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Frances Kelsey segurou a talidomida por 18 meses

Em 1960, a médica recém-chegada à FDA recebeu o dossiê de um sedativo vendido sem receita na Europa e pediu dado que o fabricante não tinha.

Pastas de processo e um frasco de comprimidos sobre a mesa de um escritório de 1960

O dossiê que voltava à mesa do fabricante

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Em 1960, a talidomida era vendida sem receita na Alemanha Ocidental desde 1957, com a marca Contergan, como sedativo seguro até para grávidas (Trent Stephens e Rock Brynner, Dark Remedy, 2001). No mesmo ano, em Washington, uma médica com um mês de casa na FDA, a agência americana que libera remédios e alimentos, achou o dossiê do mesmo comprimido fraco demais para chegar às farmácias (FDA, histórico oficial da agência).

A médica era Frances Oldham Kelsey, canadense de 46 anos, farmacologista formada pela Universidade de Chicago. O pedido tinha chegado à mesa dela em setembro de 1960, enviado pela William S. Merrell Company, de Cincinnati, que queria vender o remédio nos EUA com a marca Kevadon. Era o primeiro processo grande que ela recebia na agência.

A lei americana de 1938 dava à FDA 60 dias para examinar cada pedido. Passado o prazo sem objeção, o remédio estava liberado sozinho. A tarefa parecia de rotina: o sedativo já circulava em vários países da Europa, e o fabricante contava com aprovação rápida.

Kelsey leu os relatórios e não gostou do que viu. Os estudos de absorção eram curtos, os testes em animais vinham com pouco detalhe, e os depoimentos de médicos pareciam mais elogio do que dado. Ela devolveu o dossiê pedindo mais.

A empresa reenviou. Ela pediu de novo. Nos meses seguintes, representantes da Merrell telefonaram, visitaram a agência e reclamaram com os chefes dela. Chamaram a revisora de burocrata teimosa, que atrasava um produto já aceito do outro lado do Atlântico.

Em dezembro de 1960, a revista British Medical Journal publicou uma carta do médico escocês A. Leslie Florence. Pacientes que tomavam talidomida havia meses relatavam formigamento e dormência nas mãos e nos pés, sinal de neurite periférica (dano aos nervos dos braços e das pernas). Kelsey passou a exigir dado específico sobre nervos.

O dossiê ia e voltava. A empresa tinha a seu favor o uso em outros países e a pressa comercial; Kelsey tinha uma pergunta sem resposta. A seção abaixo mostra a força do argumento “todo mundo já usa” e o que ele deixava de fora.

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I  O Viês da Semana

O argumento da multidão

 
 
 

A resposta de ontem

Qual obra de Bach Gould gravou em 1955 e em 1981?

As Variações Goldberg. Gould gravou a obra em junho de 1955 no estúdio da Columbia na rua 30, em Nova York, e voltou a ela em 1981, no mesmo prédio, num andamento bem mais lento. O segundo disco saiu em setembro de 1982, dias antes do derrame que levou o pianista, aos 50 anos, em Toronto.

Quando Frances Oldham Kelsey abriu o pedido, a talidomida tinha a melhor propaganda que um remédio pode ter: uso amplo. A Grünenthal, laboratório alemão que criou a fórmula, licenciou a venda para fabricantes de vários países da Europa, da Ásia, da África e das Américas.

A Merrell usava esse histórico como prova. Se tanta gente tomava o comprimido sem queixa, a empresa não via motivo para uma revisora em Washington pedir relatório atrás de relatório.

A PROVA SOCIAL

A psicologia chama de prova social a tendência de tomar a escolha dos outros como sinal de acerto, sobretudo quando a pessoa não tem informação própria. O psicólogo americano Robert Cialdini popularizou o termo no livro Influence (Influência), de 1984.

O experimento mais citado sobre o tema é anterior. Em 1951, o psicólogo Solomon Asch, do Swarthmore College, reuniu estudantes numa sala para comparar o comprimento de linhas desenhadas em cartões. Todos ali, menos um, eram atores combinados para dar a resposta errada.

O participante de fato respondia por último. No relatório de 1956, na revista Psychological Monographs, Asch contou que cerca de três quartos dos participantes acompanharam o grupo errado pelo menos uma vez, numa tarefa em que, sozinhos, quase ninguém errava.

Na fonte

“Que a tendência à conformidade em nossa sociedade seja tão forte a ponto de jovens razoavelmente inteligentes e bem-intencionados aceitarem chamar o branco de preto é motivo de preocupação.”

Solomon Asch, Opinions and Social Pressure, Scientific American, 1955

 

O QUE O USO AMPLO NÃO MEDIA

O argumento da Merrell tinha um buraco que Kelsey enxergou cedo. Uso amplo conta quantas pessoas tomaram o remédio. Ninguém, na Europa, acompanhava de forma organizada os pacientes de longo prazo, e menos ainda os bebês das grávidas que tomavam o sedativo contra enjoo.

Um remédio popular prova só a própria popularidade.

 

Ela tinha razão própria para olhar para a gravidez. Durante a Segunda Guerra, em Chicago, estudou remédios contra malária em coelhas prenhes e viu que os embriões não processavam substâncias que o organismo da mãe eliminava sem esforço. A placenta não servia de barreira segura.

