamavam aquelas folhas de folhas falantes. Para os vizinhos dele, a escrita era um dom dos brancos, um instrumento que um povo indígena não tinha como fabricar.

Por volta de 1809, Sequoyah começou a tentar. A primeira ideia foi dar um desenho a cada palavra da língua. Depois de anos, a pilha de desenhos já passava de mil e não chegava ao fim, porque cada palavra nova pedia um sinal novo.

Ele trocou de caminho e passou a ouvir a fala em pedaços. Percebeu que o cherokee se monta com um número limitado de sílabas, e que bastava um sinal para cada sílaba. Em 1821, o sistema estava pronto, com 86 sinais.

Na aldeia, o trabalho parecia outra história. Um homem sozinho, riscando cascas e papéis por anos, conversando com marcas. Vizinhos o acusaram de feitiçaria. Uma tradição oral cherokee conta ainda que a mulher dele queimou parte dos papéis; nenhum documento escrito confirma o episódio, e ele segue como relato de família.

Sequoyah tinha um sistema pronto e uma aldeia convencida de que ele não podia ter feito um sistema. A seção abaixo mostra por que quase ninguém conseguia julgar os 86 sinais sem olhar primeiro para o homem que os riscou.

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I  O Viês da Semana

O homem que não podia ter inventado

 
 
 

O conselho cherokee não tinha motivo para duvidar dos sinais em si, porque ninguém os tinha lido ainda. A dúvida vinha do autor: um homem sem escola, que não lia inglês, não poderia ter feito o que missionários com universidade não tinham feito.

O EFEITO HALO AO CONTRÁRIO

O psicólogo americano Edward Thorndike deu nome ao mecanismo no artigo A Constant Error in Psychological Ratings (Um erro constante nas avaliações psicológicas), publicado em 1920 no Journal of Applied Psychology. Ele analisou as notas que oficiais do exército davam aos próprios soldados e viu que a impressão geral sobre o homem contaminava a nota de cada qualidade separada.

Quem era visto como bom de porte recebia nota alta também em inteligência e lealdade. Thorndike chamou o padrão de efeito halo (a auréola dos santos nas pinturas, que faz tudo em volta brilhar). O mesmo erro corre na direção oposta: um traço que o grupo despreza apaga o resto, e a psicologia chama essa versão de efeito chifre.

Sequoyah juntava os traços desprezados: não lia, não tinha escola, vivia isolado, mancava. A conclusão saltava do homem para o produto. Se o homem não sabia ler, o papel dele não podia ser escrita. E se não era escrita, só sobrava a explicação da feitiçaria.

O rótulo do autor chega antes da obra e decide por ela.

 

A ESCRITA TINHA DONO

Os cherokees de 1821 não eram crédulos. Eram uma nação com conselho, leis escritas por intérpretes e comércio com os Estados Unidos. Mas a escrita tinha chegado a eles sempre pelas mãos de brancos, missionários e agentes do governo. O dono da escrita, na cabeça de quase todos, já estava definido.

Na fonte

“O intelecto humano, quando adota uma opinião, seja por ser a opinião aceita, seja por lhe agradar, arrasta todo o resto para apoiá-la e concordar com ela.”

Francis Bacon, Novum Organum, aforismo 46, 1620

 

Sequoyah não discutiu com os acusadores. Pediu um teste. A ideia dele era simples: se os sinais guardavam a fala, alguém longe dele teria de ler o que ele escreveu, sem ajuda nenhuma. O teste não pedia a ninguém que acreditasse nele, só que observasse o papel.

 
 
 
 
 
 

II  Na Prática

A prova da menina de seis anos

 
 
 

A pessoa escolhida para o teste foi Ayoka, filha de Sequoyah, então com cerca de seis anos. Ele tinha ensinado os sinais a ela em casa. Segundo o relato preservado pela Cherokee Nation, os chefes do conselho levaram pai e filha para lugares separados, longe o bastante para um não ouvir a voz do outro.

COMO O CONSELHO MONTOU O TESTE

1. Separação: Sequoyah ficava num ponto, Ayoka noutro, sem linha de visão nem de voz entre os dois.

 

2. Ditado: os chefes falavam a Sequoyah palavras e frases escolhidas por eles, e ele as escrevia com os sinais.

 

3. Leitura: um mensageiro levava o papel até a menina, ela lia em voz alta, e os chefes comparavam com o que tinham ditado.

 

A menina leu as mensagens. O conselho repetiu o processo no sentido oposto, com ela escrevendo e o pai lendo, e o resultado bateu. A acusação de feitiçaria perdeu o chão: o que funcionava longe do autor era sistema, e não poder pessoal.

