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O Cavalo que Enganou 13 Especialistas em Berlim
Em 1904, uma comissão atestou que Hans fazia contas sem truque. Um estudante de psicologia descobriu de onde vinham as respostas.
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Hans diante do quadro-negro de Wilhelm von Osten
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Em 12 de setembro de 1904, uma comissão de 13 especialistas assinou em Berlim um parecer: o cavalo Hans respondia a contas de aritmética sem receber sinal de ninguém. Em 1907, o psicólogo Oskar Pfungst publicou, no livro "Das Pferd des Herrn von Osten" (O cavalo do senhor von Osten), que o mesmo animal acertava 89% das perguntas quando quem perguntava sabia a resposta e 6% quando não sabia.
Os dois documentos tratam do mesmo cavalo, no mesmo pátio, respondendo com o mesmo casco.
O dono era Wilhelm von Osten, professor de matemática aposentado, que morava no norte de Berlim. Desde 1900, ele ensinava Hans, um garanhão da raça Orlov (cavalo de trote criado na Rússia), como quem ensina uma criança: quadro-negro, números de madeira e aula diária, sem cobrar ingresso de ninguém.
Hans respondia batendo o casco da pata dianteira direita. Somava, subtraía, dizia as horas, reconhecia cartas de baralho e soletrava palavras por uma tabela que trocava cada letra por um número de batidas. Com o tempo, passou a responder frações: para dois quintos mais um meio, batia 9 e depois 10.
No verão de 1904, a fama já tinha saído da Alemanha. O pátio de von Osten virou ponto de visita de oficiais, professores e curiosos, e os jornais passaram a chamar o animal de Kluger Hans (Hans, o esperto).
A comissão foi montada para encerrar a discussão. Reunia o psicólogo Carl Stumpf, da Universidade de Berlim, o diretor do Jardim Zoológico, Ludwig Heck, o empresário de circo Paul Busch, veterinários e oficiais de cavalaria. Procuraram fios, gestos combinados e truques de adestrador. Não acharam nenhum.
O parecer, porém, deixou uma porta aberta. Dizia que não havia truque intencional e não explicava como o cavalo chegava ao número certo. Stumpf entregou a pergunta a um aluno de 30 anos, e a seção I conta o que esse aluno descobriu mudando um só detalhe do teste.
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I O Viês da Semana
A resposta vinha de quem perguntava
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Oskar Pfungst trabalhava no Instituto de Psicologia da Universidade de Berlim, dirigido por Stumpf, e começou os testes no outono de 1904. Não saiu procurando o truque. Decidiu mudar quem sabia a resposta.
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O TESTE COM E SEM RESPOSTA |
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Primeiro, Pfungst sussurrava um número no ouvido do cavalo e von Osten sussurrava outro, e Hans devia bater a soma. Quando cada um ouvia o número do outro, o cavalo acertava. Quando nenhum dos dois conhecia o total, o cavalo errava.
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Depois vieram os cartões. Pfungst mostrava a Hans um número que ele próprio não tinha visto. O cavalo errava quase todos. Se o perguntador espiava o cartão antes, os acertos voltavam.
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O terceiro passo usou antolhos (as abas de couro que tapam a visão lateral do cavalo). Quando o perguntador ficava fora do campo de visão, Hans se agitava, torcia o pescoço para enxergá-lo e as respostas desabavam.
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O SINAL QUE NINGUÉM MANDAVA |
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Pfungst passou a olhar para o perguntador, e não para o cavalo. Ao terminar a pergunta, a pessoa inclinava de leve a cabeça e o tronco para acompanhar o casco. Quando a contagem chegava ao número certo, ela se endireitava, num movimento de milímetros. Hans começava a bater com a inclinação e parava com o endireitar.
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Quem sabe a resposta ensina o avaliado sem perceber que está ensinando. |
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Von Osten não enganava ninguém. Pfungst concluiu que o dono acreditava no cavalo e produzia os sinais sem saber. Os membros da comissão, quando perguntavam, faziam o mesmo movimento, e por esse motivo nenhum deles viu o que procurava.
