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Esta pauta venceu a urna de 24/09.

Os 5 Segundos que a Comissão Não Quis Pagar

Um carpinteiro inglês resolveu a longitude no mar em 1761. Os astrônomos que julgavam o prêmio seguraram o dinheiro até 1773.

Relógio de bolso grande de prata com mostrador branco sobre um mapa náutico antigo

O H4 de John Harrison, hoje exposto em Greenwich

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Em janeiro de 1762, o relógio H4 chegou a Port Royal, na Jamaica, com um erro acumulado de 5 segundos em 81 dias de mar, segundo o registro da viagem guardado pelo Royal Museums Greenwich. O homem que o construiu, John Harrison, só recebeu o grosso do dinheiro em 1773, por ordem do Parlamento britânico, e nunca levou o prêmio oficial, como conta Dava Sobel em "Longitude", de 1995.

O relógio passou na prova. O inventor esperou 11 anos pelo pagamento. As duas informações falam do mesmo objeto de prata, hoje exposto em Greenwich.

O tamanho do acerto só aparece diante do problema. No mar aberto, o navegador achava a latitude (a distância até a linha do Equador) pela altura do Sol ao meio-dia. A longitude (a posição no sentido leste-oeste) pedia outra informação: a hora exata do porto de partida, guardada a bordo.

A Terra gira 15 graus por hora. Cada 4 minutos de erro no relógio jogam o navio 1 grau fora do lugar, e 1 grau no Equador passa de 100 quilômetros. Nenhum relógio de pêndulo aguentava o balanço, a umidade e as mudanças de temperatura de uma travessia.

Em 1707, a frota do almirante Cloudesley Shovell errou a própria posição na volta de Gibraltar e bateu nas rochas das ilhas Scilly, no sudoeste da Inglaterra. Mais de 1.400 marinheiros se afogaram, pela conta do Royal Museums Greenwich.

Em 1714, o Parlamento aprovou a Lei da Longitude, com 20.000 libras para quem achasse a posição leste-oeste com margem de meio grau. Para julgar os candidatos, criou a Comissão da Longitude, formada por astrônomos, matemáticos e almirantes.

Harrison era carpinteiro em Lincolnshire, no interior da Inglaterra, filho de carpinteiro e sem estudo formal. Aprendeu relojoaria sozinho e fez os primeiros relógios com engrenagens de madeira. Gastou três décadas e quatro modelos até chegar ao H4, que cabia na palma da mão: 13 centímetros de diâmetro e 1,45 quilo, segundo o museu que o guarda.

A viagem à Jamaica deveria encerrar a disputa. A seção I mostra por que não encerrou: quem julgava o relógio tinha método próprio na mesma corrida.

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I  O Viês da Semana

O juiz que também concorria

 
 

Nevil Maskelyne tinha 29 anos em 1761 e uma convicção: a longitude se achava olhando o céu. Ele defendia o método das distâncias lunares (medir o ângulo entre a Lua e uma estrela e comparar com tabelas calculadas em terra). O método funcionava, mas cobrava horas de conta a cada medição.

Em 1763, Maskelyne publicou "The British Mariner's Guide" (O guia do marinheiro britânico), um manual das distâncias lunares. Em 1765, virou Astrônomo Real e ganhou assento automático na Comissão da Longitude. A partir dali, julgava o relógio de Harrison enquanto disputava o mesmo prêmio com o próprio método.

A PROVA QUE NÃO VALEU

A Comissão recusou a viagem à Jamaica como prova. Alegou que a hora local de Port Royal fora medida sem rigor e que o acerto podia ter sido sorte. Exigiu um segundo teste, com observadores escolhidos por ela.

Em 1764, William Harrison, filho de John, levou o H4 a Barbados a bordo do navio HMS Tartar. Quem conferiu a hora na chegada foi o próprio Maskelyne, enviado à ilha para testar ali as distâncias lunares. Pela conta da Comissão, o relógio errou 39 segundos em 47 dias, precisão três vezes maior que a exigida pela lei.

Na mesma ilha, as medições lunares do próprio Maskelyne também deram resultado aceitável, mas cada uma pedia um céu limpo, um sextante firme e uma tarde de cálculo. O relógio pedia só que alguém desse corda nele todo dia.

Quem julga um concorrente enquanto disputa o mesmo prêmio decidiu antes de olhar a prova.

 

O NOME DO MECANISMO

O nome técnico é conflito de interesse (quando o juiz ganha ou perde com a própria decisão). Maskelyne não precisava mentir para atrasar Harrison. Bastava exigir do relógio um rigor que ninguém exigia das tabelas lunares, e tratar cada dúvida contra o relojoeiro como prudência científica.

O que o salário cala

"É difícil fazer um homem entender algo quando o salário dele depende de não entender."

Upton Sinclair, I, Candidate for Governor, 1935

 

Em 1765, a Comissão ofereceu metade do prêmio, 10.000 libras, com condições. Harrison teria de desmontar o H4 diante de uma banca, entregar os desenhos e ceder os quatro relógios ao governo. Depois, a Comissão pediu cópias feitas por outros relojoeiros, para provar que o mérito não dependia das mãos dele.

