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O Terremoto Que Desmontou o Melhor dos Mundos

Lisboa caiu em 1755 e Voltaire respondeu com o Cândido, onde o professor Pangloss jura que tudo acontece pelo melhor.

Ruínas de Lisboa depois do terremoto de 1755

Lisboa em ruínas, 1º de novembro de 1755

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Em 1710, o filósofo alemão Gottfried Wilhelm Leibniz publicou a Teodiceia (a defesa da bondade de Deus diante do mal), com a tese de que Deus escolheu, entre todos os mundos possíveis, o melhor deles. Na manhã de 1º de novembro de 1755, Dia de Todos os Santos, um terremoto derrubou boa parte de Lisboa enquanto as igrejas estavam cheias para a missa.

O tremor começou perto das 9h40 e durou alguns minutos. Menos de uma hora depois, o mar recuou no estuário do Tejo e voltou em ondas que invadiram o Terreiro do Paço, a praça do palácio real na beira do rio.

As velas acesas nos altares caíram sobre madeira e tecido. O incêndio que começou nas igrejas queimou a cidade baixa por quase uma semana e levou arquivos, conventos e o Paço da Ribeira, com a biblioteca do rei dentro.

A notícia levou semanas para atravessar a Europa. Em Genebra, numa casa chamada Les Délices (As Delícias), o escritor francês François-Marie Arouet, que assinava Voltaire, leu os relatos e escreveu um poema longo sobre o desastre, publicado em 1756.

O alvo do poema eram os otimistas. Pregadores diziam que Lisboa pagava pelos próprios pecados; filósofos diziam que o mal de uma cidade servia ao bem do todo. Voltaire perguntou se Lisboa tinha mais vícios que Londres e Paris, onde a vida seguia entre festas.

Três anos depois, em janeiro de 1759, saiu sem assinatura um romance curto chamado Cândido, ou o Otimismo. O professor do herói, o doutor Pangloss, repete a cada desgraça que vivemos no melhor dos mundos possíveis, e o livro joga os dois no meio do terremoto de Lisboa.

A piada atravessou dois séculos e meio. A tese de Pangloss sobreviveu junto, em versões mais educadas, e quase todo mundo já usou uma delas depois de perder um emprego, um negócio ou uma pessoa.

Abaixo: o viés que sustenta a explicação de Pangloss até hoje, o que Lisboa fez enquanto os filósofos discutiam e 4 perguntas para a explicação que você usa quando algo desaba.

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I  O Viês da Semana

A explicação que cabe em qualquer desgraça

 
 
 

Pangloss, personagem do Cândido de Voltaire, ensina no castelo de um barão da Vestfália uma disciplina que o autor batizou de metafísico-teólogo-cosmolonigologia, nome inventado para zombar dos tratados da época. No primeiro capítulo, ele explica que o nariz foi feito para sustentar óculos, e é por causa do nariz que usamos óculos.

A piada mira a versão popular da tese de Leibniz, que o poeta inglês Alexander Pope resumiu no Ensaio sobre o Homem, de 1734, numa linha: “Whatever is, is right” (tudo o que existe está certo).

PANGLOSS EM LISBOA

No capítulo 5, Cândido e Pangloss chegam a Lisboa de navio no dia do terremoto. O anabatista holandês Jacques (membro de uma seita protestante que só batizava adultos), que os tinha acolhido, cai no mar, e Pangloss impede Cândido de pular atrás dele provando que a baía de Lisboa fora criada para que Jacques se afogasse ali.

No meio das ruínas, ele consola os sobreviventes: se o vulcão está em Lisboa, não poderia estar em outro lugar, porque tudo está bem. Um agente da Inquisição ouve a conversa, conclui que Pangloss nega o pecado original e o prende.

No capítulo 6, os sábios do país, com a Universidade de Coimbra, decidem que um auto de fé (cerimônia pública de punição da Inquisição) impediria novos tremores. Pangloss é enforcado e Cândido, açoitado. Na mesma tarde, a terra treme outra vez.

O MECANISMO

Em 1966, os psicólogos Melvin Lerner e Carolyn Simmons publicaram no Journal of Personality and Social Psychology um experimento com estudantes que assistiam a uma colega recebendo choques elétricos num suposto teste de aprendizagem. Os choques eram encenados.

Quando os participantes podiam interromper o sofrimento da colega, julgavam a vítima com simpatia. Quando não podiam fazer nada, descreviam a mesma moça como menos simpática e menos digna, como se ela merecesse o que sofria.

Lerner chamou a tendência de crença num mundo justo (a convicção de que cada um recebe o que merece) e a detalhou no livro The Belief in a Just World, de 1980. A crença protege quem observa: se o sofrimento tem motivo, o mundo continua previsível.

Pangloss leva a tese ao limite. Os pregadores de 1755 precisavam de um culpado; ele nem precisa, porque qualquer desastre já entra pronto na conta do bem geral. Uma explicação que serve para o terremoto e para a calmaria não explica nenhum dos dois.

Quando a tese absorve o terremoto, o naufrágio e a forca, ela deixou de descrever o mundo e passou a proteger quem a repete.

 

O que ele disse

“Filósofos iludidos que gritais ‘tudo está bem’, acorrei, contemplai estas ruínas medonhas.”

