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100% escolheram A roupa nova do imperador. Sai em 25/09.
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O Bônus Que Bezos Deixou Na Mesa
Em 1994 ele tinha bônus garantido e uma ideia sem cliente nenhum, e escolheu pela resposta de um homem de 80 anos.
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Uma mesa vazia num escritório de Nova York
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A Amazon.com abriu capital em maio de 1997 com prejuízo de 5,8 milhões de dólares acumulado no exercício anterior e vendeu cada ação a 18 dólares (prospecto de oferta pública da Amazon.com, Securities and Exchange Commission, 1997). O homem que assinou aquele documento havia deixado, três anos antes, um cargo de vice-presidente sênior num fundo quantitativo de Nova York que pagava bônus anual em dinheiro e tinha renovado o contrato dele semanas antes da saída.
Os dois fatos se recusam a formar uma linha reta. Quem sai de um emprego caro costuma sair para outro maior, e o destino, naquele caso, era um estoque que ainda não existia.
Decisão comparada de perto tem um vício conhecido. O que está próximo aparece com valor exato, em números que cabem num extrato, e o que está longe aparece como história vaga, sem cifra nenhuma. A conta nasce torta porque um lado da mesa chegou medido e o outro chegou por escrito.
Existe um jeito barato de corrigir a inclinação da mesa sem inventar dado novo. Pare de comparar os dois cenários e projete a si mesmo aos 80 anos, sentado, olhando para trás. Pergunte do que aquele senhor se arrependeria. A tentativa que deu errado quase nunca entra na lista. A tentativa que nunca aconteceu entra sempre, e fica.
A pergunta muda o objeto da conta. Comparar cenários pede previsão, e ninguém prevê bem um mercado que não existe. Projetar o arrependimento pede memória de um tipo que já se conhece: a lembrança do que se deixou passar, que é estável, previsível e chega sem convite aos domingos à tarde.
A seção a seguir reconstrói a cena onde a pergunta foi feita pela primeira vez: o número que tirou um analista de trinta anos do escritório, a caminhada de duas horas com o chefe no Central Park, as 48 horas que ele teve para responder e o que aconteceu com o bônus.
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I O Viés da Semana
A caminhada de duas horas no Central Park
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Jeffrey Preston Bezos tinha 30 anos e o título de vice-presidente sênior da D. E. Shaw & Co., um fundo quantitativo de Nova York que contratava físicos e matemáticos para caçar padrões de preço. Na primavera de 1994, varrendo relatórios de rede atrás de oportunidades de negócio para o fundo, ele topou com uma medida que não conseguiu esquecer: o tráfego da World Wide Web crescia 2.300% ao ano, cálculo do pesquisador John Quarterman publicado no boletim Matrix News em 1994.
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O produto saiu de uma lista de vinte categorias vendáveis pela rede, e livro ganhou por motivo de catálogo, não de paixão literária. Havia cerca de 3 milhões de títulos em circulação no mundo, e a maior loja física da época conseguia expor perto de 175 mil ao mesmo tempo, segundo o prospecto de oferta pública da Amazon.com de 1997. Uma vitrine sem prateleira cabia inteira naquela lacuna, e nenhum outro item da lista tinha um vão tão grande entre o que existe e o que cabe na loja.
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David E. Shaw, dono do fundo, ouviu a proposta e chamou Bezos para caminhar duas horas pelo Central Park antes de responder. A resposta dele foi generosa e afiada ao mesmo tempo: uma boa ideia, sim, porém uma ideia melhor para alguém que ainda não tivesse um emprego muito bom. Bezos saiu da caminhada com 48 horas para decidir e um problema de calendário. Bônus de fundo em Nova York fecha no fim do ano e cai na conta nos primeiros meses do seguinte; quem pede demissão no meio do ano abre mão da parcela inteira.
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| Primavera de 1994: Bezos encontra a medida de 2.300% ao ano de crescimento da web |
| Junho de 1994: a caminhada no Central Park e as 48 horas para responder |
| 5 de julho de 1994: a empresa é constituída no estado de Washington com o nome Cadabra |
| Julho de 1995: a primeira venda, um livro de Douglas Hofstadter sobre analogia e pensamento |
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Ele pediu demissão antes de o bônus cair, dirigiu com a mulher, MacKenzie, de Nova York a Seattle, e escreveu o planejamento inicial no banco do carona. O valor exato daquele bônus nunca foi divulgado por ele nem pela D. E. Shaw, e não existe documento público com a cifra: o que se sabe é que a saída no meio do ano cancelava o pagamento, e que ele saiu assim mesmo.