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No laboratório, Pfungst inverteu os papéis e fez de Hans. Batia a mão direita enquanto voluntários pensavam num número. Segundo o relatório dele de 1907, 23 de 25 voluntários deram o sinal de parada sem notar. O detalhe mais incômodo veio do próprio pesquisador: mesmo sabendo o que procurar, ele não conseguia deixar de dar o sinal quando perguntava ao cavalo.
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O NOME DO MECANISMO |
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A psicologia chama o caso de efeito Hans Esperto, uma forma do efeito da expectativa do observador (quando o que o avaliador espera muda o comportamento de quem é avaliado). O cavalo não fazia contas. Fazia algo mais fino: lia o corpo humano melhor que os 13 especialistas liam o próprio corpo.
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O que o teste exige "O primeiro princípio é que você não deve enganar a si mesmo, e você é a pessoa mais fácil de enganar." Richard Feynman, Cargo Cult Science, 1974 |
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Von Osten nunca aceitou a conclusão. Acusou Pfungst de ter estragado o cavalo e continuou mostrando Hans a visitantes, convencido de que o animal pensava.
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II Na Prática
O cavalo ainda trabalha em laboratório
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O efeito não ficou em Berlim. Ele aparece sempre que quem aplica um teste sabe a resposta que espera, e três casos documentados mostram onde.
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OS RATOS DE ROSENTHAL |
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Em 1963, o psicólogo Robert Rosenthal e o colega Kermit Fode publicaram na revista Behavioral Science um experimento com estudantes e ratos de laboratório. Metade dos alunos ouviu que seus ratos eram de linhagem brilhante para labirintos, a outra metade ouviu que os seus eram lentos. Os animais tinham sido sorteados.
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Os ratos chamados de brilhantes aprenderam o labirinto mais rápido. Os estudantes não mentiram nos registros: trataram os animais de outro jeito, com mais manuseio e mais paciência, e o comportamento dos ratos acompanhou a expectativa.
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Rosenthal levou a pergunta para a escola. Em "Pygmalion in the Classroom" (Pigmalião na sala de aula), de 1968, ele e a diretora Lenore Jacobson contaram que professores de uma escola da Califórnia receberam uma lista de alunos prestes a desabrochar. Os nomes tinham sido sorteados. Os autores relataram ganho maior de QI entre os listados nas primeiras séries; estudos seguintes acharam efeito menor, e a discussão sobre o tamanho dele segue aberta.
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O CÃO QUE LIA O CONDUTOR |
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Em 2011, a pesquisadora Lisa Lit, da Universidade da Califórnia em Davis, publicou na revista Animal Cognition um teste com 18 duplas de cão farejador e condutor. Não havia droga nem explosivo em nenhuma das salas. Os condutores ouviram que certos pontos, marcados com papel vermelho, escondiam cheiro.
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Os alertas se concentraram nos pontos marcados. O cão fazia o que Hans fazia: lia o condutor. Numa busca real, o resultado vira revista de bagagem, prisão ou prova em tribunal.
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Um teste só mede o avaliado quando quem aplica não sabe a resposta. |
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A CORTINA NA AUDIÇÃO |
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Claudia Goldin e Cecilia Rouse, em artigo de 2000 na American Economic Review, estudaram orquestras americanas que passaram a fazer audições com o músico atrás de uma cortina. Concluíram que a cortina aumentava a chance de uma mulher passar da fase preliminar. Releituras posteriores dos mesmos dados discutem o tamanho do efeito; a cortina ficou.
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A medicina chegou à mesma solução por outro caminho: o ensaio duplo-cego (quando nem o paciente nem o médico sabem quem tomou o remédio e quem tomou a pílula sem princípio ativo). Hans é uma das razões para o médico também ficar no escuro.
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