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I O Viês da Semana
A explicação que cabe em qualquer desgraça
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Pangloss, personagem do Cândido de Voltaire, ensina no castelo de um barão da Vestfália uma disciplina que o autor batizou de metafísico-teólogo-cosmolonigologia, nome inventado para zombar dos tratados da época. No primeiro capítulo, ele explica que o nariz foi feito para sustentar óculos, e é por causa do nariz que usamos óculos.
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A piada mira a versão popular da tese de Leibniz, que o poeta inglês Alexander Pope resumiu no Ensaio sobre o Homem, de 1734, numa linha: “Whatever is, is right” (tudo o que existe está certo).
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PANGLOSS EM LISBOA |
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No capítulo 5, Cândido e Pangloss chegam a Lisboa de navio no dia do terremoto. O anabatista holandês Jacques (membro de uma seita protestante que só batizava adultos), que os tinha acolhido, cai no mar, e Pangloss impede Cândido de pular atrás dele provando que a baía de Lisboa fora criada para que Jacques se afogasse ali.
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No meio das ruínas, ele consola os sobreviventes: se o vulcão está em Lisboa, não poderia estar em outro lugar, porque tudo está bem. Um agente da Inquisição ouve a conversa, conclui que Pangloss nega o pecado original e o prende.
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No capítulo 6, os sábios do país, com a Universidade de Coimbra, decidem que um auto de fé (cerimônia pública de punição da Inquisição) impediria novos tremores. Pangloss é enforcado e Cândido, açoitado. Na mesma tarde, a terra treme outra vez.
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O MECANISMO |
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Em 1966, os psicólogos Melvin Lerner e Carolyn Simmons publicaram no Journal of Personality and Social Psychology um experimento com estudantes que assistiam a uma colega recebendo choques elétricos num suposto teste de aprendizagem. Os choques eram encenados.
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Quando os participantes podiam interromper o sofrimento da colega, julgavam a vítima com simpatia. Quando não podiam fazer nada, descreviam a mesma moça como menos simpática e menos digna, como se ela merecesse o que sofria.
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Lerner chamou a tendência de crença num mundo justo (a convicção de que cada um recebe o que merece) e a detalhou no livro The Belief in a Just World, de 1980. A crença protege quem observa: se o sofrimento tem motivo, o mundo continua previsível.
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Pangloss leva a tese ao limite. Os pregadores de 1755 precisavam de um culpado; ele nem precisa, porque qualquer desastre já entra pronto na conta do bem geral. Uma explicação que serve para o terremoto e para a calmaria não explica nenhum dos dois.
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Quando a tese absorve o terremoto, o naufrágio e a forca, ela deixou de descrever o mundo e passou a proteger quem a repete. |
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O que ele disse “Filósofos iludidos que gritais ‘tudo está bem’, acorrei, contemplai estas ruínas medonhas.” Voltaire, Poema sobre o desastre de Lisboa, 1756 |
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II Na Prática
O que Lisboa fez com as ruínas
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Na Lisboa real, o secretário de Estado Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês de Pombal, tratou o desastre como problema de obra. A frase atribuída a ele, “enterrar os mortos e cuidar dos vivos”, não tem registro seguro de autoria, mas descreve bem as primeiras ordens.
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Ele mandou montar cozinhas públicas, tabelar o preço do pão e enforcar saqueadores. Para conter epidemias, corpos foram levados em barcos e afundados no mar, com licença da Igreja.
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O QUESTIONÁRIO DE 1756 |
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Em 1756, o governo enviou às paróquias do reino um questionário com perguntas objetivas: a que horas começou o tremor, quanto tempo durou, de que lado veio, quantas réplicas houve, o que aconteceu com o mar e com os poços, quantos prédios caíram.
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As respostas, guardadas na Torre do Tombo (o arquivo nacional português), ainda servem a sismólogos que estimam a força do tremor. Por esse registro, o terremoto de Lisboa é tratado como um dos primeiros estudados de forma sistemática na Europa.
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A CASA QUE BALANÇA |
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A reconstrução da Baixa (o bairro plano junto ao Tejo) seguiu ruas retas e prédios de altura padronizada. A equipe do engenheiro Manuel da Maia, com os arquitetos Eugénio dos Santos e Carlos Mardel, pôs dentro das paredes a gaiola pombalina, uma armação de madeira em cruz que deixa o prédio balançar sem desabar.
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Segundo a tradição lisboeta, sem documento que a confirme, os modelos de madeira foram testados com tropas marchando ao redor para simular o tremor. A gaiola em si está documentada e segue de pé em prédios da Baixa.
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O DESTINO DO LIVRO E DO PROFESSOR |
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O Cândido saiu em Genebra pelo editor Gabriel Cramer, assinado por um falso tradutor, o “doutor Ralph”. Ainda em 1759, o Conselho de Genebra mandou queimar exemplares e Paris proibiu a venda; em 1762, a Igreja pôs o livro no Índice de livros proibidos. Voltaire negou a autoria por anos.
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Pangloss sobrevive à forca. No capítulo 28, ele conta que o carrasco da Inquisição sabia queimar gente, mas não sabia enforcar, e a corda molhada correu mal. Reaparece remando numa galé turca (navio a remo movido por condenados).
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No último capítulo, Voltaire escreve que Pangloss admitia ter sofrido horrivelmente, mas, como tinha defendido desde o começo que tudo ia às mil maravilhas, seguia defendendo, sem acreditar. Cândido encerra a conversa com a frase mais famosa do livro: “é preciso cultivar nosso jardim”.
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O professor terminou o livro repetindo uma tese em que já não acreditava; quem reconstruiu Lisboa nunca precisou de tese para pôr a primeira viga. |
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