|
|
|
{{saudacao | Bom te ver por aqui.}} {{saudacao_nome | }}
|
|
|
Você escolhe a edição de amanhã: a votação está no fim desta edição.
|
A Câmera Digital Que a Kodak Guardou na Gaveta
Steve Sasson montou em 1975 uma câmera que dispensava filme. A Kodak, dona do filme, preferiu não vender a invenção.
|
Protótipo de Sasson, Kodak, Rochester, 1975
|
| ▼ |
Em dezembro de 1975, num laboratório da Eastman Kodak em Rochester, nos Estados Unidos, o engenheiro Steven Sasson gravou numa fita cassete a primeira foto feita por uma câmera digital, segundo o relato dele publicado pela própria Kodak. Em 19 de janeiro de 2012, a mesma Kodak pediu recuperação judicial num tribunal federal de Nova York, segundo o comunicado da empresa naquele dia. A dona da invenção quebrou justamente quando a invenção tomou o mercado. Entre as duas datas cabem 37 anos. Sasson tinha 25 anos e estava na empresa desde 1973. O supervisor dele, Gareth Lloyd, passou uma tarefa sem prazo nem produto em vista: descobrir se o CCD (o chip que transforma luz em sinal elétrico), criado em 1969 nos Bell Labs, servia para tirar fotografia. Ele montou o aparelho com peças de prateleira. Pegou a lente de uma filmadora Super 8 da própria Kodak, um conversor analógico-digital (o circuito que traduz o sinal elétrico em números) da Motorola, um gravador de fita cassete e 16 pilhas recarregáveis de níquel-cádmio. O resultado pesava 3,6 quilos e tinha o tamanho de uma torradeira. A imagem saía em preto e branco, com 100 por 100 pixels (os pontos que formam a figura digital). Cada clique levava 23 segundos para chegar à fita. Para ver a foto, era preciso tirar a fita e levá-la a um leitor ligado a uma televisão. Na primeira tentativa, com uma assistente do laboratório posando, o cabelo apareceu na tela e o rosto ficou em branco. Sasson ajustou o circuito e a imagem seguinte saiu inteira. O aparelho funcionava. A foto era pior que a de qualquer câmera de bolso da época, mas nenhum grama de filme, papel ou química tinha sido gasto para produzi-la. Abaixo, a conta que os executivos da Kodak fizeram diante da câmera, o que a empresa fez com a invenção nos 30 anos seguintes e um teste para o produto que você protege hoje. Continue lendo ↓ |
|
|
|
I O Viês da Semana
A conta que os executivos fizeram
|
| |
| |
| |
|
Em 1976, Sasson levou o protótipo a uma série de salas de reunião da Kodak. Fotografava alguém da plateia e, pouco depois, mostrava a imagem numa televisão. Na plateia havia gerentes de marketing, técnicos de laboratório e executivos da divisão de filmes.
|
|
As perguntas vieram rápidas. Quando a foto teria qualidade de papel? Quem ia querer ver retrato numa televisão? Como a pessoa guardaria as imagens? Sasson estimou que a câmera chegaria à qualidade de consumo em 15 a 20 anos, pela velocidade com que os chips vinham melhorando.
|
|
A previsão acertou com folga. O problema estava em outra parte da sala.
|
DE ONDE VINHA O LUCRO |
|
A Kodak ganhava pouco com a câmera e muito com tudo o que vinha depois dela. George Eastman, o fundador, lançou em 1888 o slogan “Você aperta o botão, nós fazemos o resto”. O resto era filme, química de revelação e papel fotográfico, vendidos a cada foto, por décadas.
|
|
Uma câmera que dispensava filme cortava a receita na raiz. Cada foto digital era um rolo que deixava de ser vendido. Para quem cuidava da divisão de filmes, a invenção de Sasson era uma ameaça montada dentro de casa.
|
A DOR QUE PESA DOBRADO |
|
Os psicólogos Daniel Kahneman e Amos Tversky descreveram o mecanismo no artigo “Prospect Theory”, publicado na revista Econometrica em 1979: aversão à perda (a tendência de sentir uma perda com mais força que um ganho do mesmo tamanho). Num estudo seguinte, no Journal of Risk and Uncertainty, em 1992, os dois estimaram que a perda pesa cerca de 2,25 vezes o ganho equivalente.