Voltaire, Poema sobre o desastre de Lisboa, 1756

 
 
 
 
 
 
 
 

II  Na Prática

O que Lisboa fez com as ruínas

 
 
 

Na Lisboa real, o secretário de Estado Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês de Pombal, tratou o desastre como problema de obra. A frase atribuída a ele, “enterrar os mortos e cuidar dos vivos”, não tem registro seguro de autoria, mas descreve bem as primeiras ordens.

Ele mandou montar cozinhas públicas, tabelar o preço do pão e enforcar saqueadores. Para conter epidemias, corpos foram levados em barcos e afundados no mar, com licença da Igreja.

O QUESTIONÁRIO DE 1756

Em 1756, o governo enviou às paróquias do reino um questionário com perguntas objetivas: a que horas começou o tremor, quanto tempo durou, de que lado veio, quantas réplicas houve, o que aconteceu com o mar e com os poços, quantos prédios caíram.

As respostas, guardadas na Torre do Tombo (o arquivo nacional português), ainda servem a sismólogos que estimam a força do tremor. Por esse registro, o terremoto de Lisboa é tratado como um dos primeiros estudados de forma sistemática na Europa.

A CASA QUE BALANÇA

A reconstrução da Baixa (o bairro plano junto ao Tejo) seguiu ruas retas e prédios de altura padronizada. A equipe do engenheiro Manuel da Maia, com os arquitetos Eugénio dos Santos e Carlos Mardel, pôs dentro das paredes a gaiola pombalina, uma armação de madeira em cruz que deixa o prédio balançar sem desabar.

Segundo a tradição lisboeta, sem documento que a confirme, os modelos de madeira foram testados com tropas marchando ao redor para simular o tremor. A gaiola em si está documentada e segue de pé em prédios da Baixa.

O DESTINO DO LIVRO E DO PROFESSOR

O Cândido saiu em Genebra pelo editor Gabriel Cramer, assinado por um falso tradutor, o “doutor Ralph”. Ainda em 1759, o Conselho de Genebra mandou queimar exemplares e Paris proibiu a venda; em 1762, a Igreja pôs o livro no Índice de livros proibidos. Voltaire negou a autoria por anos.

Pangloss sobrevive à forca. No capítulo 28, ele conta que o carrasco da Inquisição sabia queimar gente, mas não sabia enforcar, e a corda molhada correu mal. Reaparece remando numa galé turca (navio a remo movido por condenados).

No último capítulo, Voltaire escreve que Pangloss admitia ter sofrido horrivelmente, mas, como tinha defendido desde o começo que tudo ia às mil maravilhas, seguia defendendo, sem acreditar. Cândido encerra a conversa com a frase mais famosa do livro: “é preciso cultivar nosso jardim”.

O professor terminou o livro repetindo uma tese em que já não acreditava; quem reconstruiu Lisboa nunca precisou de tese para pôr a primeira viga.

 

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III  Teste Rápido

4 perguntas para o seu Pangloss

 
 
 

O teste serve para quem tem uma explicação pronta para tudo que dá errado: o gestor que chama cada trimestre ruim de fase de transição, o investidor que vê em toda queda uma chance de comprar mais, quem diz que tudo acontece por um motivo diante de qualquer perda.

O alvo é a frase que você repete quando algo desaba e que, olhando bem, você também repetiria se tudo tivesse dado certo.

Teste das 4 perguntas para a sua explicação

 

1. Que resultado provaria que a minha explicação está errada? Escreva a resposta. Se nenhum resultado serve, a explicação virou um Pangloss: cabe no naufrágio e na calmaria.

 

2. Eu usaria a mesma explicação se tivesse dado certo? Pangloss usava o melhor dos mundos para o castelo do barão e para o auto de fé. Uma frase que serve aos dois lados descreve você, e não o fato.

 

3. Estou rebaixando a vítima para manter o mundo previsível? No experimento de Lerner e Simmons, quem não podia ajudar rebaixava a colega. Repare se você faz a mesma conta com o colega demitido ou consigo.

 

4. Qual é o questionário de 1756 deste caso? Escreva 3 perguntas objetivas sobre o que aconteceu, com hora, tamanho e causa, e responda antes de procurar o sentido do episódio.

 

As respostas rendem mais por escrito. Uma explicação com prazo e com um resultado que a derrubaria pode ser testada; uma que serve para qualquer desfecho só pode ser repetida.

O caso tem um limite: otimismo também tem função. Esperar o melhor sustenta quem precisa reconstruir, e o próprio Pombal apostou numa Baixa nova quando só havia entulho. A falha de Pangloss está na explicação que dispensa olhar o estrago; a esperança dele não tem culpa.

O debate também teve contraponto. Jean-Jacques Rousseau respondeu ao poema numa carta a Voltaire de 18 de agosto de 1756, lembrando que a natureza não tinha reunido 20 mil casas de seis e sete andares em Lisboa, e que parte do estrago vinha de quem empilhou a cidade.

Manter a frase de sempre e chamar o próximo tombo de parte do melhor dos mundos, ou mandar hoje o seu próprio questionário de 1756 e medir o estrago antes de procurar o sentido dele. Pangloss e Pombal estão acima.

 
 

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Segundo o texto, por qual editor o Cândido foi publicado em Genebra, e sob qual pseudônimo de tradutor?

AMarc-Michel Rey, assinado como doutor Pangloss
BDenis Diderot, publicado sem nenhum pseudônimo
CGabriel Cramer, assinado pelo falso tradutor doutor Ralph
DO próprio Voltaire, sob seu nome verdadeiro

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