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A Lista De 19 Itens
Em 2008, oito hospitais passaram a ler 19 linhas banais em voz alta antes de cortar, e a mortalidade caiu pela metade.
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Uma sala de cirurgia antes do primeiro corte
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No dia 30 de outubro de 1935, no campo de provas de Wright Field, em Ohio, o bombardeiro experimental Boeing Modelo 299 decolou, subiu poucos metros, empinou e caiu em chamas. Nos controles estava o major Ployer Peter Hill, chefe de testes de voo do Corpo Aéreo do Exército americano e um dos aviadores mais experientes do país. A investigação não encontrou defeito de projeto: as travas dos lemes e dos profundores tinham ficado presas no chão, e ninguém as soltou antes da corrida de decolagem.
A imprensa da época resumiu o avião numa sentença que pegou: máquina demais para um homem só pilotar. O Exército chegou a uma conclusão diferente, e muito mais barata. Um grupo de pilotos de teste sentou e escreveu, num cartão do tamanho de um bolso de camisa, o que precisava ser conferido antes de decolar, durante a decolagem, no voo e na aterrissagem. Com o cartão em uso, o mesmo modelo acumulou quase 3 milhões de quilômetros de voo sem repetir o acidente, e entrou na guerra com o nome de B-17. O episódio é reconstruído por Atul Gawande na abertura de "The Checklist Manifesto", de 2009.
Uma lista de conferência não ensina nada a quem já sabe. Ela faz um serviço mais modesto e bem mais chato: garante que o passo conhecido, aquele que qualquer pessoa do time recita de olhos fechados, aconteça mesmo quando a sala está cheia, o relógio corre e a cabeça de quem manda já está três movimentos à frente.
O obstáculo dessa ferramenta nunca foi técnico. Escrever 19 linhas custa uma tarde de trabalho. Caro mesmo é aceitar que um profissional treinado por catorze anos precise confirmar em voz alta se o paciente à frente dele é o paciente certo, e se o lado do corpo marcado é o lado combinado. Quanto mais alta a competência, maior a ofensa embutida no pedido, e é exatamente por essa porta que o erro entra.
A seção a seguir reconstrói a medição que testa a afirmação sem depender de opinião de ninguém: quais hospitais entraram, o que havia nas 19 linhas, em que três momentos a equipe parava tudo, quanto caiu a mortalidade e o que os próprios cirurgiões responderam quando perguntaram se eles quereriam a lista caso estivessem deitados na mesa.
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I O Viés da Semana
Oito hospitais em quatro continentes
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Atul Gawande, cirurgião do Brigham and Women's Hospital e professor da Escola de Saúde Pública de Harvard, foi convocado pela Organização Mundial da Saúde em 2007 com uma encomenda difícil: achar um jeito barato de reduzir mortes em cirurgia em países de qualquer faixa de renda. O grupo dele voltou com uma página de 19 itens de conferência, lida em voz alta em três paradas obrigatórias, antes da anestesia, antes do primeiro corte e antes de a equipe deixar a sala.
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Os itens eram deliberadamente banais. Confirmar em voz alta o nome do paciente, o procedimento combinado e o lado do corpo que seria aberto. Confirmar que o antibiótico entrou na veia nos 60 minutos anteriores à incisão. Cada pessoa da sala dizer o próprio nome e a própria função. Contar as gazes, as agulhas e os instrumentos antes de fechar o paciente. Nenhuma daquelas linhas pedia equipamento novo, verba nova ou técnica nova.
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Em 2008 a página entrou em oito hospitais escolhidos para cobrir extremos de renda: Toronto, Seattle, Londres, Auckland, Amã, Nova Délhi, Manila e o distrito rural de Ifakara, na Tanzânia. Os pesquisadores acompanharam 3.733 cirurgias feitas antes da adoção e 3.955 feitas depois, em pacientes de 16 anos ou mais.
