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O Discurso Que Stalin Corrigiu à Caneta
Em agosto de 1948, Lysenko leu um texto revisado por Stalin. A genética caiu, e cientistas se retrataram para manter o cargo.
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Sessão da VASKhNIL, Moscou, agosto de 1948
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Em 1946, o geneticista americano Hermann Muller recebeu o Nobel de Medicina por provar que raios X provocam mutações nos genes (Fundação Nobel, 1946). Em agosto de 1948, a academia agrícola da União Soviética declarou o gene uma ficção burguesa, segundo o estenograma (a transcrição palavra por palavra) da sessão, impresso em Moscou naquele ano.
Muller tinha trabalhado em laboratórios soviéticos entre 1933 e 1937. O país que hospedou o cientista foi o mesmo que proibiu a ciência dele.
A sessão aconteceu na Academia Lenin de Ciências Agrícolas, conhecida pela sigla russa VASKhNIL, entre 31 de julho e 7 de agosto de 1948. O orador principal era Trofim Lysenko, agrônomo ucraniano, filho de camponeses e presidente da academia.
Lysenko ficou famoso no fim dos anos 1920 com a vernalização (molhar e resfriar sementes de trigo para que a planta floresça mais cedo). O jornal Pravda o apresentou em 1927 como o camponês que fazia brotar ervilha no inverno do Azerbaijão. Os resultados nunca passaram por teste com grupo de controle, mas a história agradou ao partido.
Com os anos, Lysenko passou a dizer que a planta herda o que aprende com o ambiente, e que a genética de Gregor Mendel, monge austríaco do século 19, era ciência burguesa. Os geneticistas soviéticos responderam em revistas e congressos durante uma década.
O mais conhecido deles, o botânico Nikolai Vavilov, dono de uma das maiores coleções de sementes da época, foi preso em 1940 e não saiu vivo da prisão de Saratov. Outros seguiram no cargo, mais quietos a cada ano.
Em 1948, o texto que Lysenko levaria ao púlpito passou antes pela mesa de Josef Stalin. As anotações do ditador continuam no papel, guardadas num arquivo de Moscou.
Abaixo, o que Stalin riscou no discurso, os três cientistas que subiram ao púlpito para desdizer o que tinham publicado e o teste para notar quando o cargo começa a falar por você.
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I O Viês da Semana
A caneta de Stalin no discurso de Lysenko
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O discurso de Trofim Lysenko se chamava "Sobre a situação na ciência biológica". Semanas antes da sessão, o rascunho foi enviado a Josef Stalin, que o devolveu cheio de anotações. O historiador russo Kirill Rossiianov encontrou o original nos arquivos e publicou a análise na revista Isis, em 1993.
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O QUE STALIN RISCOU |
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Stalin cortou o trecho em que Lysenko dividia toda ciência em burguesa e proletária, e escreveu "ha-ha-ha" na margem. Em outros pontos, acrescentou frases a favor da herança de caracteres adquiridos (a ideia de que o que o organismo ganha em vida passa aos filhos).
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O resultado saiu mais contido no tom e mais pesado na autoridade. Ninguém na plateia sabia da revisão, mas todos sabiam que um texto daquele porte não chegava ao púlpito sem aval do Kremlin.
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A plateia também lembrava de Nikolai Vavilov. O botânico que mais enfrentou Lysenko tinha sido condenado como sabotador em 1941 e passou fome na prisão de Saratov até janeiro de 1943, quando o corpo não resistiu. Em 1948, o nome dele não aparecia no plenário, e não precisava aparecer.
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A MANHÃ DE 7 DE AGOSTO |
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Durante seis dias, alguns geneticistas ainda defenderam Mendel no plenário, com dados de cruzamentos de plantas e de moscas. O mais firme foi o geneticista Iosif Rapoport, veterano da guerra, que pediu que os opositores trouxessem experimentos no lugar de slogans. Rapoport não se retratou e foi expulso do partido no ano seguinte. Na sessão final, Lysenko abriu com um anúncio: o Comitê Central do partido tinha examinado e aprovado o relatório. A sala aplaudiu de pé, registra o estenograma.
