|
|
|
{{saudacao | Bom te ver por aqui.}} {{saudacao_nome | }}
|
|
O Salto de Costas Que Valeu Ouro em 1968
Dick Fosbury ouviu por anos que o estilo não servia. Na Cidade do México, passou de costas por 2,24 metros e ganhou o ouro.
|
Final do salto em altura, Cidade do México, 1968
|
| ▼ |
Em 20 de outubro de 1968, o americano Dick Fosbury passou de costas por cima do sarrafo a 2,24 metros e levou o ouro olímpico do salto em altura na Cidade do México, com recorde olímpico, segundo os resultados oficiais do Comitê Olímpico Internacional. Nenhum manual de atletismo da época ensinava a saltar de costas. O estilo que venceu os Jogos não existia nos livros de treino. Quem o inventou foi um adolescente que não conseguia aprender o estilo dos livros. Fosbury nasceu em Portland, no estado americano do Oregon, e cresceu em Medford. No colégio, os técnicos ensinavam o rolo ventral (o atleta passa de barriga para baixo, com o corpo paralelo ao sarrafo). Ele não pegava o movimento e voltava sempre à tesoura, o estilo antigo de escola, em que a pessoa passa sentada, uma perna de cada vez. Em 1963, num torneio em Grants Pass, ele começou a deitar o tronco para trás na tesoura, prova após prova, para ganhar alguns centímetros. Cada altura nova pedia um pouco mais de inclinação. No fim da tarde, estava passando de costas, cabeça primeiro, e tinha melhorado a marca pessoal. Os técnicos olharam a cena com desconfiança. Na Universidade Estadual do Oregon, o treinador Berny Wagner passou meses tentando levá-lo de volta ao rolo ventral, segundo o relato do próprio Fosbury em entrevistas posteriores. Um jornal de Medford publicou a foto dele com uma legenda que virou nome: Fosbury Flop (o tombo de Fosbury). Em 1968, ele chegou à Cidade do México como o único finalista que saltava de costas. Os outros competidores, inclusive os medalhistas de prata e bronze, usavam o rolo ventral. Abaixo, por que os técnicos resistiram tanto a um estilo que funcionava, o que precisou mudar no chão das pistas para ele se espalhar e um teste para a ideia esquisita que você está prestes a corrigir. Continue lendo ↓ |
|
|
|
I O Viês da Semana
O estilo que os técnicos queriam consertar
|
| |
| |
|
Berny Wagner tinha razões para desconfiar. O rolo ventral era o estilo dos recordistas mundiais, ensinado em clínicas e livros desde os anos 1930. O soviético Valeriy Brumel tinha chegado a 2,28 metros com ele em 1963, a marca mais alta do mundo até 1971.
|
|
Um técnico que trocava o método dos campeões pela invenção de um calouro arriscava o resultado do atleta e a própria reputação. Wagner chegou a pôr Fosbury para treinar os dois estilos em paralelo, à espera de que o rolo ventral vencesse a comparação.
|
O NOME DA RESISTÊNCIA |
|
Os economistas William Samuelson e Richard Zeckhauser deram nome a essa preferência num artigo publicado no Journal of Risk and Uncertainty, em 1988: viés do status quo (a tendência de manter a opção vigente mesmo quando outra rende mais). Nos experimentos deles, a mesma alternativa era escolhida com mais frequência quando aparecia rotulada como a situação atual.
|
|
O mecanismo é assimétrico. Errar seguindo o método aceito passa por azar; errar com um método novo vira culpa de quem escolheu. Wagner tinha muito mais a perder defendendo o salto de costas do que defendendo o rolo ventral.
|
|
O viés pesa mais em quem ensina. O treinador responde pelo método diante da universidade, dos outros técnicos e dos pais do atleta. Um aluno que ganha com o estilo aceito confirma o professor; um aluno que ganha com estilo próprio deixa a pergunta incômoda sobre o que o professor vinha ensinando.