Maskelyne levou o H4 para o Observatório de Greenwich e o testou por dez meses, entre 1766 e 1767. O relógio foi mal, e o relatório serviu para segurar a segunda metade. Harrison acusou o astrônomo de manusear a peça sem cuidado e de testá-la em condições que nenhum navio enfrentaria.

 
 
 
 
 
 

II  Na Prática

O relojoeiro trocou de juiz

 
 

Harrison perdeu a briga dentro da Comissão. Ganhou fora dela, por três caminhos que qualquer pessoa avaliada por um rival pode copiar: provar de novo com outra pessoa, provar no uso real e levar o caso a uma instância acima.

UMA CÓPIA FEITA POR OUTRO

O relojoeiro Larcum Kendall, contratado pela própria Comissão, copiou o H4 peça por peça e entregou o K1 em 1769. A exigência que parecia manobra acabou virando argumento: se outro artesão reproduzia o relógio, o acerto deixava de ser truque de um homem só.

Kendall trabalhou mais de dois anos na cópia e cobrou 450 libras pelo serviço, segundo o Royal Museums Greenwich. O preço mostrava o outro problema do H4: era delicado demais para ser fabricado em série naquele momento.

O USO QUE NINGUÉM CONTROLAVA

O K1 embarcou com o capitão James Cook na segunda viagem ao Pacífico, entre 1772 e 1775. Cook voltou elogiando o relógio no diário de bordo, chamando-o de guia confiável, e a opinião de um navegador famoso pesava mais que qualquer relatório de gabinete.

O segredo técnico estava em duas peças. O escapamento (a peça que solta a força da mola em pulsos regulares) quase não precisava de óleo, que engrossava no frio. E uma tira bimetálica (duas lâminas de metais diferentes coladas) se curvava com o calor e corrigia sozinha a marcha do relógio.

Prova que depende de quem a confere vale menos que prova que qualquer um repete.

 

A INSTÂNCIA ACIMA DA COMISSÃO

Em 1772, Harrison já passava dos 79 anos e terminara o H5, um modelo mais simples. Pediu ajuda ao rei George III, que se interessava por ciência e mantinha um observatório particular em Kew, nos arredores de Londres. O rei testou o H5 ali por dez semanas.

Segundo o relato do filho William, o erro médio ficou abaixo de um terço de segundo por dia, e George III teria dito: "Por Deus, Harrison, eu vou te fazer justiça". Em 1773, com o apoio do rei, o Parlamento aprovou um pagamento de 8.750 libras ao relojoeiro, passando por cima da Comissão.

Harrison viveu até 1776, aos 83 anos. Recebeu dinheiro suficiente para fechar a conta, mas o prêmio da longitude, como título, nunca foi entregue a ninguém. A Comissão continuou existindo até 1828 sem declarar vencedor.

 

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III  Teste Rápido

Cinco perguntas sobre quem te avalia

 
 

O teste leva dez minutos e serve para a próxima vez que alguém julgar o seu trabalho: uma promoção, um orçamento, um projeto na faculdade, um pedido de reembolso.

Roteiro para achar o Maskelyne da sua sala

 

1. Liste quem vai decidir e pergunte o que cada pessoa ganha se você for aprovado e o que ganha se você for recusado. Maskelyne ganhava com a recusa, porque o método dele ficava sem rival.

 

2. Compare o rigor. Anote o que exigem de você e o que exigiram da alternativa preferida. A Comissão pediu cópias do relógio e nunca pediu que as tabelas lunares funcionassem nas mãos de um marinheiro cansado.

 

3. Procure uma prova que o avaliador não controla. Harrison ganhou força quando o K1 foi usado por Cook, longe de Greenwich e de qualquer banca.

 

4. Torne o resultado repetível. Documente o processo a ponto de outra pessoa refazer o trabalho sem você. A cópia de Kendall encerrou a desconfiança de sorte.

 

5. Descubra quem está acima de quem julga. Harrison só destravou o pagamento quando o rei e o Parlamento olharam o caso.

 

Há também o que não se sabe, e convém dizer com todas as letras. Os historiadores divergem sobre a intenção de Maskelyne. Sobel, em "Longitude", o pinta como adversário. Curadores de Greenwich lembram que o método dele virou o "Nautical Almanac" (Almanaque Náutico), publicado a partir de 1767, e ajudou navios por décadas. As cartas da época mostram o conflito, e nenhuma mostra a intenção.

O relógio venceu por outro motivo além do rigor: ficou barato. Nos anos 1780, os relojoeiros John Arnold e Thomas Earnshaw simplificaram o desenho, e o cronômetro marinho (relógio de bordo feito para guardar a hora do porto) virou equipamento comum nos navios britânicos.

Aceitar o juiz que tem interesse no resultado e caprichar na prova até ela ficar impossível de negar, ou sair da sala e buscar quem esteja acima dele, pagando o preço de parecer que não sabe perder. Harrison tentou os dois caminhos, e as datas estão acima.

 
 

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Quiz da edição

Na segunda prova do H4, em Barbados, em 1764, quem conferiu a hora de chegada do relógio de Harrison?

AUm relojoeiro contratado pela Marinha
BO próprio Nevil Maskelyne, rival com método lunar
CWilliam Harrison, filho do inventor
DO comandante do HMS Tartar

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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