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Jane Goodall viu um chimpanzé fabricar ferramenta em 1960

Sem diploma e contra a regra de Cambridge, ela deu nomes aos chimpanzés de Gombe e viu David Greybeard pescar térmitas com um capim.

Chimpanzé usa um talo de capim para pescar térmitas num cupinzeiro

Um talo de capim num cupinzeiro de Gombe

▼

Em 1949, o antropólogo Kenneth Oakley, do Museu Britânico de História Natural, publicou um livreto chamado Man the Tool-Maker (O homem fabricante de ferramentas) e pôs ali a linha que separava a nossa espécie das outras: só o ser humano fabrica ferramenta. Em 4 de novembro de 1960, num morro à beira do lago Tanganica, uma inglesa de 26 anos sem curso superior viu um chimpanzé arrancar um talo de capim, enfiá-lo num cupinzeiro e puxá-lo de volta coberto de térmitas.

O chimpanzé tinha barba grisalha no queixo e um jeito calmo de andar. A observadora o chamava de David Greybeard (Davi Barba Grisalha). Era o único do grupo que não fugia quando ela aparecia.

A observadora era Jane Goodall. Tinha trabalhado como secretária em Londres e como garçonete para juntar o dinheiro da passagem até o Quênia. Em Nairóbi, conseguiu emprego com o paleontólogo Louis Leakey, que procurava alguém para passar anos olhando chimpanzés selvagens. Leakey preferia uma pessoa sem formação acadêmica, de cabeça limpa de teoria, segundo a própria Goodall contou em Reason for Hope, de 1999.

Ela chegou à Reserva de Gombe Stream, na então Tanganica, hoje Tanzânia, em 14 de julho de 1960. Veio acompanhada da mãe, Vanne, porque as autoridades britânicas da colônia não autorizavam uma mulher jovem sozinha na mata.

Durante quase quatro meses, os chimpanzés sumiam assim que ela se aproximava. Goodall subia todas as manhãs a um ponto alto do vale, que batizou de Pico, e ficava ali com o binóculo, anotando tudo num caderno. Contraiu malária, perdeu peso e quase ficou sem verba.

O dia do cupinzeiro mudou a pesquisa. Dias depois, ela viu David Greybeard pegar um galho, arrancar as folhas e usar a vareta limpa do mesmo modo. Arrancar folhas é modificar um objeto para um uso, e modificar um objeto era justo o gesto que o livreto de Oakley reservava ao ser humano.

Ela mandou a notícia a Leakey por carta. A resposta voltou por telegrama.

A seguir: a regra de Cambridge contra dar nomes aos animais, o método do Pico e um teste para não descartar quem viu primeiro.

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I  O Viês da Semana

O diploma antes da observação

 
 
 

O telegrama de Leakey abriu portas e também uma frente de ataque. Em 1962, a Universidade de Cambridge aceitou Jane Goodall no doutorado em etologia (o estudo do comportamento animal) sem que ela tivesse graduação, um caso raro na história da universidade. Os professores leram as anotações de Gombe e apontaram um erro de método: os chimpanzés tinham nomes. Deviam ter números.

A regra tinha lógica. Ela vinha do medo do antropomorfismo (atribuir a um animal sentimentos e intenções humanas sem prova). Um macaco chamado Flo parece mãe; um macaco chamado F-14 parece amostra. Os professores queriam amostras.

Na fonte

“Em nenhum caso podemos interpretar uma ação como o resultado de uma faculdade psíquica superior, se ela puder ser interpretada como o resultado do exercício de uma que está mais abaixo na escala psicológica.”

C. Lloyd Morgan, An Introduction to Comparative Psychology, 1894

 

O VIÉS NA TRIAGEM

O problema começa quando a cautela vira filtro de quem pode observar. Chama-se viés de autoridade (dar peso a uma informação pelo cargo ou pelo título de quem a traz, e não pelo conteúdo). Uma secretária sem diploma contando que um chimpanzé fabricou ferramenta soava, para muitos acadêmicos, como relato de turista.

Goodall contou anos depois um episódio do primeiro artigo científico dela. O editor da revista trocou os pronomes “ele” e “ela” por “it” (pronome inglês para objeto), e o “who” (quem) por “which” (o qual). Ela riscou as correções e devolveu o texto com os pronomes de gente.

O NOME COMO INSTRUMENTO

O detalhe que os críticos não viam: dar nome era método de registro. Goodall precisava distinguir dezenas de indivíduos de longe, pelo binóculo, durante anos. Flo tinha nariz bulboso e orelhas rasgadas. Goliath era grande e agressivo. David Greybeard tinha a barba clara.

Com nome, cada chimpanzé virava uma história contínua; com número, cada observação começava do zero.

 

Foi a continuidade que mostrou o que o número escondia. Goodall acompanhou mães e filhotes por décadas, viu personalidades diferentes no mesmo grupo e registrou que Flo criava os filhotes de modo diferente das outras fêmeas. Os dados viraram a base de The Chimpanzees of Gombe, publicado pela Harvard University Press em 1986.

O mesmo filtro aparece fora da mata. A estagiária que nota um erro na planilha do diretor é ouvida por último. O vizinho sem formação técnica que avisa sobre a rachadura no prédio é chamado de alarmista. O conteúdo da observação pode estar certo, e o título de quem a fez decide se alguém vai conferir.