Os relatos não guardam quais palavras foram ditadas nem quantas rodadas o teste teve. A tradição registrou só o resultado e o pedido dos chefes para aprender os sinais.

POR QUE 86 SINAIS BASTAVAM

O silabário (sistema de escrita em que cada sinal vale uma sílaba, e não uma letra) tinha uma vantagem sobre o alfabeto inglês para quem falava cherokee: o sinal soa sempre igual. Quem decorava os 86 sinais já sabia ler qualquer palavra da própria língua.

Por causa dessa regularidade, o aprendizado corria em dias, e não em anos. Adultos aprendiam com vizinhos, sem escola e sem missionário. Em 1825, o conselho adotou o silabário oficialmente. Um dos 86 sinais acabou caindo de uso, e o conjunto ensinado hoje tem 85.

Em 21 de fevereiro de 1828 saiu em New Echota, capital cherokee no atual estado da Geórgia, a primeira edição do Cherokee Phoenix, jornal em inglês e em cherokee, impresso com tipos fundidos para os sinais de Sequoyah. A Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos registra o título como o primeiro jornal publicado por uma nação indígena no país.

DEPOIS DO TESTE

Sequoyah mudou para o oeste, no território que hoje é Oklahoma, e ali ensinou o silabário aos cherokees que já tinham migrado. Em 1824, o conselho lhe deu uma medalha de prata pelo trabalho. Ele faleceu por volta de 1843, numa viagem ao México atrás de um grupo cherokee que vivia lá. A data exata e o lugar do túmulo nunca foram confirmados: a comitiva voltou sem documento, e as buscas posteriores não acharam o corpo.

 

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III  Teste Rápido

O teste da sala separada

 
 
 

O conselho cherokee fez algo raro em reunião de trabalho: tirou o autor da sala antes de julgar a obra. Ninguém precisou decidir se Sequoyah era sábio ou feiticeiro. Bastava ver se o papel falava sozinho.

O efeito chifre aparece em escala pequena todos os dias. A sugestão do estagiário ganha menos atenção do que a mesma sugestão vinda do diretor. O texto de quem não tem diploma é lido à caça de erro. A receita da vizinha é descartada porque ela erra a concordância.

Sequoyah teve a sorte de pedir a prova a um conselho disposto a montá-la. Em muitas reuniões, a ideia cai antes de chegar ao teste, na primeira frase de quem a ouve: quem é essa pessoa para propor algo assim? A pergunta parece prudente e toma o lugar da única que interessa, se a ideia funciona.

Teste da sala separada

 

1. Escolha uma ideia que você descartou nos últimos meses. Escreva quem a propôs e, em outra linha, o motivo do descarte.

 

2. Apague o nome do autor. Reescreva a ideia como se viesse de alguém que você respeita, e leia de novo o motivo do descarte.

 

3. Monte uma prova longe do autor: um teste pequeno e barato, em que a ideia funcione ou falhe sem ninguém defendê-la, como os papéis levados até Ayoka.

 

Um exemplo de casa: o filho adolescente sugere trocar a carona da escola por um aplicativo de ônibus. A ideia parece birra de quem quer dormir até mais tarde. Uma semana de teste, cronometrada, mostra se o caminho novo chega antes.

Um exemplo de trabalho: o atendente novo propõe responder reclamações por áudio. A gerência acha informal. Duas semanas com metade dos casos por áudio e metade por texto mostram qual grupo volta a reclamar.

Um exemplo de dinheiro: o cunhado que você acha desorganizado indica uma conta de investimento com taxa menor. Ponha lado a lado no papel a taxa anual das duas contas, sem o nome de quem indicou.

O teste tem custo. Separar o autor exige montar a prova, esperar o resultado e, às vezes, admitir diante dos outros que o descarte foi pelo nome, e não pelo conteúdo. E há casos em que a prova confirma a primeira impressão: a ideia era fraca mesmo.

Descartar a ideia pelo histórico de quem a trouxe e poupar o tempo da prova, ou separar autor e obra, como o conselho separou Sequoyah de Ayoka, e pagar a semana de teste. O motivo do descarte está anotado no item 1.

 
 
Quiz da edição

No teste que o conselho cherokee aplicou para provar os sinais de Sequoyah, quem foi levado a um ponto separado para ler em voz alta o que ele tinha escrito, sem ouvir a voz dele?

AUm missionário que vivia na aldeia
BA esposa de Sequoyah
CUm dos chefes do conselho cherokee
DAyoka, filha de Sequoyah, de cerca de seis anos

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