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I O Viês da Semana
O consenso tinha motivo, e motivo errado
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Aristarco de Samos perdeu a discussão sem perder um argumento. Ninguém refutou a conta dele; a comunidade de astrônomos simplesmente seguiu com o modelo que já usava.
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Em 1988, William Samuelson e Richard Zeckhauser publicaram no Journal of Risk and Uncertainty o artigo Status Quo Bias in Decision Making (viés do status quo na tomada de decisão). Nos experimentos deles, a mesma opção era escolhida com frequência maior quando aparecia descrita como a situação atual.
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O PESO DA OPÇÃO QUE JÁ ESTÁ AÍ |
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O viés do status quo (a preferência por deixar tudo como está, mesmo quando a troca seria melhor) não precisa de má-fé. Funciona por cálculo torto: o custo de mudar aparece inteiro e na hora, enquanto o ganho da mudança fica vago e lá na frente.
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Na astronomia grega, o custo de mudar era enorme. A Terra no centro sustentava a física de Aristóteles, que explicava por que a pedra cai: ela volta ao lugar natural, o centro do mundo. Tirar a Terra dali obrigava a refazer a física inteira, e ninguém tinha a física nova pronta.
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O ganho, por outro lado, parecia pequeno. Os modelos com a Terra parada já previam eclipses e posições de planetas com precisão razoável para a época. Trocar de modelo não melhorava nenhuma previsão que os astrônomos de Alexandria precisassem fazer.
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QUANDO A RESISTÊNCIA TEM DONO |
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O caso de Cleantes mostra o outro motor do viés: a autoridade que protege o arranjo existente. A objeção dele não era astronômica. Era religiosa, e vinha do chefe de uma escola filosófica com seguidores.
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Em 2019, Pierre Azoulay, Christian Fons-Rosen e Joshua Graff Zivin publicaram na American Economic Review o estudo Does Science Advance One Funeral at a Time? (a ciência avança um funeral por vez?). Eles acompanharam áreas da biomedicina depois da morte precoce de cientistas de prestígio e viram crescer ali a produção de pesquisadores de fora do grupo do falecido.
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O título do estudo vem de uma frase do físico Max Planck, que viveu o problema por dentro com a física quântica.
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O viés do status quo raramente vence com argumento; vence com o custo de reorganizar tudo o que depende da ideia antiga. |
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O que ele disse “Uma nova verdade científica não triunfa convencendo seus oponentes e fazendo-os ver a luz, mas porque seus oponentes acabam morrendo e cresce uma nova geração familiarizada com ela.” Max Planck, Autobiografia Científica, 1948 |
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II Na Prática
A Lua meia-cheia e o Sol gigante
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A única obra de Aristarco que chegou inteira, Sobre os Tamanhos e Distâncias do Sol e da Lua, mostra de onde pode ter vindo a ousadia. Ele mediu o céu com geometria, sem telescópio.
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O método usava a Lua meia-cheia. Quando metade do disco aparece iluminada, a Terra, a Lua e o Sol formam um triângulo com ângulo reto na Lua. Aristarco estimou o ângulo entre a Lua e o Sol, visto da Terra, em 87 graus.
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Com o triângulo montado, concluiu que o Sol estava entre 18 e 20 vezes mais longe que a Lua. Somando a medida das sombras nos eclipses, chegou a um Sol com diâmetro entre 6 e 7 vezes o da Terra.
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O ERRO QUE APONTOU NA DIREÇÃO CERTA |
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O ângulo verdadeiro é de quase 89 graus e 51 minutos, e a diferença pequena no ângulo muda tudo na conta: o Sol fica cerca de 390 vezes mais longe que a Lua. Mesmo errada, a medida de Aristarco já punha o Sol muito maior que a Terra.
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Thomas Heath, no livro Aristarchus of Samos, the Ancient Copernicus, de 1913, liga a conta à tese: para quem acabou de achar um Sol várias vezes maior que a Terra, fazia sentido que o corpo menor girasse em volta do maior. O próprio Aristarco não deixou essa justificativa escrita; a ligação é dedução dos historiadores.
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A OBJEÇÃO QUE ERA BOA |
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A melhor crítica à tese vinha da observação. Se a Terra dá uma volta no Sol por ano, as estrelas deveriam mostrar paralaxe (um deslocamento aparente de posição ao longo do ano, igual ao do dedo que muda de lugar quando você fecha um olho e abre o outro). Nenhum astrônomo grego viu deslocamento algum.
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Aristarco tinha resposta, segundo Arquimedes: as estrelas estariam tão longe que o deslocamento seria pequeno demais para medir. Ele estava certo, mas a resposta não podia ser conferida com os instrumentos da época, e soava como saída de emergência.
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Em 1543, Nicolau Copérnico publicou Das Revoluções das Esferas Celestes com o Sol no centro. No manuscrito, ele citava Aristarco num trecho que riscou antes da impressão.
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A paralaxe só foi medida em 1838, pelo astrônomo alemão Friedrich Bessel, na estrela 61 do Cisne: menos de um terço de segundo de arco (um segundo é a 3.600ª parte de um grau). Quanto a Cleantes, nenhum registro mostra que a acusação chegou a tribunal; o único rastro é a frase em Plutarco, e Aristarco não aparece em nenhuma lista de processados.
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Aristarco tinha a hipótese certa e a objeção contra ela era honesta; o que faltava era um instrumento, e ele demorou 2 mil anos. |
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