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I O Viês da Semana
Treze séculos de raio saindo do olho
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Ibn al-Haytham não descobriu que a luz existe. Descobriu que os maiores nomes da ciência grega tinham escolhido a explicação errada, e que ninguém tinha checado.
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A tese do raio visual tinha rival desde a Antiguidade. Aristóteles e os atomistas diziam que algo vinha do objeto para o olho. O rival perdeu porque não explicava a geometria da visão, e Euclides explicava.
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O PESO DO NOME NA CAPA |
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O viés de autoridade (a tendência de aceitar uma afirmação pelo prestígio de quem a fez, sem pesar a prova) explica boa parte da sobrevida. Euclides era o geômetra; Ptolomeu, o astrônomo; Galeno, o médico. Contrariar os três exigia contrariar a escola inteira.
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Em 1963, Stanley Milgram publicou no Journal of Abnormal and Social Psychology o experimento de obediência feito na Universidade Yale. Dos 40 voluntários, 26 aplicaram o choque máximo num desconhecido só porque um pesquisador de jaleco mandava. Os choques eram falsos; a obediência, verdadeira.
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O experimento de Milgram mediu obediência a ordens, e não crença em teoria. Mas o mecanismo se parece: o jaleco, ou o nome na capa, poupa a pessoa do trabalho de julgar.
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Na óptica medieval, o atalho tinha um agravante: o raio visual funcionava bem no papel. Com ele, Euclides calculava por que um objeto distante parece menor e Ptolomeu explicava reflexos em espelhos. A conta fechava, e conta que fecha raramente é auditada.
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A DÚVIDA COMO MÉTODO |
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Ibn al-Haytham escreveu contra esse atalho com todas as letras. No livro Al-Shukuk ala Batlamyus (Dúvidas sobre Ptolomeu), de por volta de 1025, ele lista contradições no sistema do astrônomo mais respeitado do seu tempo.
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A crítica não era desprezo. Ele usava Ptolomeu como base e admirava a matemática dele; recusava apenas tratá-lo como prova.
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No Livro da Óptica, o argumento contra o raio visual é simples. Se o olho emitisse algo capaz de alcançar as estrelas, o raio teria que atravessar o céu no instante em que a pálpebra abre. E a dor de olhar o Sol mostra que algo de fora age sobre o olho.
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A autoridade economiza o trabalho de testar, e por esse atalho um erro com bom autor dura mais que um erro sem dono. |
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O que ele disse “O dever de quem investiga os escritos dos cientistas, se a meta é chegar ao que é certo, é fazer de si mesmo inimigo de tudo o que lê.” Ibn al-Haytham, Dúvidas sobre Ptolomeu, por volta de 1025 |
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II Na Prática
O furo na parede do quarto escuro
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Argumento convence pouca gente. O que separa o Livro da Óptica dos tratados anteriores é o experimento controlado, repetido e descrito para que outro leitor pudesse refazê-lo.
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O instrumento central era a câmara escura (um cômodo vedado, com um único furo pequeno numa parede). A luz que passa pelo furo projeta na parede oposta uma imagem invertida da paisagem lá fora.
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AS VELAS DO LADO DE FORA |
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Ibn al-Haytham alinhou várias velas acesas diante do furo. Na parede de dentro apareceram vários pontos de luz, um para cada vela, em posição trocada.
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Quando ele cobria uma vela, sumia exatamente o ponto correspondente na parede. Descobria a vela, o ponto voltava. A luz andava em linha reta, de cada fonte até o anteparo, sem se misturar.
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Dali veio a conclusão sobre a visão. O olho funciona como a câmara: recebe raios de luz que saem de cada ponto do objeto, em linha reta. Nada precisa sair dele.
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O método pesava tanto quanto a conclusão. Ibn al-Haytham chamava a prova de i'tibar (verificação por experimento) e exigia que cada afirmação do livro pudesse ser refeita por quem tivesse o mesmo cômodo, as mesmas velas e paciência. Muitos historiadores da ciência apontam nele um dos primeiros usos sistemáticos do experimento controlado.
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O OLHO SEM RAIO |
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O tratado também descreve a anatomia do olho segundo Galeno e tenta encaixá-la no novo modelo. Ibn al-Haytham errou ali: pôs a percepção no cristalino, e não na retina, e achou que a imagem não podia chegar invertida.
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O erro só foi resolvido em 1604, quando Johannes Kepler publicou Ad Vitellionem Paralipomena (Suplemento a Vitélio) e mostrou que a imagem se forma invertida na retina e que o cérebro a endireita.
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Kepler chegou lá pelo caminho de Ibn al-Haytham. Por volta de 1200, o Livro da Óptica foi traduzido para o latim como De aspectibus (Sobre as vistas), e Roger Bacon, no século XIII, e Vitélio, que dá nome ao livro de Kepler, o estudaram a fundo.
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A prisão domiciliar acabou com a morte de al-Hakim, em 1021. Segundo Ibn al-Qifti, Ibn al-Haytham recuperou os bens e viveu no Cairo copiando livros de matemática para se sustentar. Morreu por volta de 1040, e a data exata não é conhecida porque as fontes discordam.
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A tese grega caiu diante de uma vela coberta e de um ponto de luz que sumia; bastou alguém tratar o mestre como hipótese. |
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