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I O Viês da Semana
O sinal arquivado como defeito
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A resposta de ontem Onde crescia a nogueira mais próxima das nozes do sítio? No leste de New Brunswick e no vale do rio São Lourenço, centenas de quilômetros ao sul. A nogueira-cinzenta (Juglans cinerea) nunca cresceu em Terra Nova, segundo a Parks Canada, e as nozes provam que os nórdicos navegaram até essa região, onde também nasce uva silvestre, a Vinland das sagas. |
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Descartar o dado que não cabe no modelo tem nome na psicologia: viés de confirmação (a tendência de aceitar o que confirma a teoria que já temos e desqualificar o que a contraria). O modelo de 1930 tinha crosta, manto e um núcleo líquido. Uma onda chegando onde não devia era, por definição, um problema do instrumento.
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O raciocínio parecia prudente. Um sismógrafo daquela década errava muito, e a sismologia ainda montava as tabelas de tempo de viagem das ondas pelo planeta. Quem jogava fora uma leitura estranha protegia a tabela de um engano. Só que a mesma regra protegia a tabela de qualquer descoberta.
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O FILTRO NA ENTRADA |
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O viés trabalha antes da análise, na triagem. O sinal fraco na zona de sombra nem chegava a ser estudado: era anotado como dúvida e deixado de lado. Ninguém precisava decidir contra ele, porque ele nunca entrava na pilha de dados a decidir.
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Lehmann fez a triagem ao contrário. Guardava as leituras das estações em fichas de papelão, organizadas em caixas de aveia vazias, segundo o relato de colegas que frequentaram o escritório dela. Cada ficha trazia estação, distância do terremoto e hora de chegada. O sinal estranho ganhava ficha como qualquer outro.
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Na fonte “A descoberta começa com a consciência da anomalia, isto é, com o reconhecimento de que a natureza de algum modo violou as expectativas induzidas pelo paradigma.” Thomas Kuhn, A Estrutura das Revoluções Científicas, 1962 |
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A ANOMALIA REPETIDA |
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Uma leitura estranha pode ser defeito. Dezenas de leituras estranhas, em estações diferentes, com aparelhos diferentes, chegando todas com o mesmo atraso e na mesma faixa de distância, dificilmente são. O defeito de instrumento espalha erro ao acaso; aquele sinal tinha padrão.
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Um defeito de aparelho espalha erro ao acaso; um sinal que repete o mesmo atraso em várias estações aponta para o planeta. |
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Lehmann trabalhava praticamente sozinha, num país pequeno, sem a estrutura dos grandes centros da Alemanha e da América do Norte. Muitos anos depois, comentou com ironia a quantidade de homens pouco competentes com quem teve de competir. A posição de fora ajudou num ponto: ela não tinha reputação presa ao modelo antigo, nem orgulho investido nas tabelas que a anomalia ameaçava.
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O mesmo filtro aparece longe da geologia. A reclamação isolada de um cliente vira exagero, a quinta reclamação igual também, porque cada uma é julgada sozinha e nenhuma entra numa ficha. O exame de sangue com um valor fora da faixa vira erro do laboratório na primeira vez, e na terceira vez ninguém compara com as duas anteriores.
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II Na Prática
Da zona de sombra à esfera escondida
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Terremoto produz dois tipos principais de onda. A onda P (primária, de compressão, como o som) atravessa sólido e líquido. A onda S (secundária, de cisalhamento, que sacode o material de lado) só atravessa sólido. Foi a ausência de ondas S do outro lado do planeta que levou Jeffreys a concluir, em 1926, que o núcleo é líquido.
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A borda desse núcleo já tinha profundidade conhecida. O sismólogo alemão Beno Gutenberg a calculou em 1914, perto de 2.900 quilômetros abaixo dos nossos pés. As ondas P que batem nessa borda mudam de velocidade e se dobram, como a luz num copo de água, e o resultado é a sombra: um anel da superfície onde a onda direta não chega.
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O MODELO DE DUAS ESFERAS |
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Lehmann montou o modelo mais simples possível. Imaginou o planeta como esferas encaixadas, cada uma com velocidade constante para a onda P, e calculou à mão o caminho dos raios. Com uma esfera só no centro, a sombra ficava escura. Com uma segunda esfera dentro da primeira, mais rápida, parte dos raios se dobrava de novo e caía bem onde as estações tinham registrado os sinais fracos.
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O passo a passo do raciocínio cabe em três linhas:
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1. A teoria aceita prevê silêncio numa faixa do planeta.
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2. As estações registram sinal fraco e repetido nessa faixa.
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3. Uma camada nova, de velocidade maior, faz a previsão bater com o registro.
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O artigo de 1936 saiu numa publicação do Bureau Central Sismológico Internacional, com o título P′, a sigla que os sismólogos usavam para a onda P depois de atravessar o núcleo. Lehmann pôs a borda da esfera interna a cerca de 5.150 quilômetros de profundidade, e a conta moderna confirma a posição.
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DO NÚCLEO INTERNO AO NÚCLEO SÓLIDO |
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Lehmann provou a existência de uma esfera separada, mais rápida. A ideia de que essa esfera é sólida veio depois. Em 1940, o geofísico americano Francis Birch propôs que o ferro do centro se cristaliza sob a pressão imensa da profundidade, mesmo mais quente que o núcleo líquido em volta.
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A prova chegou em 1971. Adam Dziewonski e Freeman Gilbert, da Universidade Harvard e da Universidade da Califórnia, mediram as oscilações livres da Terra (as vibrações do planeta inteiro, como um sino, depois de terremotos muito grandes) e mostraram que o núcleo interno resiste ao cisalhamento, sinal de material sólido.
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O dado fraco virou a esfera de ferro do centro do planeta, com raio de cerca de 1.220 quilômetros. |
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Lehmann seguiu trabalhando até depois dos 90 anos. Em 1971 recebeu a Medalha William Bowie, da União Geofísica Americana, a primeira mulher premiada com ela, e viveu até 1993, aos 104 anos.
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