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Depois do aplauso, três cientistas pediram a palavra. O botânico Pyotr Jukovsky disse que tinha falado sem entender o momento e que, como membro do partido, abandonava o que defendera dias antes. O geneticista Sos Alikhanian e o biólogo Iosif Polyakov fizeram declarações parecidas.
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O QUE VEIO DEPOIS |
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Nas semanas seguintes, o Ministério do Ensino Superior afastou geneticistas das universidades e fechou laboratórios. Livros de genética saíram das bibliotecas, e coleções de moscas-das-frutas, o animal clássico dos estudos de herança, foram destruídas em vários institutos, relata o biólogo Zhores Medvedev no livro The Rise and Fall of T. D. Lysenko, de 1969.
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A retratação comprou proteção desigual. Jukovsky seguiu como membro da academia e continuou publicando. Alikhanian perdeu o posto de professor em Moscou mesmo depois de se desdizer. A troca prometida pela sala nem sempre foi paga.
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O discurso veio revisado de cima, e cada cientista na sala escolheu entre o dado e o crachá. |
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O que ele disse "Iremos para a fogueira, arderemos, mas não renunciaremos às nossas convicções." Nikolai Vavilov, discurso no Instituto de Produção Vegetal, Leningrado, 1939 |
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II Na Prática
Por que quem sabia se desdisse
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Os cientistas que se retrataram em 1948 conheciam os dados. Tinham publicado sobre cromossomos, cruzado ervilhas e contado gerações de moscas. A retratação não nasceu de dúvida sobre a genética, nasceu de uma conta sobre o próprio futuro.
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A CONTA DO SILÊNCIO |
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O economista turco Timur Kuran deu nome a essa conta no livro Private Truths, Public Lies, de 1995: falsificação de preferência (dizer em público o contrário do que se pensa em privado). Kuran mostra que, quando muita gente faz a mesma conta, cada pessoa calada reforça a impressão de que todos concordam.
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Na sala da VASKhNIL, cada aplauso de pé servia de prova para o vizinho de cadeira. Quem duvidava olhava em volta e via unanimidade, sem saber que boa parte da unanimidade era medo.
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O LABORATÓRIO DE ASCH |
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O psicólogo Solomon Asch mediu a mesma pressão em escala pequena e sem ameaça nenhuma. Nos testes publicados na revista Psychological Monographs, em 1956, voluntários comparavam linhas de tamanhos diferentes numa sala com atores que davam a resposta errada de propósito.
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Cerca de três em cada quatro voluntários acompanharam o grupo errado pelo menos uma vez, segundo o próprio Asch. Ninguém ali perderia emprego. Bastou o desconforto de discordar em voz alta de uma mesa inteira.
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Asch também testou o caminho de volta. Quando um único ator dava a resposta certa, a adesão ao erro caía bastante. Um aliado na sala mudava a conta de todos os outros.
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A VOLTA DA GENÉTICA |
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Na União Soviética, o aliado demorou 16 anos. Em junho de 1964, o físico Andrei Sakharov subiu à tribuna da Academia de Ciências e falou contra a eleição de Nikolai Nujdin, aliado de Lysenko. A academia rejeitou Nujdin.
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Com a queda de Nikita Khrushchev, em outubro de 1964, Lysenko perdeu o último protetor. Em 1965, ele foi afastado da direção do Instituto de Genética, e uma comissão da Academia de Ciências inspecionou a fazenda experimental dele em Gorki Leninskie e concluiu que os resultados anunciados não se sustentavam. A genética voltou às escolas soviéticas.
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Lysenko viveu até 1976, sem preso nenhum e sem retratação nenhuma. Os cientistas que se desdisseram em 1948 nunca contaram, em público, o que pensavam naquela manhã.
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Uma voz contrária na sala vale mais que dez convicções guardadas na gaveta. |
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