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Comparar cenários exige prever um mercado. Projetar o arrependimento exige apenas conhecer a si mesmo aos 80, e a segunda tarefa é muito mais fácil. |
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A pergunta que ele fez a si mesmo "Sabia que, quando tivesse 80 anos, não lamentaria ter tentado. Não lamentaria ter tentado participar de algo chamado internet, que eu achava que seria um acontecimento enorme. Sabia que, se falhasse, não me arrependeria. Mas sabia que algo poderia me perseguir: nunca ter tentado." Jeff Bezos, discurso de formatura em Princeton, "We Are What We Choose", 2010 |
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A firma que ele deixou continuou de pé e rendeu bem aos sócios. A escolha não foi entre um caminho bom e um ruim, foi entre dois caminhos bons com formatos de risco diferentes, e a pergunta dos 80 anos serviu justamente para desempatar sem uma planilha que ninguém tinha como preencher.
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II Na Prática
Por que o senhor de 80 anos responde melhor
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O instrumento funciona porque troca a unidade de medida da decisão. Cenário comparado no presente vira dinheiro contra dinheiro: bônus de valor conhecido contra receita hipotética de uma loja sem cliente. Arrependimento projetado vira história contra história, e história tem o defeito útil de não aceitar chute otimista: ninguém se convence de uma lembrança que nunca vai existir.
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OS TRÊS COMPONENTES DA PERGUNTA |
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A idade avançada resolve a parte do prazo. Aos 30 anos, o bônus de dezembro ocupa metade da tela, porque o horizonte de quem decide vai até o Natal. Puxando o ponto de observação para os 80, aquele mesmo pagamento encolhe até virar detalhe contábil de um ano específico, e o que sobra grande é o formato da vida que veio depois.
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O verbo lamentar resolve a parte do sentimento. Perguntar "qual escolha é melhor" convoca argumento, e argumento se fabrica dos dois lados com igual facilidade. Perguntar "do que eu vou me arrepender" convoca uma emoção que a pessoa já sentiu antes e reconhece de longe, sem precisar de justificativa nova.
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A assimetria entre os dois arrependimentos resolve a parte do peso. Thomas Gilovich e Victoria Medvec, da Universidade Cornell, publicaram em 1994 na revista Psychological Review um trabalho sobre a experiência do arrependimento: ação malsucedida dói mais no curto prazo, e a omissão passa a dominar a lembrança quando o prazo se estica. O senhor de 80 anos vive exatamente no prazo longo, por construção.
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Arrependimento por tentar tem prazo de validade. Arrependimento por não tentar acumula juros pelo resto da vida. |
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Vale marcar onde o instrumento não alcança, porque contorno honesto evita uso preguiçoso. A pergunta só serve para escolha irreversível e cara de repetir: mudar de país, largar um cargo, fundar uma empresa, encerrar uma sociedade. Aplicada a uma decisão reversível de terça-feira, ela vira drama caro: quase tudo que se desfaz numa semana não merece consulta ao próprio velório.
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Existe um segundo contorno, e ele é mais duro. O senhor de 80 anos só aparece na cena de quem sobreviveu até lá com alguma folga. Decisão que pode levar a perda total, como hipotecar a casa da família numa aposta única, precisa antes de um corte de ruína: se o pior resultado apaga a chance de tentar de novo, a pergunta do arrependimento nem chega a ser feita, porque não haverá segunda rodada para lamentar.
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O CHÃO QUE NÃO APARECE NA CONTA A D. E. Shaw, no caso de 1994, fornecia esse chão de sobrevivência sem aparecer na conta: Bezos tinha currículo e um mercado que recontrataria um vice-presidente sênior de fundo quantitativo em poucas semanas. O risco real da tentativa era um ano de renda menor, nunca a ruína, e é por causa dele que a pergunta pôde ser feita com sinceridade. |
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