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O Pasto Suíço Que Durou 500 Anos

Garrett Hardin previu em 1968 a ruína de todo recurso comum; Elinor Ostrom achou pastos e canais geridos em comum por séculos e ganhou o Nobel.

Vacas num pasto alpino comunitário na Suíça

Pasto alpino de Törbel, Suíça

▼

Em 1968, o ecologista Garrett Hardin escreveu na revista Science que todo pasto aberto a todos termina arrasado. Em Törbel, aldeia dos Alpes suíços, o pasto de verão usado em comum pelos moradores seguia verde, regido por um estatuto assinado em 1483.

O raciocínio de Hardin cabia num parágrafo. Cada pastor ganha sozinho o lucro de uma vaca a mais e divide com todos o estrago que ela faz na grama. Logo, cada pastor põe mais uma, e mais outra, até o pasto virar terra.

A saída, para ele, só podia vir de fora: o governo cercando o recurso ou o mercado dividindo o terreno em lotes privados. O artigo entrou nos manuais de economia, ecologia e política pública como lei quase natural.

Em Törbel, a vida corria diferente. Em 1517, a assembleia da aldeia proibiu qualquer família de mandar ao pasto alpino mais vacas do que conseguia alimentar com o próprio feno no inverno. O antropólogo Robert Netting estudou os registros da aldeia e publicou o caso em 1981, no livro Balancing on an Alp (Equilíbrio num pasto alpino).

Na Espanha, em Valência, os agricultores da huerta (a planície irrigada em volta da cidade) dividem a água dos canais com regras próprias desde a Idade Média. O Tribunal de las Aguas (Tribunal das Águas), formado por representantes eleitos pelos próprios irrigantes, se reúne às quintas-feiras na porta da catedral e julga quem tirou água fora da vez.

Elinor Ostrom, cientista política americana, juntou esses casos e dezenas de outros, do Japão às Filipinas, no livro Governing the Commons (Governando os bens comuns), de 1990. Em 2009, ganhou o Nobel de Economia, a primeira mulher premiada na categoria.

Os dois retratos não cabem juntos. Se Hardin estava certo, Törbel deveria ter virado terra séculos atrás, e os canais de Valência, campo de briga entre vizinhos armados de enxada.

Abaixo: o atalho mental que fez o mundo acreditar em Hardin, as condições que Ostrom achou nos bens comuns que duram, e um teste para o recurso dividido da sua casa ou do seu trabalho.

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I  O Viês da Semana

O pasto que Hardin nunca visitou

 
 
 

Garrett Hardin não visitou pasto nenhum para escrever o artigo de 1968. O exemplo veio de um panfleto de 1833 do economista inglês William Forster Lloyd, que descrevia um rebanho imaginário num campo sem dono.

O modelo funcionava no papel porque supunha pastores que nunca conversam. Ninguém combina limite, ninguém vigia o vizinho, ninguém cobra multa. Todos decidem sozinhos, olhando só o próprio lucro.

Com essas premissas, a ruína vem por dedução. Acontece que quase nenhum pasto, lago ou canal real funciona assim. Os usuários se conhecem, moram perto e vão continuar ali no ano seguinte.

O ATALHO DO MODELO ÚNICO

O viés por trás do sucesso do artigo tem nome: a falsa dicotomia (o erro de reduzir um problema a duas saídas, como se não houvesse uma terceira). Hardin oferecia só o Estado ou o mercado. A gestão pelos próprios usuários sumia do cardápio.

Somava-se a ele o viés de disponibilidade (julgar a frequência de algo pela facilidade com que um exemplo vem à cabeça), descrito por Amos Tversky e Daniel Kahneman em 1973, na revista Cognitive Psychology. Pesca esgotada e floresta derrubada viram notícia. O pasto que segue verde há cinco séculos não vira manchete.

Ostrom percebeu o buraco olhando casos reais. Ela e o marido, o cientista político Vincent Ostrom, fundaram em 1973 um centro de pesquisa na Universidade Indiana, em Bloomington, e passaram anos reunindo estudos de outros pesquisadores sobre florestas, pescas e canais.

O CATÁLOGO DE OSTROM

O catálogo trazia fracassos também. No livro de 1990, Ostrom descreve pescas costeiras da Turquia e da Nova Escócia, no Canadá, onde os pescadores não acertaram regras e os cardumes minguaram.

Também narra as bacias de água subterrânea de Los Angeles, onde os usuários passaram anos nos tribunais até dividir a água e contratar um fiscal comum. O comum quase quebrou e se salvou pela mesma via de Törbel: regra feita pelos usuários.

A diferença entre os que duravam e os que quebravam não estava no tipo de recurso. Estava nas regras que os próprios usuários tinham criado, vigiado e cobrado.

O próprio Hardin recuou. Em 1998, num texto de revisão publicado na mesma Science, escreveu que o título certo do artigo teria sido a tragédia do bem comum sem gestão.

Hardin descreveu um pasto sem conversa; os pastos reais que duraram eram feitos de conversa, regra e multa.

 
 

O que ele disse

“A liberdade num bem comum traz a ruína a todos.”

