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A pesquisa de 1938 achou 2% ouvindo os marcianos

Uma enquete por telefone mediu a audiência de Orson Welles durante a transmissão. As manchetes contaram outra noite.

Família reunida em volta de um rádio de válvula numa sala dos anos 1930

Um rádio de 1938, na noite dos marcianos

▼

Na noite de 30 de outubro de 1938, a empresa de pesquisa de C. E. Hooper telefonou para 5 mil casas americanas, e só 2% dos entrevistados disseram estar ouvindo uma peça no rádio. Na manhã seguinte, a capa do New York Times afirmava que ouvintes em pânico tinham tomado um drama de guerra por fato.

A peça era A Guerra dos Mundos, adaptação do romance de H. G. Wells de 1898, levada ao ar pela rede CBS no Mercury Theatre on the Air, o programa de radioteatro (teatro encenado e transmitido pelo rádio) de Orson Welles, então com 23 anos. O roteiro de Howard Koch narrava uma invasão marciana em boletins falsos de notícia.

O primeiro pouso acontecia numa fazenda de Grover's Mill, em Nova Jersey. Repórteres de mentira descreviam cilindros de metal, criaturas saindo deles e um raio de calor queimando a multidão curiosa.

O programa avisou que era ficção na abertura, repetiu o aviso no intervalo e encerrou com Welles dizendo ao microfone que tudo tinha sido uma brincadeira de Halloween. Mesmo assim, a manchete do Times virou o registro oficial da noite. O Daily News, de Nova York, estampou terror pelo país inteiro.

Jornais de várias cidades repetiram as cenas: famílias fugindo de carro, igrejas cheias, gente com toalha molhada no rosto contra o gás marciano. Quase todas vinham de telefonemas à redação e de relatos de segunda mão, sem nome nem endereço.

O próprio Times, na edição de 31 de outubro de 1938, contou 875 ligações recebidas pela redação durante a transmissão. A reportagem não separou quem ligou com medo de quem ligou para perguntar o que acontecia ou para reclamar do programa.

A distância entre os 2% de Hooper e a nação em fuga das manchetes não diminuiu com o tempo. Livros escolares, documentários e aulas de comunicação contam o pânico como fato, e cada aniversário da transmissão traz a mesma história de volta.

O caso parece peça de museu do rádio, mas o mecanismo trabalha na sua semana. A manchete sobre como os outros reagiram a uma notícia costuma pesar mais que a sua própria experiência com ela.

Abaixo: o viés que fez a imprensa acreditar no pânico alheio, o jeito de separar uma medição de uma anedota, e cinco perguntas para a próxima manchete sobre multidões assustadas.

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I  O Viês da Semana

O pânico que só existia nos outros

 
 
 

A história do pânico causado por A Guerra dos Mundos, de Orson Welles, foi refeita em 2013 pelos pesquisadores de mídia Jefferson Pooley e Michael Socolow, num ensaio publicado pela revista Slate nos 75 anos da transmissão. Na conta deles, quase todo o pânico de 1938 saiu da imprensa, e muito pouco dos ouvintes.

O sociólogo W. Phillips Davison, da Universidade Columbia, deu nome ao padrão em 1983, num artigo da revista Public Opinion Quarterly: efeito terceira pessoa (a crença de que a mídia influencia muito os outros e pouco a nós mesmos).

Pelo efeito, o ouvinte de 1938 que entendeu a ficção não duvidava de que milhões de vizinhos tinham caído no golpe. O repórter que atendeu um telefonema assustado imaginou mil iguais atrás dele, sem contar nenhum.

QUEM GANHAVA COM O SUSTO

Os jornais tinham motivo para acreditar. Durante a Grande Depressão, o rádio tomava verba de anúncio da imprensa escrita, e a noite de Welles deu aos editores um argumento pronto: o rádio era irresponsável e precisava de vigilância.

Editoriais pediram controle sobre as emissoras. A FCC (a comissão federal que regula rádio e TV nos Estados Unidos) abriu uma investigação sobre o programa e encerrou o caso sem punir a CBS.

O historiador da imprensa W. Joseph Campbell, da American University, examinou a cobertura no livro Getting It Wrong (errando a notícia), de 2010. Ele mostrou que as reportagens se apoiavam em anedotas, muitas vindas de agências de notícias, e que o assunto sumiu das capas em poucos dias, sem mortos nem estragos para continuar contando.

O NÚMERO QUE VEIO DEPOIS

A cifra mais repetida saiu de Hadley Cantril, psicólogo de Princeton, no livro The Invasion from Mars (a invasão de Marte), de 1940. Ele estimou 6 milhões de ouvintes e 1,2 milhão de pessoas assustadas, a partir de uma enquete do instituto de George Gallup.

A enquete de Gallup foi feita seis semanas depois da transmissão, quando os entrevistados já tinham lido muitas reportagens sobre o pânico. Pooley e Socolow apontam o defeito: parte das pessoas pode ter respondido pelo que leu, e não pelo que sentiu naquela noite.

E mesmo no estudo de Cantril, assustado não significava em fuga. A enquete media medo declarado. Ela não contou quem saiu de casa, chamou a polícia ou pegou a estrada.

