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Chaplin lançou Luzes da Cidade sem uma linha de diálogo

Em 1931, Hollywood inteira falava na tela, e Chaplin estreou um filme mudo, com trilha composta por ele, que rendeu cerca de 5 milhões de dólares.

Charles Chaplin como o vagabundo diante da florista cega em Luzes da Cidade

O vagabundo e a florista, Luzes da Cidade, 1931

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Em outubro de 1927, a Warner Bros. estreou O Cantor de Jazz, o primeiro longa com falas sincronizadas, e em dois anos quase todo estúdio de Hollywood tinha trocado o silêncio pelo som (David Robinson, Chaplin: His Life and Art, 1985). Em janeiro de 1931, Charles Chaplin estreou Luzes da Cidade sem uma linha de diálogo, e o filme rendeu cerca de 5 milhões de dólares no mundo (Jeffrey Vance, Chaplin: Genius of the Cinema, 2003).

Entre uma data e outra, o cinema mudo deixou de existir como negócio. Os estúdios gastaram fortunas para equipar salas com alto-falantes. Atores com voz fina ou sotaque forte perderam contrato. Músicos que tocavam ao vivo nas sessões foram dispensados aos milhares.

Chaplin já filmava Luzes da Cidade quando a onda chegou. As primeiras tomadas são do fim de 1927 e começo de 1928. O enredo era simples: um vagabundo se apaixona por uma florista cega que o toma por milionário, e ele tenta pagar a cirurgia que pode devolver a visão a ela.

Os conselheiros do estúdio dele pediram o óbvio: refazer o filme com falas. Os jornais de Hollywood repetiam a mesma previsão, a de que o público não pagaria mais para ver gente muda na tela. Os concorrentes de Chaplin no humor físico, como Buster Keaton e Harold Lloyd, já ensaiavam os primeiros filmes falados.

Chaplin pesou a proposta e ficou do outro lado. Manteve o vagabundo calado, gastou mais dois anos de filmagem e montagem e compôs ele mesmo a música que acompanharia cada cena. O custo passou de 1,5 milhão de dólares, quase tudo do bolso dele, porque Chaplin era dono do próprio estúdio.

A estreia em Los Angeles, em 30 de janeiro de 1931, teve Albert Einstein na plateia, como convidado do diretor. Em Nova York, o filme ficou em cartaz por semanas num teatro de 1.150 lugares, com fila na calçada.

A seção abaixo mostra por que quase ninguém em Hollywood conseguia sequer cogitar o caminho que Chaplin tomou.

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I  O Viês da Semana

Quando o estúdio inteiro vira a cabeça

 
 
 

Os executivos de 1929 não eram tolos. Viam a bilheteria de O Cantor de Jazz, liam os relatórios das salas recém-equipadas e ouviam o mesmo diagnóstico de todos os lados. Quando cada vizinho converte o estúdio, ficar parado parece teimosia.

A pressão vinha em cascata. O banco que financiava pedia som, o distribuidor pedia som, o dono da sala tinha comprado alto-falantes e queria usá-los. Cada um tomava a decisão olhando a decisão do outro, e quase ninguém olhava o filme.

O EFEITO MANADA

A psicologia dá nome a esse empurrão. Efeito manada é a tendência de adotar uma escolha porque muita gente já adotou, dando ao número de adeptos o peso que deveria ser da evidência.

O psicólogo polonês Solomon Asch mediu a força do fenômeno em 1951. Ele colocava um voluntário numa sala com sete ou oito atores combinados e pedia para comparar o comprimento de linhas desenhadas num cartão. A resposta certa era evidente.

Em parte das rodadas, os atores davam em voz alta a mesma resposta errada. Asch relatou que cerca de três em cada quatro voluntários concordaram com o grupo pelo menos uma vez, e que, no total das rodadas críticas, perto de um terço das respostas seguiu o erro coletivo.

Quando todos escolhem igual, a escolha parece provada antes de ser testada.

 

O QUE CHAPLIN OLHOU NO LUGAR DA FILA

Chaplin trocou a pergunta. Os estúdios perguntavam o que o público estava comprando naquele ano. Ele perguntou o que o vagabundo dele vendia. A resposta era um corpo que falava com o mundo inteiro sem tradução, de Tóquio a Buenos Aires.

Um vagabundo com voz teria um sotaque, uma língua e um país. O vagabundo mudo pertencia a todo lugar onde houvesse uma tela. Para Chaplin, abrir mão do silêncio era abrir mão do mercado que ele já tinha conquistado.

Na fonte

“Ver o rosto dele no fim de Luzes da Cidade é ver a maior atuação já registrada em película.”

James Agee, Comedy's Greatest Era (A maior era da comédia), revista Life, 1949

 

O cálculo dele tinha risco. Se o público tivesse mesmo abandonado o cinema mudo, os 1,5 milhão de dólares iriam para o lixo, e o nome de Chaplin iria junto. A fila na calçada de Nova York mostrou o resultado, mas a decisão foi tomada antes da fila.