Garrett Hardin, The Tragedy of the Commons (A tragédia dos comuns), Science, 1968

 
 
 
 

II  Na Prática

As 8 condições do pasto que dura

 
 
 

Em Törbel, a regra de 1517 era só o começo. Os moradores elegiam um fiscal que conferia as vacas na subida para o pasto e cobrava multa de quem passasse do limite. Pela norma da aldeia, o fiscal ficava com metade da multa, o que o mantinha atento.

Só quem tinha direito de cidadão na aldeia podia usar o pasto, e o direito passava de pai para filho. Forasteiro que comprasse terra em Törbel não ganhava, com a compra, lugar no rebanho comum.

Em Valência, cada canal elege o seu síndico (o representante dos irrigantes daquele canal). A água corre em turnos fixos, e um guarda percorre os canais para flagrar quem abre a comporta fora da vez.

O julgamento no Tribunal das Águas é oral, em valenciano, e sai na hora. Ninguém precisa de advogado. A UNESCO inscreveu o tribunal na lista do patrimônio imaterial da humanidade em 2009, o ano do Nobel de Ostrom.

AS OITO CONDIÇÕES

Ostrom resumiu o que os casos duradouros tinham em comum em oito princípios de desenho (as condições presentes nos bens comuns que duram e ausentes nos que quebram):

1. Fronteira clara: se sabe quem usa e onde acaba o recurso. Em Törbel, só o cidadão da aldeia.

2. Regra do tamanho do lugar: o limite combina com o recurso. Vaca no verão só na medida do feno do inverno.

3. Quem obedece, decide: os usuários votam e mudam as regras na assembleia.

4. Vigilância de dentro: quem fiscaliza é usuário ou responde a eles, como o guarda dos canais.

5. Multa em degraus: a primeira falta custa pouco; a reincidência custa mais.

6. Briga resolvida rápido e barato: o tribunal da quinta-feira.

7. Direito de se organizar: o governo de fora não desfaz as regras locais.

8. Camadas encaixadas: grupos pequenos dentro de grupos maiores, cada canal com síndico próprio dentro do tribunal.

Ostrom não vendia a lista como receita. As regras certas mudam de lugar para lugar; os princípios descrevem o que os casos bem-sucedidos tinham, sem garantir o sucesso de quem os copia.

Outros pesquisadores testaram a lista depois. Michael Cox, Gwen Arnold e Sergio Villamayor Tomás revisaram 91 estudos de caso num artigo de 2010 na revista Ecology and Society e concluíram que os princípios tinham bom apoio nos dados.

O comum dura quando quem usa também vigia, decide e paga a multa.

 

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III  Teste Rápido

5 perguntas para o recurso dividido

 
 
 

O teste serve para qualquer bem que várias pessoas usam e ninguém possui sozinho: a geladeira do escritório, a vaga de visitante do condomínio, a planilha da equipe, o grupo de mensagens da família.

Diante da bagunça, a tentação repete Hardin: chamar uma autoridade de fora ou dividir tudo em pedaços privados. As perguntas abaixo verificam primeiro se o próprio grupo consegue governar o recurso.

Teste das 5 perguntas para o recurso comum

 

1. Quem pode usar? Escreva a lista. Se a resposta é todo mundo, a primeira condição de Ostrom falhou.

2. Quem fez as regras? Regra que veio de cima, sem consulta, tem mais chance de ser ignorada.

3. Quem percebe o abuso? Em Valência, o guarda anda pelos canais. Nomeie quem confere a geladeira na sexta.

4. A primeira falta tem punição leve? Multa pesada logo de cara gera revolta; nenhuma multa gera abuso.

5. Onde a briga se resolve? Um lugar e um dia fixos, como a quinta-feira na catedral, evitam a guerra no grupo de mensagens.

Um exemplo de condomínio: a vaga de visitante vive ocupada pelo carro do mesmo morador. Pela pergunta 1, não existe lista; pela pergunta 3, ninguém confere. A assembleia pode limitar a vaga a 24 horas, nomear o porteiro como fiscal e dar advertência antes da multa.

Um exemplo de escritório: a geladeira acumula pote vencido. Pela pergunta 2, a regra veio de um aviso colado sem conversa. Uma reunião curta que defina o dia da limpeza e o rodízio de quem limpa responde às perguntas 2 e 3.

O teste tem limite. Os bens comuns duradouros que Ostrom estudou eram grupos estáveis, de gente que se via e esperava continuar ali. Num recurso usado por milhões de desconhecidos, como o ar de uma metrópole, a autogestão sozinha não basta, e Ostrom mesma defendia regras em várias camadas, do bairro ao país.

Escrever com o grupo as regras do recurso e nomear quem vigia, ou entregar a chave a alguém de fora e pagar por ele. Törbel, Valência e as 5 perguntas estão acima.

 
 
Quiz da edição

Em 1517, a assembleia de Törbel decidiu que cada família só podia levar ao pasto alpino quantas vacas?

AO mesmo número de vacas do ano anterior
BUm teto fixo de dez cabeças por família
CA quantidade que a família sustentava com o próprio feno no inverno
DA metade do rebanho do vizinho mais próximo

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