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I O Viês da Semana
O argumento da multidão
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A resposta de ontem Qual obra de Bach Gould gravou em 1955 e em 1981? As Variações Goldberg. Gould gravou a obra em junho de 1955 no estúdio da Columbia na rua 30, em Nova York, e voltou a ela em 1981, no mesmo prédio, num andamento bem mais lento. O segundo disco saiu em setembro de 1982, dias antes do derrame que levou o pianista, aos 50 anos, em Toronto. |
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Quando Frances Oldham Kelsey abriu o pedido, a talidomida tinha a melhor propaganda que um remédio pode ter: uso amplo. A Grünenthal, laboratório alemão que criou a fórmula, licenciou a venda para fabricantes de vários países da Europa, da Ásia, da África e das Américas.
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A Merrell usava esse histórico como prova. Se tanta gente tomava o comprimido sem queixa, a empresa não via motivo para uma revisora em Washington pedir relatório atrás de relatório.
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A PROVA SOCIAL |
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A psicologia chama de prova social a tendência de tomar a escolha dos outros como sinal de acerto, sobretudo quando a pessoa não tem informação própria. O psicólogo americano Robert Cialdini popularizou o termo no livro Influence (Influência), de 1984.
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O experimento mais citado sobre o tema é anterior. Em 1951, o psicólogo Solomon Asch, do Swarthmore College, reuniu estudantes numa sala para comparar o comprimento de linhas desenhadas em cartões. Todos ali, menos um, eram atores combinados para dar a resposta errada.
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O participante de fato respondia por último. No relatório de 1956, na revista Psychological Monographs, Asch contou que cerca de três quartos dos participantes acompanharam o grupo errado pelo menos uma vez, numa tarefa em que, sozinhos, quase ninguém errava.
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Na fonte “Que a tendência à conformidade em nossa sociedade seja tão forte a ponto de jovens razoavelmente inteligentes e bem-intencionados aceitarem chamar o branco de preto é motivo de preocupação.” Solomon Asch, Opinions and Social Pressure, Scientific American, 1955 |
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O QUE O USO AMPLO NÃO MEDIA |
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O argumento da Merrell tinha um buraco que Kelsey enxergou cedo. Uso amplo conta quantas pessoas tomaram o remédio. Ninguém, na Europa, acompanhava de forma organizada os pacientes de longo prazo, e menos ainda os bebês das grávidas que tomavam o sedativo contra enjoo.
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Um remédio popular prova só a própria popularidade. |
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Ela tinha razão própria para olhar para a gravidez. Durante a Segunda Guerra, em Chicago, estudou remédios contra malária em coelhas prenhes e viu que os embriões não processavam substâncias que o organismo da mãe eliminava sem esforço. A placenta não servia de barreira segura.
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A pergunta dela se confirmou do pior jeito. Em novembro de 1961, o médico alemão Widukind Lenz ligou a talidomida a malformações graves em recém-nascidos, a focomelia (braços e pernas curtos, com mãos e pés quase colados ao tronco). A Grünenthal tirou o Contergan das farmácias alemãs no mesmo mês, e em dezembro o australiano William McBride publicou alerta parecido na revista The Lancet.
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II Na Prática
A carta que pedia mais
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Kelsey não venceu a disputa no grito. Venceu com papel. Cada vez que a Merrell mandava uma versão nova do dossiê, ela respondia por carta, apontando o que faltava, e a resposta zerava o relógio dos 60 dias previsto na lei de 1938.
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O método tinha lógica simples: em vez de dizer não ao remédio, ela dizia não ao dossiê. A empresa não podia acusá-la de proibir um produto. Podia só entregar o dado pedido ou continuar esperando.
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O QUE ELA PEDIA |
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Ao longo de 1961, as exigências ficaram mais específicas. Os pedidos se resumiam a quatro pontos:
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1. Estudos de toxicidade crônica (o dano que aparece com uso prolongado), com animais expostos ao remédio por meses, e não por dias.
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2. Explicação para a neurite periférica relatada na carta de Florence, com prova de que o dano aos nervos passava quando o paciente parava o remédio.
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3. Dado sobre como o corpo humano absorvia o comprimido, porque os ratos quase não reagiam à droga e as pessoas dormiam com dose pequena.
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4. Garantia de segurança na gravidez, porque grávidas tomariam o sedativo e ninguém tinha mostrado o que chegava ao feto.
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A PRESSÃO DO OUTRO LADO |
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A Merrell não ficou parada. Os representantes ligaram e visitaram a agência repetidas vezes e levaram a queixa aos superiores dela, como a própria Kelsey contou nas memórias Autobiographical Reflections, publicadas pela FDA.
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Os chefes sustentaram a revisora. Ela não tinha poder para proibir nada; tinha o poder de considerar o pedido incompleto, e usou só esse.
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A lei de 1938 deixava outro furo aberto. Enquanto o pedido esperava, a Merrell distribuiu o comprimido a médicos americanos como amostra experimental, sem obrigação de avisar os pacientes. Quando a empresa recolheu o produto, parte das pílulas já tinha sido tomada por gestantes nos EUA.
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O QUE MUDOU DEPOIS |
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Em março de 1962, a Merrell retirou o pedido. Meses depois, o jornalista Morton Mintz, do Washington Post, contou a história na primeira página, e o presidente John F. Kennedy entregou a Kelsey a maior condecoração do serviço civil americano.
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Naquele mesmo ano, o Congresso aprovou a emenda Kefauver-Harris, assinada por Kennedy. A partir dela, o fabricante tinha de provar que o remédio funciona, além de ser seguro, e o paciente de estudo precisava consentir. O prazo automático de 60 dias acabou. Kelsey seguiu na FDA por mais quatro décadas e se aposentou em 2005, aos 90 anos.
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