O susto dos outros parece sempre maior que o nosso, e a manchete aposta nesse desnível.

 
 

O que ele disse

“O mundo com o qual temos de lidar politicamente está fora de alcance, fora de vista, fora da mente.”

Walter Lippmann, Public Opinion, 1922

 
 
 
 
 
 

II  Na Prática

Separe a medição da anedota

 
 
 

Os 2% de Hooper e as histórias de fuga tinham pesos diferentes, e o leitor de 1938 recebeu os dois como se valessem igual. A pesquisa de Hooper perguntou, durante a transmissão, a milhares de casas escolhidas pela empresa. As reportagens juntaram relatos que chegaram sozinhos à redação.

A diferença decide o caso. Quem telefona para um jornal numa noite estranha já é uma amostra escolhida pelo próprio susto. Quem atende um entrevistador que ligou primeiro representa melhor o resto do país.

A pesquisa de Hooper tinha um limite conhecido: só alcançava casas com telefone, mais ricas que a média americana em 1938. Mesmo com esse desvio, ela media a audiência enquanto o programa tocava, sem a interferência das manchetes.

QUANDO FOI MEDIDO

O primeiro filtro é o relógio. Medição feita durante o fato vale mais que lembrança colhida depois da cobertura, porque a cobertura reescreve a memória. A enquete de Gallup chegou a entrevistados que já conheciam a versão oficial da noite.

O segundo filtro é a origem da amostra. Pergunte se as pessoas foram procuradas por quem mediu ou se apareceram por conta própria. Ligações à redação, comentários numa rede social e mensagens num grupo de família pertencem ao segundo tipo.

O PESO DE UMA HISTÓRIA BOA

Uma anedota com nome, rua e toalha molhada no rosto convence mais que uma porcentagem. A memória guarda a cena e esquece a tabela, e o repórter sabe disso quando escolhe a abertura da matéria.

Um exemplo de trabalho. O diretor conta que os clientes estão furiosos com o novo preço e mostra três emails duros. A planilha de cancelamentos do mês segue estável. Os três emails existem, e mesmo assim dizem pouco sobre os outros clientes.

Outro exemplo, de casa. O noticiário mostra fila num posto e fala em corrida por combustível. Você passa por quatro postos no caminho do trabalho e encontra todos vazios. A sua contagem tem limite, mas é uma medição, e a reportagem pode ser só uma cena.

Uma cena bem contada pesa mais que mil casas consultadas, e quase nunca deveria.

 

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III  Teste Rápido

5 perguntas para a próxima manchete de pânico

 
 
 

O teste serve para manchete sobre multidões: corrida aos bancos, fuga de uma cidade, revolta nas redes, boicote em massa. Toda notícia que diz como muita gente reagiu passa por ele.

Cinco respostas curtas bastam para saber se há medição por trás ou só um punhado de cenas.

Teste das 5 perguntas para uma manchete de pânico

 

1. Quem contou? Procure um instituto, um pesquisador ou um órgão com nome. Em 1938, havia C. E. Hooper de um lado e telefonemas anônimos do outro.

 

2. Quando contou? Medição feita durante o fato vale mais que enquete feita depois de semanas de cobertura.

 

3. Como escolheu os entrevistados? Quem foi procurado representa o país; quem telefona para a redação representa quem se assustou.

 

4. O que foi medido? Medo declarado, gente na estrada e internação em hospital são três números diferentes.

 

5. A história continuou? Pânico real deixa rastro em semanas de notícia; o de 1938 sumiu das capas em poucos dias.

 

Escreva as respostas numa linha, junto da manchete, antes de repassar a notícia. Quem recebe de você ganha a fonte de brinde.

Um exemplo de bolso: um vídeo mostra prateleiras vazias de papel higiênico, e a legenda fala em pânico na cidade. Pela pergunta 1, ninguém contou nada; pela pergunta 3, a câmera escolheu o corredor mais vazio. A manchete fica com etiqueta de dúvida.

Outro exemplo: uma reportagem diz que metade do país teme uma crise e cita um instituto pelo nome, com entrevistas feitas nos últimos sete dias. Pelas perguntas 1, 2 e 3, o número tem dono, data e amostra. Falta a pergunta 4: temer uma crise e sacar o dinheiro do banco são comportamentos distintos.

O teste tem limite. Pânicos reais existem, e as corridas aos bancos americanos entre 1930 e 1933 deixaram agências fechadas e depósitos perdidos nos registros oficiais. O teste separa o pânico registrado do inventado, sem negar que multidões se assustam.

Contar a noite de 1938 pela manchete do Times e pelas fugas que ela narrou, ou pelos 2% de Hooper e pelas casas que seguiram ouvindo outro programa. Os dois números estão acima.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Qual programa da NBC, líder de audiência no domingo, disputava o horário com a invasão marciana de Welles?

★ RARO

🔒

EDIÇÃO SELADA

Quem leu até aqui tem mais um achado desta edição atrás do lacre.

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Quiz da edição

Na noite de 30 de outubro de 1938, qual fatia das 5 mil casas que a pesquisa de C. E. Hooper telefonou disse estar ouvindo a peça de rádio de Orson Welles?

A12%
B28%
C2%
D68%

Resultado da última edição: 50% acertaram.

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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