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I O Viês da Semana
Quando o painel fala com certeza
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Stanislav Yevgrafovich Petrov não tinha nenhuma informação secreta a mais que os colegas. Tinha a mesma tela, a mesma sirene e o mesmo telefone. A diferença estava no peso que ele deu à tela.
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Os psicólogos dão nome à tendência oposta. Em 1997, Raja Parasuraman e Victor Riley publicaram na revista Human Factors o artigo Humans and Automation (humanos e automação), que separa o uso correto da máquina do mau uso, quando a pessoa confia no sistema além do que ele merece.
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O VIÉS DE AUTOMAÇÃO |
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Em 1999, Linda Skitka, Kathleen Mosier e Mark Burdick publicaram no International Journal of Human-Computer Studies um experimento com voluntários que monitoravam um voo simulado com ajuda de um sistema automático.
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Os voluntários erraram de dois jeitos. Deixaram passar eventos que o sistema não avisou, chamados erros de omissão, e seguiram ordens erradas do sistema mesmo com outros instrumentos mostrando o contrário, chamados erros de comissão (fazer o que não devia).
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Os autores chamaram o padrão de viés de automação (a tendência de tratar a resposta da máquina como atalho que dispensa conferir o resto). O sistema vira a fonte principal, e os outros sinais servem só para confirmar o que ele já disse.
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O PAINEL QUE NÃO DUVIDA |
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O Oko de 1983 fazia o trabalho pesado do viés por conta própria. Além de acusar o lançamento, o painel informava a própria confiabilidade, e ela estava no nível mais alto. A tela não tinha campo para dúvida.
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Petrov contou à BBC que tinha formação civil de engenheiro e que ajudou a escrever as instruções de operação do sistema. Na avaliação dele, um colega com formação puramente militar, treinado para cumprir ordem, teria repassado o alarme.
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Ele sabia que o Oko tinha entrado em serviço pouco antes e que um sistema novo carrega defeitos que ninguém mapeou. Esse conhecimento deu a ele um motivo concreto para duvidar, e o motivo veio antes da coragem.
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O viés também tem um lado de pressa. Num alarme nuclear, o protocolo dava poucos minutos à cúpula soviética, e cada minuto gasto conferindo parecia um minuto roubado da defesa. A máquina oferecia uma saída rápida; a dúvida exigia ficar parado diante de uma sala inteira.
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A confiabilidade alta media o quanto a máquina acreditava em si mesma; a pergunta certa era quanto um ataque de cinco mísseis fazia sentido. |
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O que ele disse “Vinte e três minutos depois, percebi que nada tinha acontecido. Se o ataque fosse real, eu já saberia.” Stanislav Petrov, entrevista à BBC, 2013 |
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II Na Prática
O sol nas nuvens de Montana
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A comissão que investigou o alarme encontrou a causa no céu. Os satélites do Oko observavam as bases americanas de lado, rente à borda da Terra, para enxergar o clarão de um foguete contra o fundo escuro do espaço.
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Naquela madrugada, perto do equinócio de outono no hemisfério norte, o sol bateu em nuvens altas sobre o meio-oeste americano num ângulo raro. Os sensores leram o reflexo como o fogo de motores subindo da região da base de Malmstrom, em Montana.
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O defeito foi corrigido. Moscou acrescentou depois satélites em órbita geoestacionária (parados sobre o mesmo ponto da Terra), que olham as bases de cima e não confundem nuvem iluminada com foguete.
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A BRONCA NO LUGAR DA MEDALHA |
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O general Yury Votintsev, comandante da defesa antimísseis soviética, chegou a elogiar Petrov logo após o episódio. A investigação seguinte tomou outro rumo: Petrov foi repreendido por não ter preenchido o diário de serviço durante o alarme.
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Ele respondeu que tinha o telefone numa mão e o interfone na outra. Nenhuma condecoração saiu. Na versão de Petrov, premiar o oficial significaria admitir que o sistema caro falhou, e quem tinha desenhado o Oko ficaria exposto junto.
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Petrov deixou o Exército em 1984 e foi trabalhar num instituto de pesquisa. Viveu em Fryazino, cidade perto de Moscou, com aposentadoria modesta e sem contar a história a quase ninguém, nem à mulher, Raisa, que só soube anos depois.
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COMO A HISTÓRIA SAIU DO BUNKER |
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O episódio ficou em segredo até 1998, quando Votintsev o contou nas próprias memórias. A partir dali vieram as homenagens: em 2006, a Associação dos Cidadãos do Mundo o premiou numa cerimônia na sede da ONU, em Nova York, e em 2013 ele recebeu o Prêmio da Paz de Dresden, na Alemanha.
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Petrov recusava o rótulo de herói. Repetia em entrevistas que só fez o trabalho dele e que estava no lugar certo na hora certa.
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Ele faleceu em 19 de maio de 2017, em Fryazino, e o mundo só soube em setembro, quando o ativista alemão Karl Schumacher telefonou para dar parabéns pelo aniversário e ouviu a notícia do filho dele, Dmitri.
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O alarme falso foi resolvido com mais um satélite; o oficial que duvidou dele ganhou uma bronca por causa de um caderno. |
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