 
 
 
 
 
 

II  Na Prática

Quatro meses até o cupinzeiro

 
 
 

A descoberta de novembro parece sorte. O caminho até ela foi um método de paciência, com três peças que qualquer pessoa pode copiar.

A PRIMEIRA PEÇA: O MESMO LUGAR

Goodall parou de perseguir os chimpanzés pela mata. Escolheu o Pico, de onde via o vale inteiro, e voltou a ele todo dia, na mesma hora, com a mesma roupa cáqui. Os animais passaram a vê-la como parte da paisagem, e a distância de fuga diminuiu semana a semana.

A SEGUNDA PEÇA: O REGISTRO DE TUDO

Ela anotava o banal junto do raro: o que comiam, quem andava com quem, a hora de cada ninho. Nos últimos dias daquele outubro, antes do capim, viu David Greybeard comer um filhote de porco-do-mato. Até ali, a ciência tratava os chimpanzés como vegetarianos. O caderno guardou as duas surpresas lado a lado.

A TERCEIRA PEÇA: A PROVA DE FORA

Uma observação sozinha não convencia. Leakey conseguiu verba da National Geographic Society, e em 1962 chegou a Gombe o fotógrafo e cinegrafista holandês Hugo van Lawick. Ele filmou a pesca de térmitas. Em agosto de 1963, a revista National Geographic publicou a reportagem My Life Among Wild Chimpanzees (Minha vida entre chimpanzés selvagens), com as fotos.

O passo a passo do método cabe em três linhas:

1. Ficar no mesmo lugar até o observado se acostumar.

 

2. Registrar o banal, porque o raro só aparece contra ele.

 

3. Buscar uma prova que não dependa da palavra de quem viu.

 

Na fonte

“Agora precisamos redefinir ferramenta, redefinir homem, ou aceitar os chimpanzés como humanos.”

Louis Leakey, telegrama a Jane Goodall, 1960

 

A ciência escolheu a primeira opção. A definição de Oakley caiu, e os pesquisadores passaram a separar usar ferramenta de fabricar ferramenta, depois de fabricar com planejamento. Hoje há registro de uso de ferramenta em corvos da Nova Caledônia, lontras-marinhas e golfinhos.

O filme de Van Lawick tirou a descoberta do campo da palavra de uma secretária e a pôs diante de qualquer espectador.

 

Goodall recebeu o doutorado de Cambridge em 1966. Casou com Van Lawick em 1964, e os dois tiveram um filho, Hugo Eric Louis, apelidado de Grub. Em 1977 ela fundou o Instituto Jane Goodall, e a pesquisa em Gombe segue ativa desde 1960, uma das séries de observação de animais selvagens mais longas do mundo.

 

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III  Teste Rápido

3 perguntas antes de descartar quem viu

 
 
 

O teste serve para o aviso que chega de quem você não esperava: o cliente novo que aponta um defeito, o filho que estranha um barulho no carro, o funcionário recém-chegado que estranha um processo antigo.

Goodall não pedia que acreditassem nela. Pedia que olhassem. O teste copia a ordem do trabalho dela, do lado de quem recebe o relato.

Teste das 3 perguntas para o relato sem título

 

1. O que exatamente a pessoa viu? Separe o fato da interpretação. Goodall viu um chimpanzé arrancar folhas de um galho e pescar térmitas; a palavra ferramenta veio depois.

 

2. Eu descartaria esse relato se viesse de alguém com cargo? Troque mentalmente o autor. Se o aviso passa a soar sério, o filtro está no título, e não no conteúdo.

 

3. Qual é a checagem mais barata? Antes de aceitar ou rejeitar, vá olhar. Leakey mandou um cinegrafista; você pode abrir o capô, rodar a planilha de novo ou pedir uma foto.

 

Um exemplo de casa: a diarista comenta que a geladeira faz um estalo à noite. A pergunta 2 lembra que o técnico da marca seria ouvido na hora, e a pergunta 3 manda passar uma noite ouvindo o motor.

Um exemplo de trabalho: o atendente de primeiro mês diz que os clientes reclamam sempre do mesmo campo do formulário. A pergunta 1 separa a reclamação da sugestão dele, e a pergunta 3 manda abrir os chamados da semana e contar.

O teste tem limite. Título também carrega informação: o médico erra menos sobre remédio que o vizinho, e quem ouve todo leigo com o mesmo peso gasta a semana conferindo boato. A pergunta 3 existe para manter a conta barata.

Seguir a regra de Cambridge e dar números ao que você observa, protegendo o registro do afeto, ou dar nomes e arriscar ver intenção onde há só hábito. As duas escolhas estão nos cadernos de Gombe acima.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

O que aconteceu com David Greybeard, o primeiro chimpanzé de Gombe a deixar Jane Goodall chegar perto?

★ RARO

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Segundo a edição, em que data Jane Goodall viu David Greybeard usar o talo de capim para pescar térmitas?

A14 de julho de 1960, dia em que ela chegou a Gombe
B1962, ano em que ela entrou no doutorado em Cambridge
C4 de novembro de 1960
Dagosto de 1963, quando a National Geographic publicou a reportagem

Resultado da última edição: 50% acertaram.

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