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Baía dos Porcos venceu a urna de 22/09. Sai em 29/09.
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O Nove Que Ganha Do Preço Mais Baixo
Nos anos 1990, um catálogo americano vendeu mais vestidos a 39 dólares do que a 34, e o motivo estava no último dígito.
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O vestido de 39 dólares do catálogo
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Sábado à tarde, corredor de calçados de uma loja de departamento. Na prateleira de cima, um tênis de corrida com etiqueta amarela: R$ 199,90. Na de baixo, um modelo quase igual, mesma marca, mesma sola, etiqueta branca e lisa: R$ 185. Você olha os dois por três segundos, pega o de cima e segue para o caixa com a sensação de ter feito uma boa compra.
Ninguém somou nada. O olho bateu no começo do número, leu "cento e noventa e poucos", reparou nos noventa centavos no final e registrou um sinal conhecido: oferta. A etiqueta de R$ 185, redonda e sem enfeite, pareceu preço cheio. Saiu quase quinze reais mais caro o par que parecia o mais barato.
A cena se repete em supermercado, farmácia, loja de aplicativo e site de passagem aérea. O preço terminado em nove (ou em noventa centavos, a versão brasileira) está em toda parte porque funciona, e funciona justamente com gente atenta. Quem confere a etiqueta com cuidado costuma conferir o pedaço errado dela: o final, onde mora o aviso de desconto, e não o valor inteiro.
Um leitor desta casa resumiu a armadilha numa frase curta: "Dar uma de esperto acaba saindo caro." Outro completou com a regra que desmonta o truque: avaliar o valor, não a escassez. As duas frases apontam para a mesma falha. A pessoa acha que está sendo cuidadosa, e o cuidado dela vira a porta de entrada do vendedor.
A seção a seguir mostra o experimento que mediu esse efeito com dinheiro de verdade, fora do laboratório: quem montou o teste, que produto foi usado, quais preços apareceram impressos e qual etiqueta levou mais pedidos. A resposta contraria a lógica mais básica de quem compra, e vale tanto para um vestido de catálogo quanto para o tênis da prateleira de cima e o pacote de café da próxima semana.
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I O Viês da Semana
O vestido impresso três vezes
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Eric T. Anderson, da Universidade de Chicago, e Duncan Simester, da escola de administração do MIT, fecharam nos anos 1990 um acordo raro com uma empresa americana de venda de roupas femininas por catálogo. A empresa deixaria os dois pesquisadores mexerem nos preços impressos de algumas peças e mediria as vendas reais, pedido por pedido. Nada de questionário, nada de voluntário em sala de aula: clientes comuns, gastando o próprio dinheiro em casa.
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O desenho era simples. A empresa imprimiu versões diferentes do mesmo catálogo e mandou cada versão para um grupo sorteado de clientes. As fotos, as descrições e os tecidos eram idênticos. Mudava apenas o número ao lado de alguns itens. Um vestido, por exemplo, aparecia por 34 dólares para um grupo, 39 para outro e 44 para um terceiro.
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A teoria econômica mais elementar prevê a ordem das vendas sem esforço: quanto mais barato, mais pedidos. O vestido de 34 deveria vender mais que o de 39, e o de 39 mais que o de 44. Não foi o que as fichas de pedido mostraram.
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| Catálogo A: o vestido a 34 dólares, o preço mais baixo do teste |
| Catálogo B: a mesma peça a 39 dólares, com o nove no fim |
| Catálogo C: a mesma peça a 44 dólares, o preço mais alto |
| Pedidos: a versão de 39 vendeu mais que as outras duas |
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A etiqueta de 39 dólares vendeu mais unidades do que a de 34, mesmo custando cinco dólares a mais pelo mesmo vestido. E vendeu mais que a de 44, o que ninguém estranha. O pico da demanda ficou no preço terminado em nove, e não no preço mais baixo da tabela.
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Cinco dólares a mais na etiqueta trouxeram mais pedidos, porque o nove no fim avisava promoção. |
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O artigo que mediu o nove "Effects of $9 Price Endings on Retail Sales: Evidence from Field Experiments" (Efeitos dos finais em 9 dólares nas vendas do varejo: evidência de experimentos de campo) Eric T. Anderson e Duncan Simester, Quantitative Marketing and Economics, 2003 |
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A explicação dos autores tem a ver com informação, não com matemática. Cliente de catálogo não conhece o preço justo de cada vestido. Sem essa referência, ele procura pistas, e o final nove virou uma pista aprendida em décadas de varejo americano: é o dígito das liquidações, das remarcações, dos cartazes de oferta. O cérebro lê o nove e conclui que alguém baixou o preço.
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Num artigo publicado na Harvard Business Review em 2003, Anderson e Simester relataram o que acontecia quando a página já trazia outro aviso de desconto, como a palavra "sale" (liquidação) ao lado do preço. Nesse caso, o efeito do nove diminuía. Quando o cliente já tinha um sinal explícito de oferta, o dígito perdia a função de sinal. O nove não convencia por ser menor. Convencia por ser um aviso.
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O vestido de 34 dólares era a melhor compra do catálogo. Quem escolheu o de 39 pagou cinco dólares pela impressão de estar aproveitando uma promoção que não existia.