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| 2007: a Organização Mundial da Saúde convoca o grupo e as 19 linhas são escritas |
| Outubro de 2008: os oito hospitais passam a ler a lista em voz alta nas três paradas |
| Janeiro de 2009: o New England Journal of Medicine publica o resultado da medição |
| Fevereiro de 2009: Inglaterra e País de Gales tornam a leitura obrigatória no serviço público |
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O resultado saiu em janeiro de 2009, assinado por Alex B. Haynes e coautores no New England Journal of Medicine: a mortalidade nos trinta dias seguintes à cirurgia caiu de 1,5% para 0,8%, e a proporção de pacientes com alguma complicação grave caiu de 11% para 7%. O corpo clínico, o instrumental e as salas eram os mesmos de antes.
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Nenhuma tecnologia nova entrou naquelas salas de cirurgia. Entrou uma página lida em voz alta, e ela cortou a mortalidade quase pela metade. |
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O que separa lista boa de lista de enfeite "Boas listas de checagem são precisas. São eficientes, diretas ao ponto e fáceis de usar mesmo nas situações mais difíceis." Atul Gawande, "The Checklist Manifesto", 2009 |
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A adesão não foi pacífica em lugar nenhum. Em parte dos oito hospitais, cirurgiões trataram a leitura em voz alta como perda de tempo e como desconfiança contra a própria competência. No fim do estudo, os pesquisadores fizeram à equipe uma pergunta direta: se você fosse o paciente deitado na mesa, ia querer que a lista fosse usada na sua cirurgia? 93% responderam que sim, incluindo boa parte de quem reclamava da leitura.
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II Na Prática
Por que o especialista dispensa o óbvio
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O mecanismo cabe numa frase: a lista de conferência não compensa falta de conhecimento, compensa falta de atenção disponível. Ela é inútil contra o que a equipe não sabe fazer, e poderosa contra o que ela sabe de sobra e deixa passar quando a sala aquece.
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Gawande separa dois tipos de falha para explicar a distinção. Existe o erro por ignorância, quando ninguém no mundo ainda domina aquele problema, e existe o erro por inépcia, quando o conhecimento já está disponível e simplesmente não foi aplicado no caso concreto. Cirurgia moderna, aviação comercial e envio de campanha vivem quase inteiramente no segundo grupo, onde treinamento extra não alcança a falha.
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ONDE A MEMÓRIA FALHA PRIMEIRO |
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A memória de trabalho de quem opera sob pressão tem capacidade pequena e é a primeira a quebrar. Uma sala de cirurgia acumula interrupção, alarme, conversa paralela e troca de turno, e cada uma dessas quebras apaga um item da fila mental de quem conduz. O passo esquecido quase nunca é o passo difícil, e sim o passo tão rotineiro que ninguém acredita ser capaz de pular.
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Peter Pronovost, médico intensivista do Johns Hopkins Hospital, já tinha testado a mesma aposta em 2001 numa unidade de terapia intensiva: cinco passos escritos para instalar um cateter venoso central, começando por lavar as mãos. Levado a 103 unidades de terapia intensiva no estado de Michigan, o programa derrubou a taxa mediana de infecção de corrente sanguínea de 2,7 por mil dias de cateter para zero em três meses, resultado publicado por Pronovost e coautores no New England Journal of Medicine em 2006.
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O orgulho do especialista tem formato previsível: ele aprova a lista para os outros e a dispensa para si mesmo. |
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A resistência tem origem na própria formação. O treinamento do especialista premia decisão solitária sob pressão, julgamento rápido e autonomia diante da incerteza. A mesma formação ensina que conferir passo básico é serviço de iniciante, então o pedido de ler 19 linhas chega como rebaixamento, não como proteção.
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O que faz a lista funcionar não está no papel, está na permissão que ela cria. Quando cada pessoa da sala diz o próprio nome e a própria função em voz alta, a enfermeira que percebe a gaze faltando deixa de ser anônima e ganha uma deixa para falar diante de um cirurgião sênior.
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ONDE A LISTA NÃO SERVE Lista boa é curta e cobre só o item que mata: de cinco a nove linhas, cada uma com verbo de ação e um ponto de parada definido no tempo. Lista longa, ambígua ou escrita por quem nunca executou o trabalho vira teatro, com a equipe marcando tudo sem ler, e o teatro sai pior que a ausência, porque entrega sensação de segurança sem entregar segurança nenhuma. |
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