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I O Viês da Semana
A crença que sobrevive à prova
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A resposta de ontem Qual era o nome do hamster coautor de Andre Geim? O hamster se chamava Tisha. Geim o pôs como coautor, com a assinatura H.A.M.S. ter Tisha, no artigo sobre um giroscópio levitado por diamagnetismo publicado na revista Physica B em 2001. Geim contou depois em entrevistas que a brincadeira mirava os coautores de enfeite da ciência. |
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O escritor John Aubrey conheceu Harvey e registrou a conversa em Brief Lives (Vidas breves), coletânea de perfis escrita no fim do século XVII. Segundo Aubrey, depois do livro a clientela do médico caiu muito, e colegas o chamavam de cabeça rachada.
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Harvey nem era o primeiro a tocar no assunto. O médico árabe Ibn al-Nafis, no Cairo do século XIII, descreveu o sangue passando do coração aos pulmões e de volta. O espanhol Miguel Servet escreveu algo parecido num livro de teologia de 1553. Os dois textos ficaram quase sem leitores na Europa, e nenhum trazia a conta da vazão.
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Em Paris, o anatomista Jean Riolan, o Jovem, decano da escola de medicina, defendeu Galeno por mais de vinte anos. Harvey respondeu a ele em duas cartas publicadas em 1649. Riolan não mudou de lado.
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O VIÉS DA CRENÇA TEIMOSA |
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A psicologia chama o fenômeno de perseverança da crença: a tendência de manter uma conclusão mesmo depois de saber que a base dela era falsa.
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Em 1975, os psicólogos Lee Ross, Mark Lepper e Michael Hubbard, da Universidade Stanford, publicaram um experimento no Journal of Personality and Social Psychology. Os participantes separavam bilhetes reais de bilhetes inventados e recebiam uma nota falsa, alta ou baixa, sorteada. Depois, os pesquisadores contavam que a nota era sorteio.
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Mesmo avisados, quem tinha recebido nota alta continuava se achando bom na tarefa, e quem tinha recebido nota baixa continuava se achando ruim. A explicação já tinha sido construída na cabeça e ficou de pé sem a base.
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Na fonte “Não aprendo nem ensino anatomia pelos livros, mas pelas dissecções; não pelas teses dos filósofos, mas pela estrutura da natureza.” William Harvey, dedicatória ao Colégio Real de Médicos, De Motu Cordis, 1628 |
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AUTORIDADE COMO ATALHO |
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Com Galeno, a crença tinha um reforço extra: o peso do autor. Contestar o fígado era contestar o texto que os professores tinham decorado e ensinado por gerações.
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O atalho poupa trabalho. Ninguém refaz a anatomia inteira antes de cada consulta. O custo aparece quando o atalho bloqueia a conta que qualquer um poderia fazer.
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A explicação antiga não cai com a prova nova; cai quando a geração que a ensinava sai de cena. |
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A frase é quase literal na história da circulação. Harvey viveu até 1657 e chegou a ver a ideia aceita por muitos médicos jovens da Inglaterra. O filósofo René Descartes defendeu o circuito do sangue no Discurso do método, de 1637. Os mais velhos, em geral, terminaram a vida galenistas.
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II Na Prática
A multiplicação de Frankfurt
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A força da conta de Harvey estava na humildade dos números. Ele não precisava de medida exata, só de mostrar que qualquer valor razoável dava errado para Galeno.
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PRIMEIRO PASSO: O QUE CABE NO CORAÇÃO |
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Harvey abriu corações de cadáveres e de animais e anotou o volume do ventrículo esquerdo cheio. Num homem, achou mais de duas onças (a onça é uma medida inglesa de cerca de 28 gramas).
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SEGUNDO PASSO: O QUE SAI A CADA BATIDA |
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Ele supôs que só uma fração sai em cada contração, e ofereceu várias opções baixas: meia onça, três dracmas (a dracma vale um oitavo de onça) ou até uma única dracma.
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TERCEIRO PASSO: QUANTAS BATIDAS |
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Contou pulsos e escreveu que o coração bate mais de mil vezes em meia hora, e em algumas pessoas duas, três ou quatro mil vezes.
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A multiplicação ficou assim, com os números do próprio Harvey:
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1. Meia onça por batida, vezes mil batidas, dá 500 onças em meia hora, perto de 14 quilos.
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2. Uma dracma por batida, o palpite mais baixo, ainda dá 1.000 dracmas, perto de 3,5 quilos em meia hora.
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3. Em um dia inteiro, mesmo o palpite mais baixo multiplica esse volume por 48.
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O número exato não importava; importava que todos os números possíveis davam o mesmo lado. |
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Galeno não tinha um número para defender. O esquema dele nunca dizia quanto sangue o fígado produzia por dia, e por essa lacuna ninguém tinha pensado em medir. Harvey ganhou a discussão no terreno que o adversário deixou vazio.
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A PROVA NO BRAÇO |
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Harvey somou à conta um teste que qualquer leitor podia repetir. Uma faixa bem apertada no braço barrava as artérias, que correm fundo, e a mão ficava pálida e fria. Afrouxada um pouco, a faixa deixava o sangue das artérias entrar e apertava só as veias, que correm rasas. As veias abaixo da faixa incharam.
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Depois ele apertava uma veia inchada com o dedo e empurrava o sangue para longe do coração. O trecho esvaziado não voltava a encher daquele lado. As pequenas válvulas da veia, descritas por Fabrício de Acquapendente, professor de Harvey em Pádua, deixavam o sangue correr num sentido só: rumo ao coração.
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A gravura desse teste saiu no livro. Ficou faltando uma peça: Harvey não conseguiu ver por onde o sangue passava da ponta das artérias para o começo das veias. A lente da época não alcançava.
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