A pergunta dela se confirmou do pior jeito. Em novembro de 1961, o médico alemão Widukind Lenz ligou a talidomida a malformações graves em recém-nascidos, a focomelia (braços e pernas curtos, com mãos e pés quase colados ao tronco). A Grünenthal tirou o Contergan das farmácias alemãs no mesmo mês, e em dezembro o australiano William McBride publicou alerta parecido na revista The Lancet.

 
 
 
 
 
 

II  Na Prática

A carta que pedia mais

 
 
 

Kelsey não venceu a disputa no grito. Venceu com papel. Cada vez que a Merrell mandava uma versão nova do dossiê, ela respondia por carta, apontando o que faltava, e a resposta zerava o relógio dos 60 dias previsto na lei de 1938.

O método tinha lógica simples: em vez de dizer não ao remédio, ela dizia não ao dossiê. A empresa não podia acusá-la de proibir um produto. Podia só entregar o dado pedido ou continuar esperando.

O QUE ELA PEDIA

Ao longo de 1961, as exigências ficaram mais específicas. Os pedidos se resumiam a quatro pontos:

1. Estudos de toxicidade crônica (o dano que aparece com uso prolongado), com animais expostos ao remédio por meses, e não por dias.

 

2. Explicação para a neurite periférica relatada na carta de Florence, com prova de que o dano aos nervos passava quando o paciente parava o remédio.

 

3. Dado sobre como o corpo humano absorvia o comprimido, porque os ratos quase não reagiam à droga e as pessoas dormiam com dose pequena.

 

4. Garantia de segurança na gravidez, porque grávidas tomariam o sedativo e ninguém tinha mostrado o que chegava ao feto.

 

A PRESSÃO DO OUTRO LADO

A Merrell não ficou parada. Os representantes ligaram e visitaram a agência repetidas vezes e levaram a queixa aos superiores dela, como a própria Kelsey contou nas memórias Autobiographical Reflections, publicadas pela FDA.

Os chefes sustentaram a revisora. Ela não tinha poder para proibir nada; tinha o poder de considerar o pedido incompleto, e usou só esse.

A lei de 1938 deixava outro furo aberto. Enquanto o pedido esperava, a Merrell distribuiu o comprimido a médicos americanos como amostra experimental, sem obrigação de avisar os pacientes. Quando a empresa recolheu o produto, parte das pílulas já tinha sido tomada por gestantes nos EUA.

O QUE MUDOU DEPOIS

Em março de 1962, a Merrell retirou o pedido. Meses depois, o jornalista Morton Mintz, do Washington Post, contou a história na primeira página, e o presidente John F. Kennedy entregou a Kelsey a maior condecoração do serviço civil americano.

Naquele mesmo ano, o Congresso aprovou a emenda Kefauver-Harris, assinada por Kennedy. A partir dela, o fabricante tinha de provar que o remédio funciona, além de ser seguro, e o paciente de estudo precisava consentir. O prazo automático de 60 dias acabou. Kelsey seguiu na FDA por mais quatro décadas e se aposentou em 2005, aos 90 anos.

 

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III  Teste Rápido

Quando todo mundo já aprovou

 
 
 

Quase toda decisão de compra, de contratação ou de investimento chega com um argumento parecido com o da Merrell: muita gente já escolheu. O restaurante lotado, o curso cheio de alunos, o fundo que os colegas compraram. Às vezes a multidão acerta. O teste abaixo separa o que a multidão sabe do que ela só repete.

Kelsey não tinha opinião contra o remédio. Tinha uma lista de perguntas que o uso amplo não respondia, e não aceitou a popularidade no lugar da resposta.

Teste do dossiê incompleto

 

1. Qual escolha você está para fazer só porque muita gente já fez? Escreva numa linha, com o número que convenceu você, se houver.

 

2. O que essa multidão mediu? Anote se o número fala de quantos escolheram ou do resultado que tiveram depois.

 

3. Qual pergunta sua ficou sem resposta? Se ela existe, peça o dado antes de assinar, como Kelsey pedia por carta.

 

Um exemplo de casa: o plano de saúde que os vizinhos do prédio contrataram. A adesão mostra que o preço agrada, e não mostra como a operadora trata quem precisa de cirurgia. Uma conversa com alguém que já usou a cobertura numa internação responde a pergunta certa.

Um exemplo de trabalho: o programa de gestão que três concorrentes adotaram. A adoção mostra que a equipe de vendas é boa. Perguntar a um deles quanto durou a implantação e quantos funcionários largaram a ferramenta mede o que interessa.

Um exemplo de dinheiro: a ação que o grupo de mensagens inteiro comprou na mesma semana. O volume mostra entusiasmo. O balanço da empresa, lido antes da compra, mostra se há lucro por trás dele.

O teste tem custo. Kelsey passou meses tratada como teimosa, e, se a talidomida fosse segura, ela teria só atrasado um sedativo útil. Pedir dado gasta tempo, e às vezes a resposta confirma a multidão.

Seguir a multidão e ganhar tempo, com o risco de herdar um erro que ninguém mediu, ou segurar a decisão e pedir o dado, com o custo de passar por teimoso até ele chegar. Qual das duas cabe na escolha que você anotou no item 1?

 
 
Quiz da edição

Quem assinou a carta publicada na British Medical Journal, em dezembro de 1960, relatando formigamento e dormência em pacientes que tomavam talidomida?

AWidukind Lenz
BWilliam McBride
CA. Leslie Florence
DSolomon Asch

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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Reme contra. Adversus flumen.

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