|
|
|
I O Viês da Semana
O diploma antes da observação
|
| |
| |
| |
|
O telegrama de Leakey abriu portas e também uma frente de ataque. Em 1962, a Universidade de Cambridge aceitou Jane Goodall no doutorado em etologia (o estudo do comportamento animal) sem que ela tivesse graduação, um caso raro na história da universidade. Os professores leram as anotações de Gombe e apontaram um erro de método: os chimpanzés tinham nomes. Deviam ter números.
|
|
A regra tinha lógica. Ela vinha do medo do antropomorfismo (atribuir a um animal sentimentos e intenções humanas sem prova). Um macaco chamado Flo parece mãe; um macaco chamado F-14 parece amostra. Os professores queriam amostras.
|
Na fonte “Em nenhum caso podemos interpretar uma ação como o resultado de uma faculdade psíquica superior, se ela puder ser interpretada como o resultado do exercício de uma que está mais abaixo na escala psicológica.” C. Lloyd Morgan, An Introduction to Comparative Psychology, 1894 |
|
| |
O VIÉS NA TRIAGEM |
|
O problema começa quando a cautela vira filtro de quem pode observar. Chama-se viés de autoridade (dar peso a uma informação pelo cargo ou pelo título de quem a traz, e não pelo conteúdo). Uma secretária sem diploma contando que um chimpanzé fabricou ferramenta soava, para muitos acadêmicos, como relato de turista.
|
|
Goodall contou anos depois um episódio do primeiro artigo científico dela. O editor da revista trocou os pronomes “ele” e “ela” por “it” (pronome inglês para objeto), e o “who” (quem) por “which” (o qual). Ela riscou as correções e devolveu o texto com os pronomes de gente.
|
O NOME COMO INSTRUMENTO |
|
O detalhe que os críticos não viam: dar nome era método de registro. Goodall precisava distinguir dezenas de indivíduos de longe, pelo binóculo, durante anos. Flo tinha nariz bulboso e orelhas rasgadas. Goliath era grande e agressivo. David Greybeard tinha a barba clara.
|
Com nome, cada chimpanzé virava uma história contínua; com número, cada observação começava do zero. |
|
| |
|
Foi a continuidade que mostrou o que o número escondia. Goodall acompanhou mães e filhotes por décadas, viu personalidades diferentes no mesmo grupo e registrou que Flo criava os filhotes de modo diferente das outras fêmeas. Os dados viraram a base de The Chimpanzees of Gombe, publicado pela Harvard University Press em 1986.
|
|
O mesmo filtro aparece fora da mata. A estagiária que nota um erro na planilha do diretor é ouvida por último. O vizinho sem formação técnica que avisa sobre a rachadura no prédio é chamado de alarmista. O conteúdo da observação pode estar certo, e o título de quem a fez decide se alguém vai conferir.
|
| |
| |
| |
|
| |
|
II Na Prática
Quatro meses até o cupinzeiro
|
| |
| |
| |
|
A descoberta de novembro parece sorte. O caminho até ela foi um método de paciência, com três peças que qualquer pessoa pode copiar.
|
A PRIMEIRA PEÇA: O MESMO LUGAR |
|
Goodall parou de perseguir os chimpanzés pela mata. Escolheu o Pico, de onde via o vale inteiro, e voltou a ele todo dia, na mesma hora, com a mesma roupa cáqui. Os animais passaram a vê-la como parte da paisagem, e a distância de fuga diminuiu semana a semana.
|
A SEGUNDA PEÇA: O REGISTRO DE TUDO |
|
Ela anotava o banal junto do raro: o que comiam, quem andava com quem, a hora de cada ninho. Nos últimos dias daquele outubro, antes do capim, viu David Greybeard comer um filhote de porco-do-mato. Até ali, a ciência tratava os chimpanzés como vegetarianos. O caderno guardou as duas surpresas lado a lado.
|
A TERCEIRA PEÇA: A PROVA DE FORA |
|
Uma observação sozinha não convencia. Leakey conseguiu verba da National Geographic Society, e em 1962 chegou a Gombe o fotógrafo e cinegrafista holandês Hugo van Lawick. Ele filmou a pesca de térmitas. Em agosto de 1963, a revista National Geographic publicou a reportagem My Life Among Wild Chimpanzees (Minha vida entre chimpanzés selvagens), com as fotos.
|
|
O passo a passo do método cabe em três linhas:
|
|
1. Ficar no mesmo lugar até o observado se acostumar.
|
|
| |
|
2. Registrar o banal, porque o raro só aparece contra ele.
|
|
| |
|
3. Buscar uma prova que não dependa da palavra de quem viu.
|
|
| |
Na fonte “Agora precisamos redefinir ferramenta, redefinir homem, ou aceitar os chimpanzés como humanos.” Louis Leakey, telegrama a Jane Goodall, 1960 |
|
| |
|
A ciência escolheu a primeira opção. A definição de Oakley caiu, e os pesquisadores passaram a separar usar ferramenta de fabricar ferramenta, depois de fabricar com planejamento. Hoje há registro de uso de ferramenta em corvos da Nova Caledônia, lontras-marinhas e golfinhos.
|
O filme de Van Lawick tirou a descoberta do campo da palavra de uma secretária e a pôs diante de qualquer espectador. |
|
| |
|
Goodall recebeu o doutorado de Cambridge em 1966. Casou com Van Lawick em 1964, e os dois tiveram um filho, Hugo Eric Louis, apelidado de Grub. Em 1977 ela fundou o Instituto Jane Goodall, e a pesquisa em Gombe segue ativa desde 1960, uma das séries de observação de animais selvagens mais longas do mundo.
|