|
O MEDO DO PESCOÇO |
|
Havia também um argumento de segurança. Até o começo dos anos 1960, a área de queda era de serragem, areia ou lascas de madeira, mais baixa que o sarrafo. Cair de costas, de cabeça, num monte de serragem podia machucar o pescoço com gravidade.
|
|
Payton Jordan, técnico da equipe olímpica americana de atletismo em 1968, previu que imitar Fosbury deixaria uma geração inteira de saltadores com o pescoço quebrado. A frase foi repetida por jornais americanos na semana da final.
|
O QUE O RESULTADO MOSTRAVA |
|
A resistência continuou mesmo com os números a favor. Fosbury ganhou o título universitário da NCAA, a liga que organiza o esporte das faculdades americanas, em 1968, e venceu a seletiva olímpica do mesmo ano. Os técnicos viam a marca subir e seguiam tratando o estilo como exceção de um atleta só, sem lição para os outros.
|
O estilo de Fosbury passou anos sendo tratado como defeito a corrigir, quando já era a resposta medida no placar. |
|
| |
O que ele disse “Crianças imitam campeões. Se tentarem imitar Fosbury, ele vai acabar com uma geração inteira de saltadores, porque todos vão quebrar o pescoço.” Payton Jordan, técnico da equipe olímpica dos Estados Unidos, declaração à imprensa americana, 1968 |
|
| |
| |
| |
| |
|
| |
|
II Na Prática
O colchão que mudou a pista
|
| |
| |
|
O salto de costas não se espalhou só porque Fosbury ganhou. Ele se espalhou porque o chão mudou. Nos anos 1960, as escolas e universidades americanas começaram a trocar a serragem por colchões de espuma, altos e macios, que recebiam o corpo acima do nível do sarrafo.
|
|
Com a espuma, cair de costas deixou de ser perigo. O argumento do pescoço quebrado perdeu a base física, e o que sobrou contra o estilo foi o hábito dos técnicos.
|
OUTROS SALTANDO DE COSTAS |
|
Fosbury não foi o único. No Canadá, a adolescente Debbie Brill desenvolveu sozinha, em meados dos anos 1960, um salto de costas parecido, que a imprensa local chamou de Brill Bend (a curvatura de Brill). Em Montana, o saltador Bruce Quande foi fotografado passando de costas em 1963, sem nunca ter visto Fosbury.
|
|
O estilo apareceu em lugares diferentes porque a física era a mesma para todos. Com o colchão novo, deitar para trás era o caminho mais curto por cima do sarrafo. Faltava alguém ganhar com ele no palco certo.
|
A DÉCADA DA TROCA |
|
A final da Cidade do México foi esse palco. A transmissão de televisão mostrou o salto para o mundo, e os adolescentes copiaram antes dos técnicos. A difusão seguiu o padrão que o sociólogo Everett Rogers descreveu no livro Diffusion of Innovations, de 1962: poucos pioneiros, depois os imitadores próximos e, por último, os resistentes.
|
|
Em Munique, em 1972, o ouro masculino ainda ficou com o soviético Yuri Tarmak, no rolo ventral. A alemã Ulrike Meyfarth, de 16 anos, ganhou o feminino saltando de costas. Em Montreal, em 1976, o polonês Jacek Wszoła levou o ouro masculino com o estilo de Fosbury.
|
|
O último recorde mundial masculino no rolo ventral foi do soviético Vladimir Yashchenko, com 2,35 metros, em 1978. Depois dele, o estilo antigo sumiu das finais olímpicas. O recorde mundial atual, de 2,45 metros, é do cubano Javier Sotomayor, de 1993, saltando de costas.
|
O FIM DA HISTÓRIA DE FOSBURY |
|
Fosbury nunca bateu um recorde mundial. Não se classificou para os Jogos de 1972, formou-se em engenharia civil e trabalhou como engenheiro em Idaho por décadas. Ele viveu até 2023, e o estilo dele continua sendo o único usado nas finais olímpicas.
|
Quem resistiu ao salto de costas tinha um motivo real, e o motivo sumiu com a espuma antes de o hábito sumir. |
|