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I O Viês da Semana
O pasto que Hardin nunca visitou
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Garrett Hardin não visitou pasto nenhum para escrever o artigo de 1968. O exemplo veio de um panfleto de 1833 do economista inglês William Forster Lloyd, que descrevia um rebanho imaginário num campo sem dono.
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O modelo funcionava no papel porque supunha pastores que nunca conversam. Ninguém combina limite, ninguém vigia o vizinho, ninguém cobra multa. Todos decidem sozinhos, olhando só o próprio lucro.
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Com essas premissas, a ruína vem por dedução. Acontece que quase nenhum pasto, lago ou canal real funciona assim. Os usuários se conhecem, moram perto e vão continuar ali no ano seguinte.
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O ATALHO DO MODELO ÚNICO |
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O viés por trás do sucesso do artigo tem nome: a falsa dicotomia (o erro de reduzir um problema a duas saídas, como se não houvesse uma terceira). Hardin oferecia só o Estado ou o mercado. A gestão pelos próprios usuários sumia do cardápio.
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Somava-se a ele o viés de disponibilidade (julgar a frequência de algo pela facilidade com que um exemplo vem à cabeça), descrito por Amos Tversky e Daniel Kahneman em 1973, na revista Cognitive Psychology. Pesca esgotada e floresta derrubada viram notícia. O pasto que segue verde há cinco séculos não vira manchete.
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Ostrom percebeu o buraco olhando casos reais. Ela e o marido, o cientista político Vincent Ostrom, fundaram em 1973 um centro de pesquisa na Universidade Indiana, em Bloomington, e passaram anos reunindo estudos de outros pesquisadores sobre florestas, pescas e canais.
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O CATÁLOGO DE OSTROM |
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O catálogo trazia fracassos também. No livro de 1990, Ostrom descreve pescas costeiras da Turquia e da Nova Escócia, no Canadá, onde os pescadores não acertaram regras e os cardumes minguaram.
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Também narra as bacias de água subterrânea de Los Angeles, onde os usuários passaram anos nos tribunais até dividir a água e contratar um fiscal comum. O comum quase quebrou e se salvou pela mesma via de Törbel: regra feita pelos usuários.
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A diferença entre os que duravam e os que quebravam não estava no tipo de recurso. Estava nas regras que os próprios usuários tinham criado, vigiado e cobrado.
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O próprio Hardin recuou. Em 1998, num texto de revisão publicado na mesma Science, escreveu que o título certo do artigo teria sido a tragédia do bem comum sem gestão.
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Hardin descreveu um pasto sem conversa; os pastos reais que duraram eram feitos de conversa, regra e multa. |
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O que ele disse “A liberdade num bem comum traz a ruína a todos.” Garrett Hardin, The Tragedy of the Commons (A tragédia dos comuns), Science, 1968 |
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II Na Prática
As 8 condições do pasto que dura
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Em Törbel, a regra de 1517 era só o começo. Os moradores elegiam um fiscal que conferia as vacas na subida para o pasto e cobrava multa de quem passasse do limite. Pela norma da aldeia, o fiscal ficava com metade da multa, o que o mantinha atento.
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Só quem tinha direito de cidadão na aldeia podia usar o pasto, e o direito passava de pai para filho. Forasteiro que comprasse terra em Törbel não ganhava, com a compra, lugar no rebanho comum.
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Em Valência, cada canal elege o seu síndico (o representante dos irrigantes daquele canal). A água corre em turnos fixos, e um guarda percorre os canais para flagrar quem abre a comporta fora da vez.
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O julgamento no Tribunal das Águas é oral, em valenciano, e sai na hora. Ninguém precisa de advogado. A UNESCO inscreveu o tribunal na lista do patrimônio imaterial da humanidade em 2009, o ano do Nobel de Ostrom.
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AS OITO CONDIÇÕES |
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Ostrom resumiu o que os casos duradouros tinham em comum em oito princípios de desenho (as condições presentes nos bens comuns que duram e ausentes nos que quebram):
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1. Fronteira clara: se sabe quem usa e onde acaba o recurso. Em Törbel, só o cidadão da aldeia.
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2. Regra do tamanho do lugar: o limite combina com o recurso. Vaca no verão só na medida do feno do inverno.
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3. Quem obedece, decide: os usuários votam e mudam as regras na assembleia.
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4. Vigilância de dentro: quem fiscaliza é usuário ou responde a eles, como o guarda dos canais.
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5. Multa em degraus: a primeira falta custa pouco; a reincidência custa mais.
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6. Briga resolvida rápido e barato: o tribunal da quinta-feira.
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7. Direito de se organizar: o governo de fora não desfaz as regras locais.
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8. Camadas encaixadas: grupos pequenos dentro de grupos maiores, cada canal com síndico próprio dentro do tribunal.
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Ostrom não vendia a lista como receita. As regras certas mudam de lugar para lugar; os princípios descrevem o que os casos bem-sucedidos tinham, sem garantir o sucesso de quem os copia.
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Outros pesquisadores testaram a lista depois. Michael Cox, Gwen Arnold e Sergio Villamayor Tomás revisaram 91 estudos de caso num artigo de 2010 na revista Ecology and Society e concluíram que os princípios tinham bom apoio nos dados.
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O comum dura quando quem usa também vigia, decide e paga a multa. |
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