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I O Viês da Semana
O especialista preso ao próprio caminho
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A resposta de ontem O que aconteceu com David Greybeard? David Greybeard sumiu de Gombe em 1968, durante uma epidemia de pneumonia que atingiu os chimpanzés do parque. O corpo nunca foi encontrado, e Jane Goodall o deu como perdido depois de semanas de busca. Ela registrou a ausência dele em In the Shadow of Man, livro publicado em 1971. |
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Antes de 2004, a física tinha um motivo forte para não procurar o grafeno. Nos anos 1930, Lev Landau e Rudolf Peierls argumentaram que um cristal de duas dimensões, com um átomo de espessura, seria instável e se desfaria. A teoria do grafeno existia desde 1947, num cálculo de Philip Wallace, mas como exercício de papel.
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Os especialistas em carbono sabiam tudo sobre grafite. Justamente por saber, não gastavam tempo tentando tirar dele uma folha que a teoria dizia impossível. Geim chegou ao problema de fora, sem o hábito de desistir dele.
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O VIÉS DA RECEITA CONHECIDA |
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A psicologia tem nome para a armadilha: efeito Einstellung (do alemão, algo como atitude ou disposição). É a tendência de repetir a solução que já funcionou, mesmo quando existe outra mais simples ou melhor na frente.
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O psicólogo Abraham Luchins mediu o efeito em 1942 com problemas de jarras de água. Os participantes resolviam uma série de exercícios com a mesma fórmula longa. Depois vinham problemas que aceitavam um atalho de um passo. Quem tinha treinado a fórmula longa seguia com ela, e uma parte nem enxergava o atalho. O grupo sem o treino achava o caminho curto.
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Na fonte “Prêmios para pesquisas que primeiro fazem as pessoas rirem e depois as fazem pensar.” Marc Abrahams, critério do Ig Nobel, Annals of Improbable Research, 1991 |
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O FORASTEIRO COM MÉTODO |
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O forasteiro não leva vantagem por ser ignorante. Geim conhecia física de materiais a fundo. A vantagem estava em entrar num problema alheio sem a lista de becos que o especialista daquela área carrega na cabeça.
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Ele mesmo descreveu o padrão na palestra do Nobel, Random Walk to Graphene (Caminhada aleatória até o grafeno), de 2010: mudou de tema várias vezes na carreira e tratava cada mudança como um recomeço controlado. Antes do grafeno vieram a rã e uma fita adesiva inspirada na pata da lagartixa, publicada na Nature Materials em 2003.
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O especialista sabe onde não procurar; às vezes a resposta mora justamente ali. |
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O mesmo mecanismo aparece longe do laboratório. O contador experiente monta a planilha do jeito de sempre e não testa a função nova do programa. A médica com vinte anos de plantão reconhece o quadro comum e demora a pensar no diagnóstico raro. O pai que sempre resolveu a birra com castigo nem cogita a conversa.
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Luchins chamou o efeito de mecanização. A experiência acumulada vira trilho, e o trilho poupa esforço até o dia em que o destino muda de lugar.
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II Na Prática
A fita adesiva de Manchester
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O grafeno não saiu de um laboratório caro. Saiu de uma sexta à noite, de um aluno com uma tarefa ingrata e de um rolo de fita que ia para o lixo.
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A PRIMEIRA TENTATIVA: POLIR ATÉ SOBRAR POUCO |
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Segundo a palestra do Nobel, Geim pediu a um aluno de doutorado chinês, Da Jiang, que polisse um bloco de grafite até a menor espessura possível. Jiang gastou semanas na máquina e entregou uma lasca de cerca de 10 micrômetros. Era fina para a mão, grossa demais para a física: milhares de camadas.
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A SEGUNDA TENTATIVA: O LIXO DO VIZINHO |
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O pesquisador Oleg Shklyarevsky, que trabalhava com microscópios no mesmo prédio, lembrou de um hábito do setor. Para limpar a superfície do grafite antes de cada medida, os técnicos colavam fita adesiva sobre o bloco e puxavam a camada de cima. A fita usada ia para a lixeira, cheia de flocos de grafite.
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Geim e Novoselov pegaram a fita. Colaram de novo, puxaram de novo, e repetiram o gesto até os flocos ficarem mais finos a cada dobra. Alguns chegavam a uma única camada de átomos de carbono, arrumados em hexágonos como uma tela de galinheiro.
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A TERCEIRA TENTATIVA: ENXERGAR O INVISÍVEL |
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Uma folha de um átomo some no microscópio comum. A equipe descobriu que, sobre uma lâmina de silício coberta por uma camada de óxido de espessura certa, o grafeno mudava a cor da luz refletida e aparecia como uma mancha pálida. Com o floco à vista, deu para ligar eletrodos e medir a corrente.
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O caminho cabe em três passos:
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1. Fazer uma pergunta pequena fora da própria área, com prazo curto.
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2. Usar o material barato que já está à mão, inclusive o descarte do vizinho.
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3. Medir o resultado logo, para descobrir cedo se o teste falhou ou merece a semana.
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A fita custava centavos; o caro foi a disposição de olhar para o lixo do laboratório vizinho. |
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O artigo de 2004 mostrou que o grafeno conduzia eletricidade muito bem e respondia a um campo elétrico externo. Em poucos anos, milhares de grupos no mundo repetiram o método da fita. Em 2010, Geim e Novoselov dividiram o Nobel de Física. Geim segue como o único a ter recebido o Ig Nobel e o Nobel.
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As sextas não pararam depois da rã. Em 2001, Geim chegou a pôr o hamster de estimação como coautor de um artigo sobre levitação, com assinatura disfarçada de nome holandês.
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