|
|
Na sala de 1976, a perda tinha cifra conhecida: a receita do filme, medida trimestre a trimestre. O ganho era um mercado que ainda não existia, de uma câmera que levava 23 segundos por foto. A comparação já pendia para um lado quando o debate técnico começou.
|
O ESTUDO DE 1981 |
|
A Kodak não ficou sem aviso. Em 1981, Vince Barabba, chefe de inteligência de mercado da empresa, conduziu um estudo sobre a ameaça digital, relatado por ele no livro The Decision Loom, de 2011. A conclusão: a fotografia digital podia substituir o filme, mas a empresa tinha cerca de 10 anos para se preparar.
|
|
A diretoria usou a década para proteger o filme, segundo o próprio Barabba. Os produtos digitais da Kodak nasciam como acessório do papel e da revelação, e não como substitutos.
|
A Kodak teve a câmera em 1975 e o prazo calculado em 1981, e escolheu defender o filme nos dois momentos. |
|
| |
O que ele disse “Era fotografia sem filme, então a reação da gerência foi: é bonitinho, mas não conte a ninguém.” Steven Sasson, entrevista ao The New York Times, 2008 |
|
| |
| |
| |
| |
| |
|
| |
|
II Na Prática
O dinheiro que chegou tarde
|
| |
| |
| |
|
A Kodak registrou a invenção. A patente americana 4.131.919, chamada câmera eletrônica de imagem estática, saiu em 1978 em nome de Sasson e Lloyd. Por décadas, a empresa processou e fez acordos com fabricantes de celular, como Samsung e LG, pelo uso de patentes de imagem digital.
|
|
A empresa também fabricou câmeras digitais. Em 1991 lançou a DCS 100, montada sobre o corpo de uma Nikon F3 e vendida a fotojornalistas. Nos anos 2000, a linha EasyShare chegou a liderar as vendas de câmeras digitais nos Estados Unidos.
|
O PRODUTO CERTO NA FUNÇÃO ERRADA |
|
A margem, porém, estava longe da do filme. Câmera digital era aparelho de eletrônica, disputado com Canon, Sony e Nikon a preço cada vez menor. Não havia rolo para revender a cada foto.
|
|
Em 2001, a Kodak comprou o Ofoto, um site em que as pessoas guardavam e compartilhavam fotos pela internet. O site virou Kodak Gallery e foi usado para vender cópias em papel. O Instagram, lançado em 2010, mostrou o uso que a Kodak deixou passar: a foto feita para ser vista na tela, sem papel nenhum.
|
|
A partir de 2007, o celular com câmera acabou com boa parte do mercado de câmeras de bolso. A Kodak perdeu o filme para a câmera digital e a câmera digital para o telefone.
|
A RIVAL QUE MUDOU DE NEGÓCIO |
|
A japonesa Fujifilm viveu a mesma queda do filme. Sob o comando de Shigetaka Komori, presidente executivo a partir de 2003, a empresa usou a química do filme em outros mercados: películas para telas de cristal líquido, equipamentos médicos e, em 2007, a linha de cosméticos Astalift, baseada no colágeno que ela já pesquisava para o filme fotográfico.
|
|
A Fujifilm segue aberta e lucrando com saúde e materiais. Ela não inventou a câmera digital, mas aceitou antes a perda do filme.
|
O DESFECHO |
|
Em fevereiro de 2012, a Kodak anunciou que deixaria de fabricar câmeras. Em dezembro, vendeu cerca de 1.100 patentes de imagem digital por US$ 525 milhões a um grupo de empresas que incluía Apple e Google, segundo comunicado da própria Kodak. Saiu da recuperação judicial em 2013, menor, voltada à impressão comercial.
|
|
Sasson se aposentou da Kodak em 2009. No mesmo ano, foi anunciado como agraciado com a Medalha Nacional de Tecnologia e Inovação, a maior honraria do governo americano para inventores, entregue pelo presidente Barack Obama.
|
A patente de Sasson rendeu dinheiro à Kodak, e o mercado que ela abriu ficou com os concorrentes. |
|