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I O Viês da Semana
O palco como padrão
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A resposta de ontem Quem viu, em 1661, os vasos que faltavam a Harvey? Foi o médico italiano Marcello Malpighi, da Universidade de Bolonha. Em 1661, olhando o pulmão de uma rã ao microscópio, ele viu os capilares, os vasos finíssimos que passam o sangue das artérias para as veias, e descreveu a descoberta na obra De pulmonibus. Harvey tinha vivido até 1657 sem ver a peça que provava a própria conta. |
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Gould já dava sinais de atrito antes de 1964. Em 6 de abril de 1962, no Carnegie Hall, ele tocaria o Concerto número 1 de Brahms com a Filarmônica de Nova York. O regente Leonard Bernstein subiu ao palco antes da música e avisou a plateia que discordava do andamento lento escolhido pelo solista, mas que ia reger assim mesmo.
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O crítico Harold Schonberg, do New York Times, publicou no dia seguinte uma resenha zombeteira sobre a noite. A discussão girou em torno de quem mandava na sala, não do Brahms.
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No mesmo ano, Gould publicou na revista Musical America um texto com título de manifesto, Let's Ban Applause! (Vamos proibir o aplauso!). A proposta parecia piada. Ele defendia, sem ironia, que o aplauso transformava o recital em prova de resistência e o músico em atleta.
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O VIÉS DO STATUS QUO |
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A psicologia chama de viés do status quo a preferência por manter a situação atual só porque ela é a atual, mesmo quando a alternativa é igual ou melhor.
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Em 1988, os economistas William Samuelson, da Universidade de Boston, e Richard Zeckhauser, da Universidade Harvard, publicaram o estudo no Journal of Risk and Uncertainty. Os participantes escolhiam entre carteiras de investimento. Quando uma das opções vinha descrita como a carteira herdada, ela ganhava muito mais escolhas do que a mesma carteira descrita como opção nova.
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Os dois autores olharam também para dados reais, como planos de saúde de funcionários de Harvard. Quem já estava num plano antigo ficava nele, mesmo quando os colegas recém-contratados, livres da herança, escolhiam outro.
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Na fonte “O propósito da arte não é a descarga de um jato momentâneo de adrenalina, e sim a construção gradual, ao longo da vida, de um estado de assombro e serenidade.” Glenn Gould, The Prospects of Recording, High Fidelity, 1966 |
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O CONCERTO COMO CARTEIRA HERDADA |
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Para o ofício de 1964, o concerto era a carteira herdada. Ninguém o tinha escolhido contra outra opção. Ele vinha antes de tudo, desde Liszt e Paganini, e o disco tinha chegado depois, como acessório.
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Quem argumentava a favor do palco raramente falava de música. Falava de tradição, de presença, de público. O argumento de Gould, o estúdio dá ao intérprete o controle que a sala nega, ficava sem resposta direta.
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A opção que chegou primeiro ganha a discussão sem precisar entrar nela. |
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O viés não prova que Gould tinha razão. Prova só que a reação do ofício não serve como medida. Uma ideia ruim e uma ideia boa recebiam a mesma recusa, porque a recusa vinha do lugar que a ideia ocupava, não do conteúdo dela.
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II Na Prática
A tesoura no estúdio
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No estúdio, Gould trabalhava como montador de cinema. Gravava várias tomadas da mesma peça e, depois, cortava a fita magnética e colava trechos de tomadas diferentes. O jargão do ofício chama a operação de splice (emenda de fita).
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No ensaio de 1966, ele contou um caso. Numa fuga de Bach, nenhuma das tomadas o satisfazia inteira. Ele escolheu o começo de uma e o resto de outra, e a emenda virou a versão publicada. Para os críticos, a prática era trapaça. Para Gould, era o mesmo direito do escritor que reescreve uma página.
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O QUE O ESTÚDIO DAVA A ELE |
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A lista prática era curta, e ele a repetiu em entrevistas ao longo da carreira:
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1. Controle do andamento e do som, tomada por tomada, sem a pressa imposta pelo horário da sala.
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2. Liberdade para tocar na cadeira baixa que o pai tinha feito para ele, a cerca de 35 centímetros do chão, longe do olhar da plateia.
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3. Distância do aplauso, da tosse e do frio das salas, que ele detestava a ponto de tocar de luvas cortadas nos ensaios.
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4. Tempo para gravar um repertório que o recital comercial não pagava, como Schoenberg, Hindemith e o inglês Orlando Gibbons, do século XVII, que Gould chamava de compositor favorito.
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O OUVINTE COM BOTÕES |
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O ensaio trazia uma segunda previsão. Gould imaginou um ouvinte participante, que em casa ajustaria a gravação, escolheria entre versões e montaria a própria interpretação. O artista deixaria de ser o dono único da obra.
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Ele levou a ideia ao rádio. Em 1967, a rede pública canadense CBC transmitiu The Idea of North (A ideia do Norte), documentário em que as vozes de cinco entrevistados se sobrepõem como linhas de uma fuga. Gould chamou o formato de rádio contrapontístico (com várias vozes simultâneas, como no contraponto da música).
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ACERTOU OU ERROU |
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Sessenta anos depois, a previsão saiu pela metade. O concerto não sumiu: as salas seguem cheias e as turnês dão receita. Mas a maior parte da música chega ao ouvinte por gravação, e o ouvinte monta a própria lista, pula faixa e escolhe a versão. O século de prazo ainda não venceu, e a metade que acertou já mudou a forma como quase todo mundo ouve um piano.
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