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O Soldado Que Lutou 29 Anos Depois da Guerra
Hiroo Onoda tratou cada panfleto sobre a rendição como armadilha e só largou o fuzil quando o antigo comandante subiu a Lubang.
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Tenente Onoda, Lubang, Filipinas, 1974
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Em 2 de setembro de 1945, o Japão assinou a rendição incondicional a bordo do encouraçado americano USS Missouri, na baía de Tóquio. Em 10 de março de 1974, o tenente Hiroo Onoda, do Exército Imperial Japonês, ainda carregava um fuzil Arisaka carregado e 500 cartuchos na ilha filipina de Lubang, segundo o relato que ele publicou no livro No Surrender, de 1974. Entre os dois fatos cabem 29 anos. Nesse intervalo, o Japão reconstruiu as cidades, sediou os Jogos Olímpicos de Tóquio em 1964 e virou a segunda maior economia do mundo. Onoda tinha 22 anos quando desembarcou em Lubang, em dezembro de 1944. A ilha fica a cerca de 150 quilômetros de Manila, coberta de mato fechado e morros. A missão era sabotar a pista de pouso e o porto para atrasar a invasão americana. O major Yoshimi Taniguchi, oficial de inteligência dele, deixou duas instruções. Era proibido morrer pela própria mão. E Onoda devia continuar lutando, mesmo que levasse anos, até receber uma ordem nova. Em fevereiro de 1945, as tropas americanas tomaram a ilha. Onoda subiu os morros com três soldados: o cabo Shoichi Shimada e os soldados Kinshichi Kozuka e Yuichi Akatsu. Viviam de banana, coco e do arroz e do gado que tomavam dos sítios da ilha. No fim de 1945, panfletos caíram do céu avisando que a guerra tinha acabado. Os quatro leram, discutiram e concluíram que eram falsos. Depois vieram jornais japoneses, cartas da família e, em 1959, alto-falantes com a voz do irmão dele chamando pelo nome. Nada disso mudou a conclusão. Cada prova nova entrava na mesma pasta: truque do inimigo. Abaixo, o mecanismo que transformou cada prova numa confirmação, o que custou manter a guerra de pé por 29 anos e um teste para a crença que você protege hoje. Continue lendo ↓ |
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I O Viês da Semana
Cada prova virou mais uma armadilha
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Os panfletos de 1945 traziam a ordem de rendição assinada pelo general Tomoyuki Yamashita, comandante japonês nas Filipinas. Onoda achou erros no texto e no tom. Para ele, um oficial japonês jamais escreveria daquele jeito.
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A conclusão parecia lógica dentro da premissa. Se a guerra continuava, o inimigo tinha todo motivo para forjar um papel dizendo o contrário. E, se o papel era forjado, ele provava que a guerra continuava.
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O CÍRCULO FECHADO |
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O mesmo raciocínio absorveu tudo o que veio depois. Os jornais japoneses deixados na mata, com notícias de Tóquio, foram lidos como edição montada pelos americanos. As fotos da família, como material de propaganda. Os aviões que cruzavam o céu rumo ao Vietnã, nos anos 1960, viraram sinal de que a guerra seguia firme.
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Em 1959, o irmão Toshio foi a Lubang com uma equipe de busca e chamou por ele com alto-falante. Onoda escreveu no livro que reconheceu a voz, mas concluiu que o irmão tinha sido capturado e falava sob ameaça.
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O NOME DO MECANISMO |
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Em 1979, os psicólogos Charles Lord, Lee Ross e Mark Lepper publicaram no Journal of Personality and Social Psychology um estudo com 48 alunos da Universidade Stanford. Metade era a favor da pena de morte, metade contra. Todos leram os mesmos dois estudos, um com dados a favor e outro contra.
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O resultado: cada grupo achou rigoroso o estudo que confirmava a própria posição e cheio de falhas o outro. Depois de ler as mesmas provas, os dois lados saíram mais convictos do que entraram. Os autores chamaram o efeito de assimilação enviesada (a tendência de julgar a prova pelo quanto ela concorda com o que a pessoa já pensa).
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Onoda viveu o mesmo efeito em escala de três décadas. Toda prova a favor da guerra era aceita sem exame. Toda prova contra passava por uma perícia que nenhum papel conseguiria vencer.
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QUANDO A CRENÇA CUSTOU CARO |
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Um grupo que já pagou muito por uma crença tende a defendê-la com mais força. Akatsu foi o único que desertou: saiu sozinho em 1949 e se entregou às tropas filipinas em 1950. Os outros três trataram a saída dele como sinal de que o inimigo estava perto.
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Para Onoda, a ausência de prova da guerra também provava a guerra: o inimigo só estaria escondendo melhor. |
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O que ele disse “Um homem com uma convicção é um homem difícil de mudar. Diga que discorda e ele vira as costas. Mostre fatos ou números e ele questiona as suas fontes.” Leon Festinger, Henry Riecken e Stanley Schachter, When Prophecy Fails, 1956 |
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II Na Prática
Os 29 anos na conta
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A guerra particular de Onoda teve vítimas reais. As autoridades filipinas atribuíram ao grupo dele a morte de cerca de 30 moradores de Lubang ao longo das décadas, além de dezenas de feridos, plantações queimadas e gado abatido.
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Para os moradores, os homens no morro eram bandidos armados. Para Onoda, cada camponês armado era um guerrilheiro inimigo, e cada tiroteio confirmava que a ilha seguia em guerra.
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OS COMPANHEIROS QUE FICARAM |
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Shimada foi morto em maio de 1954, num confronto com uma patrulha filipina. Kozuka foi morto em outubro de 1972, quando os dois queimavam a colheita de arroz de um sítio. Onoda ficou sozinho no morro aos 50 anos.
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A morte de Kozuka levou o caso de volta aos jornais japoneses. O governo do Japão mandou novas equipes de busca, com parentes e antigos colegas de turma. Nenhuma encontrou o tenente.
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Onoda viu parte dessas buscas de longe, escondido no mato. Reconheceu rostos e leu os jornais que as equipes deixavam pendurados nas árvores. Concluiu de novo que era encenação: se a guerra tivesse mesmo acabado, pensava ele, o Exército mandaria um oficial com ordem por escrito, e não parentes com alto-falante.
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O JOVEM QUE ACHOU |
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Em fevereiro de 1974, o estudante japonês Norio Suzuki, de 24 anos, foi sozinho a Lubang. Ele contava aos amigos que ia procurar o tenente Onoda, um panda e o abominável homem das neves, nessa ordem. Acampou numa clareira e esperou.
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Onoda apareceu em 20 de fevereiro e quase atirou nele. Os dois conversaram por horas. Suzuki perguntou o que faria o tenente voltar para casa. A resposta: uma ordem do major Taniguchi, que o tinha mandado para a ilha.
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A ORDEM DE VOLTA |
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Taniguchi estava vivo e trabalhava numa livraria no Japão. Em 9 de março de 1974, viajou a Lubang com Suzuki e leu, em voz alta, a ordem que dispensava Onoda das operações militares. No dia seguinte o tenente entregou o fuzil, a espada e o punhal, todos conservados.
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Em 11 de março, em Manila, o presidente Ferdinand Marcos concedeu o perdão pelos crimes cometidos na ilha. Onoda voltou a Tóquio como celebridade, mas estranhou o país novo. Em 1975 mudou para o Brasil e montou uma fazenda de gado no Mato Grosso do Sul.
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A mesma informação que ele recusou por 29 anos foi aceita em minutos, porque veio da única fonte que ele tinha decidido, em 1944, que era confiável. |
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