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I O Viês da Semana
O pânico que só existia nos outros
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A história do pânico causado por A Guerra dos Mundos, de Orson Welles, foi refeita em 2013 pelos pesquisadores de mídia Jefferson Pooley e Michael Socolow, num ensaio publicado pela revista Slate nos 75 anos da transmissão. Na conta deles, quase todo o pânico de 1938 saiu da imprensa, e muito pouco dos ouvintes.
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O sociólogo W. Phillips Davison, da Universidade Columbia, deu nome ao padrão em 1983, num artigo da revista Public Opinion Quarterly: efeito terceira pessoa (a crença de que a mídia influencia muito os outros e pouco a nós mesmos).
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Pelo efeito, o ouvinte de 1938 que entendeu a ficção não duvidava de que milhões de vizinhos tinham caído no golpe. O repórter que atendeu um telefonema assustado imaginou mil iguais atrás dele, sem contar nenhum.
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QUEM GANHAVA COM O SUSTO |
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Os jornais tinham motivo para acreditar. Durante a Grande Depressão, o rádio tomava verba de anúncio da imprensa escrita, e a noite de Welles deu aos editores um argumento pronto: o rádio era irresponsável e precisava de vigilância.
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Editoriais pediram controle sobre as emissoras. A FCC (a comissão federal que regula rádio e TV nos Estados Unidos) abriu uma investigação sobre o programa e encerrou o caso sem punir a CBS.
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O historiador da imprensa W. Joseph Campbell, da American University, examinou a cobertura no livro Getting It Wrong (errando a notícia), de 2010. Ele mostrou que as reportagens se apoiavam em anedotas, muitas vindas de agências de notícias, e que o assunto sumiu das capas em poucos dias, sem mortos nem estragos para continuar contando.
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O NÚMERO QUE VEIO DEPOIS |
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A cifra mais repetida saiu de Hadley Cantril, psicólogo de Princeton, no livro The Invasion from Mars (a invasão de Marte), de 1940. Ele estimou 6 milhões de ouvintes e 1,2 milhão de pessoas assustadas, a partir de uma enquete do instituto de George Gallup.
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A enquete de Gallup foi feita seis semanas depois da transmissão, quando os entrevistados já tinham lido muitas reportagens sobre o pânico. Pooley e Socolow apontam o defeito: parte das pessoas pode ter respondido pelo que leu, e não pelo que sentiu naquela noite.
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E mesmo no estudo de Cantril, assustado não significava em fuga. A enquete media medo declarado. Ela não contou quem saiu de casa, chamou a polícia ou pegou a estrada.
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O susto dos outros parece sempre maior que o nosso, e a manchete aposta nesse desnível. |
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O que ele disse “O mundo com o qual temos de lidar politicamente está fora de alcance, fora de vista, fora da mente.” Walter Lippmann, Public Opinion, 1922 |
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II Na Prática
Separe a medição da anedota
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Os 2% de Hooper e as histórias de fuga tinham pesos diferentes, e o leitor de 1938 recebeu os dois como se valessem igual. A pesquisa de Hooper perguntou, durante a transmissão, a milhares de casas escolhidas pela empresa. As reportagens juntaram relatos que chegaram sozinhos à redação.
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A diferença decide o caso. Quem telefona para um jornal numa noite estranha já é uma amostra escolhida pelo próprio susto. Quem atende um entrevistador que ligou primeiro representa melhor o resto do país.
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A pesquisa de Hooper tinha um limite conhecido: só alcançava casas com telefone, mais ricas que a média americana em 1938. Mesmo com esse desvio, ela media a audiência enquanto o programa tocava, sem a interferência das manchetes.
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QUANDO FOI MEDIDO |
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O primeiro filtro é o relógio. Medição feita durante o fato vale mais que lembrança colhida depois da cobertura, porque a cobertura reescreve a memória. A enquete de Gallup chegou a entrevistados que já conheciam a versão oficial da noite.
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O segundo filtro é a origem da amostra. Pergunte se as pessoas foram procuradas por quem mediu ou se apareceram por conta própria. Ligações à redação, comentários numa rede social e mensagens num grupo de família pertencem ao segundo tipo.
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O PESO DE UMA HISTÓRIA BOA |
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Uma anedota com nome, rua e toalha molhada no rosto convence mais que uma porcentagem. A memória guarda a cena e esquece a tabela, e o repórter sabe disso quando escolhe a abertura da matéria.
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Um exemplo de trabalho. O diretor conta que os clientes estão furiosos com o novo preço e mostra três emails duros. A planilha de cancelamentos do mês segue estável. Os três emails existem, e mesmo assim dizem pouco sobre os outros clientes.
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Outro exemplo, de casa. O noticiário mostra fila num posto e fala em corrida por combustível. Você passa por quatro postos no caminho do trabalho e encontra todos vazios. A sua contagem tem limite, mas é uma medição, e a reportagem pode ser só uma cena.
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Uma cena bem contada pesa mais que mil casas consultadas, e quase nunca deveria. |
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