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A Pergunta Que Encontra 30% Mais Falhas
Em 1989, três pesquisadores pediram que voluntários explicassem um resultado como fato consumado, e a lista de causas cresceu 30%.
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A reunião em que o projeto já fracassou
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Em 1989, Deborah Mitchell, J. Edward Russo e Nancy Pennington pediram a voluntários que explicassem um resultado como se ele já tivesse acontecido, e a lista de causas que essas pessoas produziram saiu cerca de 30% maior que a lista de quem tratou o mesmo resultado como possibilidade futura, achado que os três publicaram em "Back to the future: temporal perspective in the explanation of events", no Journal of Behavioral Decision Making, de 1989. Os dois grupos receberam a mesma descrição e o mesmo tempo.
Nada mudou na informação disponível. Mudou o tempo verbal da pergunta, e com ele o tamanho do que a cabeça conseguiu alcançar.
Repare no incômodo. Se a capacidade de enxergar causas depende de como a pergunta foi formulada, então a frase que abre uma reunião de planejamento é instrumento de medição com precisão variável. Duas salas igualmente competentes, olhando o mesmo projeto, produzem listas de tamanhos diferentes por causa da conjugação do verbo.
Gary Klein, psicólogo que passou décadas estudando decisão de bombeiros, enfermeiras de UTI e pilotos militares, leu esse achado e transformou em procedimento. O nome que ele deu foi pré-mortem: um exame feito antes, no lugar do post-mortem, o exame feito depois que o estrago já existe. A descrição oficial dele saiu em "Performing a Project Premortem", na Harvard Business Review, em 2007.
O procedimento é curto e desconfortável. No começo do projeto, com o plano já escrito e a equipe reunida, alguém anuncia que se passaram meses e o projeto fracassou inteiro. Não está atrasado nem abaixo do esperado: fracassou. Cada pessoa na sala tem alguns minutos para escrever, sozinha e em silêncio, as razões do fracasso.
O que sai desse papel costuma surpreender quem conduz, porque boa parte das razões já estava na cabeça de alguém.
A seção a seguir mostra o que o experimento de 1989 encontrou e por que a sala destrava quando o desastre é apresentado como fato consumado.
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I O Viés da Semana
A lista cresce quando o fim já aconteceu
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Vale olhar o desenho do estudo com cuidado, porque o detalhe é onde mora o efeito. Mitchell, Russo e Pennington descreveram cenários a participantes e variaram um único item: se o desfecho era apresentado como algo que podia vir a acontecer, ou como algo que já tinha acontecido.
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Quem recebeu o desfecho no futuro produziu explicações mais genéricas e em menor número. Quem recebeu o desfecho no passado produziu explicações mais específicas, mais concretas e em maior quantidade, com a lista chegando a cerca de 30% mais itens.
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Os autores chamaram o mecanismo de perspectiva temporal, a posição no tempo de onde a pessoa olha o evento. Uma possibilidade futura convida a avaliar se ela é provável. Um fato consumado convida a explicar como chegou até ali, e explicar exige cadeia, nome, etapa e culpado.
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| Estudo de origem: Deborah Mitchell, J. Edward Russo e Nancy Pennington, Journal of Behavioral Decision Making, 1989 |
| Única variação entre os grupos: desfecho apresentado como possível ou como já ocorrido |
| Efeito medido: aumento de cerca de 30% no número de causas levantadas |
| Procedimento derivado: pré-mortem, descrito por Gary Klein na Harvard Business Review, 2007 |
| Duração prevista por Klein para a rodada: poucos minutos de escrita individual, ainda na reunião de abertura |
| Ordem da rodada: escrita em silêncio primeiro, leitura em voz alta depois |
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A diferença entre avaliar e explicar é o miolo do mecanismo. Avaliar uma possibilidade é trabalho de julgamento, e julgamento trabalha por impressão geral. Explicar um fato é trabalho de reconstrução, e reconstrução trabalha por detalhe.
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Existe um segundo efeito, este social, que o estudo de 1989 não mediu e que Klein descreve na prática. Numa reunião de abertura, dizer que o plano pode falhar soa como desconfiança em quem escreveu o plano. Dizer por que ele falhou, quando o fracasso já foi declarado pela própria dinâmica, deixa de ser ataque e passa a ser tarefa distribuída.
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Enquanto o fracasso é hipótese, apontar uma falha custa capital político. Depois que ele virou premissa da sala, apontar falha é cumprir a pauta. |
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O pré-mortem em uma frase "Diferente de uma sessão de crítica comum, em que se pergunta ao time o que pode dar errado, o pré-mortem pergunta o que deu errado." Gary Klein, "Performing a Project Premortem", Harvard Business Review, 2007 |
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Klein chegou a esse formato depois de estudar como especialistas decidem sob pressão, trabalho que ele reuniu em "Sources of Power", de 1998. A observação central é que gente experiente raramente compara opções: reconhece um padrão e simula mentalmente como a ação vai se desenrolar.
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O pré-mortem usa exatamente essa máquina de simulação, só que apontada para o desastre. Em vez de pedir uma avaliação de risco, pede uma narrativa de fracasso, que é o formato em que a experiência acumulada sabe falar.
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II Na Prática
A reunião de dez minutos que a sala aguenta
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O procedimento que Klein descreveu tem uma qualidade rara em ferramenta de gestão: cabe no fim de uma reunião que já estava marcada. Não pede consultor, software nem fase extra no cronograma.
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A sequência é simples. O plano é apresentado como sempre. Em seguida, quem conduz anuncia que o projeto falhou de forma completa e visível, e pede que cada pessoa escreva em silêncio as razões desse fracasso, o maior número possível delas.
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Depois vem a leitura. Cada pessoa lê um item da sua lista, em rodada, até as listas esgotarem. Ninguém debate se o item é plausível durante a leitura, porque debate no meio da rodada mata os itens que ainda não foram ditos.
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O ganho não vem de descobrir risco novo. Vem de extrair o risco que já estava na sala e não tinha por onde sair. |
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Três detalhes sustentam o resultado, e cada um resolve um problema da dinâmica de grupo.
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A ESCRITA EM SILÊNCIO VEM ANTES DA FALA O primeiro item dito em voz alta ancora a sala. Se a conversa começa pelo risco técnico, a lista inteira puxa para o técnico, e o risco de pessoa, prazo ou cliente nem aparece. Escrever antes de falar preserva a diversidade das listas individuais, que é o ativo que a reunião está tentando colher. |
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O fracasso é declarado completo, não parcial. Pedir as razões de um atraso de duas semanas produz respostas pequenas e previsíveis. Pedir as razões de um fracasso inteiro autoriza a sala a mencionar o patrocinador que perdeu interesse, a dependência externa que ninguém controla e a premissa que todo mundo aceitou sem checar.
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A rodada dá a vez a todas as pessoas, inclusive às mais novas e às mais silenciosas. Numa conversa aberta, quem tem menos tempo de casa lê a temperatura da sala e cala; numa rodada com vez marcada, a contribuição dessa pessoa entra no registro junto com as outras.
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O produto final é uma lista escrita, e é nela que o valor se realiza ou se perde. Ela precisa virar ajuste imediato no plano, feito ali mesmo, e ponto de verificação com data e responsável para o que não dá para resolver agora.
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Uma lista que vira ata e descansa numa pasta não muda resultado nenhum. O registro só trabalha quando alguém volta nele em data combinada e confere item por item o que aconteceu, com a lista aberta na tela.
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