 
 
 
 
 
 

II  Na Prática

Trilha própria e nenhuma palavra

 
 
 

Recusar a fala exigia resolver três problemas que o diálogo resolvia sozinho: explicar o enredo sem frases, segurar a emoção sem a voz dos atores e dar ao público a experiência sonora que ele já esperava de um filme novo.

OS TRÊS RECURSOS

Chaplin respondeu com três escolhas, cada uma para um dos problemas:

1. Gesto no lugar de frase: cada cena foi desenhada para ser entendida só pelo movimento. Na cena em que a florista confunde o vagabundo com um milionário, a pista é o som de uma porta de carro batendo, e nenhum letreiro explica o engano.

 

2. Música composta por ele: Chaplin não lia partitura com fluência, então cantarolava e tocava as melodias ao piano para o arranjador Arthur Johnston, que as passava para a orquestra. A trilha gravada em sincronia substituía os músicos ao vivo que as salas já tinham demitido.

 

3. Som contra a fala: na abertura, durante a inauguração de uma estátua, os discursos das autoridades saem como guinchos de apito, sem uma palavra inteligível. A cena zomba do cinema falado usando a própria tecnologia do som.

 

Os três recursos trabalhavam juntos. O gesto carregava o enredo, a música carregava a emoção e o efeito sonoro mostrava ao público que o filme conhecia o som e preferia não falar. Luzes da Cidade era sonoro, mas não falado.

O PREÇO DO PERFECCIONISMO

A obra custou caro em tempo. Segundo David Robinson, no livro de 1985, a cena do primeiro encontro com a florista, que dura poucos minutos na tela, levou meses de tomadas repetidas. Chaplin procurava um gesto que fizesse a moça acreditar, sem palavra nenhuma, que o vagabundo era rico.

Em 1929, ele demitiu a atriz Virginia Cherrill, que fazia a florista, e chegou a filmar testes com a substituta Georgia Hale. Recuou semanas depois e recontratou Cherrill com aumento, porque refazer todas as cenas dela custaria mais do que o salário.

O RESULTADO NA BILHETERIA

O filme estreou em janeiro de 1931 e rendeu cerca de 5 milhões de dólares, mais de três vezes o custo, segundo Jeffrey Vance. Chaplin repetiu a aposta em Tempos Modernos, de 1936, também sem diálogo falado pelo vagabundo, e só deu voz plena a um filme dele em O Grande Ditador, de 1940.

A trilha teve um custo extra. Chaplin usou como tema da florista a melodia de La Violetera, do compositor espanhol José Padilla, sem pedir licença. Padilla processou o estúdio e recebeu uma indenização.

 

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III  Teste Rápido

A fila que você está seguindo

 
 
 

Toda área tem o seu cinema falado: a mudança que todo mundo adota porque todo mundo está adotando. A ferramenta que a empresa inteira comprou, o curso que todos os colegas fizeram, a reforma que todo vizinho do prédio já começou.

Chaplin não negou o som. Ele usou música, efeito e sincronia. O que ele separou foi a novidade de mercado, o diálogo, do ativo que ele já tinha, o vagabundo entendido em qualquer língua. O teste abaixo faz a mesma separação.

Teste da fila no cinema

 

1. Escolha uma mudança que você está prestes a adotar porque muita gente adotou. Escreva numa linha o motivo, sem citar quantas pessoas já fizeram.

 

2. Liste o que você já tem e funciona hoje. Ao lado, anote se a mudança aumenta esse ativo ou o substitui, como a fala substituiria o vagabundo mudo.

 

3. Pergunte se dá para pegar só a parte útil da novidade, como Chaplin pegou a trilha sincronizada e deixou o diálogo de fora.

 

Um exemplo de casa: o vizinho trocou o fogão a gás por um de indução e todo o andar seguiu. O motivo de cozinhar melhor pode estar na panela, e uma panela de fundo grosso resolve parte do problema sem trocar o fogão.

Um exemplo de trabalho: a equipe inteira passou a gravar vídeo para apresentar resultado, porque as outras áreas gravam. Se o seu ativo é a planilha clara, um gráfico novo na mesma planilha pode render mais do que o vídeo.

Um exemplo de dinheiro: o investimento que três amigos compraram no mesmo mês. A pergunta do teste é se ele aumenta a reserva que você já montou ou se toma o lugar dela só porque está na boca de todo mundo.

O teste tem custo. Chaplin pôs 1,5 milhão de dólares do próprio bolso, passou mais de dois anos ouvindo previsões de fracasso e, se o público tivesse virado as costas, perderia o estúdio. Ficar fora da fila às vezes mostra que a fila estava certa.

Entrar na fila com todo mundo e dividir o risco de um erro coletivo, ou ficar com o que você já tem e carregar sozinho o risco de estar errado. As duas contas estão no item 2 do teste.

★ RARO

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