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II Na Prática
Os noventa centavos da prateleira
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No Brasil, o nove americano ganhou forma própria: R$ 19,90, R$ 49,90, R$ 9,99, o quilo a R$ 29,98. Quase nenhuma etiqueta de supermercado termina em zero redondo. O final quebrado cumpre duas funções ao mesmo tempo, e só uma delas foi medida no catálogo de roupas.
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O DÍGITO DA ESQUERDA |
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A segunda função mora no começo do número. Manoj Thomas e Vicki Morwitz, pesquisadores de marketing da Universidade Cornell e da Universidade de Nova York, publicaram em 2005 no Journal of Consumer Research o estudo "Penny Wise and Pound Foolish" (econômico no centavo, perdulário na libra), sobre o efeito do dígito da esquerda. Nos experimentos, as pessoas julgavam 2,99 bem mais barato que 3,00, e a diferença percebida passava longe do centavo real, porque a leitura do número se apoia no primeiro algarismo.
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Os dois achados se somam na gôndola. O R$ 19,90 parece "dezenove e pouco" pelo dígito da esquerda e parece oferta pelos noventa centavos do fim. O comprador atento, que olha a etiqueta de perto, recebe os dois recados, e nenhum deles diz quanto o produto vale.
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O final quebrado da etiqueta conta a intenção do vendedor; só o valor inteiro conta quanto sai do seu bolso. |
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ONDE O ESPERTO PAGA |
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A armadilha pega com mais força quem se orgulha de comprar bem. Essa pessoa compara, procura promoção, desconfia de preço cheio. Justamente por comprar assim, ela treinou o olho para caçar sinais de desconto, e o nove é o sinal mais barato de fabricar: não exige baixar preço nenhum, só trocar o último algarismo.
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O leitor que escreveu "Dar uma de esperto acaba saindo caro" descreveu exatamente essa inversão. O frete grátis que empurra o carrinho para cima do mínimo, a mesa com 24 sabores de geleia do experimento de Sheena Iyengar e Mark Lepper, publicado em 2000, que fez mais gente sair sem pote nenhum, a contagem regressiva de "últimas unidades": todos funcionam sobre quem está prestando atenção, porque oferecem um detalhe para a atenção se agarrar.
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A outra frase do leitor, avaliar o valor e não a escassez, vale para o nove também. Escassez, prazo, final quebrado e selo de oferta respondem à pergunta "estou pagando menos do que pagaria?". Nenhum deles responde à pergunta útil: "este produto vale este número para mim?".
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O comércio também usa o código ao contrário. Loja de luxo e restaurante caro preferem número redondo, R$ 200, R$ 90, justamente para não parecer liquidação. O dígito sinaliza posição de marca nos dois sentidos, e quem conhece o código passa a ler a etiqueta como propaganda, que ela também é.
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III Teste Rápido
Três segundos a mais no caixa
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O antídoto não exige planilha nem calculadora. Exige trocar a ordem da leitura: primeiro o valor inteiro arredondado, depois a decisão, e o final da etiqueta por último, se sobrar interesse.
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Quatro passos para ler a etiqueta pelo valor, não pelo aviso |
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1. Arredonde para cima primeiro. R$ 19,90 vira 20, R$ 199,90 vira 200, R$ 9,99 vira 10. O número arredondado é o que sai da conta; os centavos são enfeite.
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2. Compare com a etiqueta redonda ao lado. Quando houver dois produtos parecidos, um com final quebrado e outro redondo, faça a diferença com os valores arredondados. O tênis de R$ 185 contra o de R$ 199,90 vira 185 contra 200, e a conta aparece sozinha.
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3. Procure a prova do desconto. Final nove não é desconto. Desconto real tem preço anterior visível, com data, ou aparece no histórico de preço do site. Sem preço anterior verificável, trate a etiqueta como preço cheio.
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4. Decida o teto sem olhar o número. Pense no valor máximo que o produto merece para você e só então leia a etiqueta. Se ela passar desse teto, o nove no fim não muda a resposta.
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O terceiro passo é o que mais rende. O experimento de Anderson e Simester mostrou que o nove funciona como substituto do aviso de liquidação. Quando você exige a prova da liquidação, o substituto perde a força, igual perdeu no catálogo quando a palavra "sale" aparecia na página.
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O quarto passo protege contra a versão mais sofisticada da armadilha, a que combina final quebrado, contador de tempo e "restam 3 unidades". Com um teto definido antes, a pressão vira informação neutra: o produto cabe ou não cabe no valor que você já tinha decidido.
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Vale fazer o teste na próxima ida ao mercado. Escolha cinco itens do carrinho e anote o valor arredondado de cada um antes de passar no caixa. A soma costuma assustar quem se guiava pelo primeiro dígito, porque cada "dezenove e pouco" era, na conta real, vinte.
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As clientes do catálogo americano não eram descuidadas. Elas olharam a etiqueta, reconheceram o sinal de oferta e agiram conforme o sinal. A falha estava em confiar num aviso que custa zero para quem o imprime. Três segundos de arredondamento separam quem paga pelo vestido de quem paga pelo dígito.
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"Qual foi a última etiqueta terminada em nove que decidiu uma compra sua?"
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 Começar pelo dia 1 →
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Quiz da edição
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No teste com catálogo de roupas, o mesmo vestido apareceu impresso com três preços diferentes. Qual deles levou mais pedidos?
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