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O Teste Que Ninguém Pensou em Fazer
Em 1985 a nova fórmula venceu 190 mil testes cegos, e 79 dias depois a antiga voltou às prateleiras a pedido de quem tinha votado.
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Atlanta, 1985: a lata que voltou em 79 dias
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Em 1985, a Coca-Cola Company contabilizou vitória da fórmula nova sobre a antiga em cerca de 190 mil testes cegos de sabor pagos e conduzidos pela própria empresa. Setenta e nove dias depois de colocar a bebida nova nas prateleiras, em 11 de julho de 1985, a mesma companhia anunciou o retorno da fórmula original com o nome Coca-Cola Classic.
Os dois números saíram do mesmo departamento, no mesmo ano, sobre o mesmo produto, e nenhum dos dois estava errado. A versão nova realmente agradava mais ao paladar de quem provava, e o público realmente exigiu a antiga de volta num volume que a companhia não conseguiu ignorar.
O contexto ajuda a entender por que a diretoria confiou tanto no resultado. Desde 1975, a PepsiCo rodava o Pepsi Challenge, um teste cego em praça pública no qual participantes provavam dois copos sem rótulo e escolhiam. A Pepsi vencia com frequência incômoda, e a participação de mercado da Coca-Cola vinha encolhendo havia anos no canal de supermercado.
A resposta foi técnica e cara. A companhia reformulou o xarope, deixou a bebida mais doce e mais macia, e submeteu a versão nova ao mesmo tipo de prova em que vinha perdendo. Ganhou em Atlanta, ganhou nas praças, ganhou entre consumidores fiéis da própria marca.
O detalhe operacional importa: a prova era um gole. Um copo pequeno, sem gelo, sem comida junto, sem a lata na mão e sem a garrafa em cima da mesa. Bebida mais doce leva vantagem em gole único e perde terreno quando a pessoa toma trezentos e cinquenta mililitros no almoço, e o desenho da prova favorecia exatamente a característica que a fórmula nova tinha de sobra.
O que nenhum daqueles copos mediu foi o efeito de retirar a bebida antiga de circulação. Todos os participantes escolheram entre dois líquidos disponíveis. Nenhum deles escolheu entre continuar tendo a original e trocá-la por outra em definitivo.
A seção a seguir mostra por que uma pesquisa bem executada, com amostra grande e método cego, produz um resultado verdadeiro e sustenta uma decisão errada.
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I O Viés da Semana
O teste que respondeu outra pergunta
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A pergunta que os 190 mil copos responderam foi simples e bem respondida: entre estas duas bebidas, qual você prefere agora. A pergunta que a diretoria precisava responder era outra: o que acontece com quem gosta da original quando ela some da prateleira.
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Vale separar duas perguntas que costumam viajar juntas dentro da mesma pesquisa. Uma mede qual opção o participante prefere quando as duas estão à mão. A outra mede quanto ele resiste a abrir mão da que já tem. A primeira sai barata e rápida; a segunda exige encenar a retirada, e quase nenhum questionário faz encenação.
A distância entre as duas parece pequena no papel e fica enorme na prática. Preferência comparativa e reação a uma perda são estados diferentes, medidos por instrumentos diferentes, e o segundo custa mais para investigar.
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| Pepsi Challenge em praça pública: PepsiCo, a partir de 1975 |
| Reformulação e testes cegos de sabor: Coca-Cola Company, 1984 e 1985 |
| Anúncio da fórmula nova: coletiva em Nova York, 23 de abril de 1985 |
| Old Cola Drinkers of America: Gay Mullins, Seattle, maio de 1985 |
| Ligações e cartas de reclamação: mais de 400 mil, registro da própria empresa |
| Volta da fórmula original como Coca-Cola Classic: 11 de julho de 1985 |
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Repare no mecanismo. O instrumento estava calibrado, a amostra era grande, o método era cego e o resultado se repetia. Uma prova pode ter execução impecável e ainda assim medir uma grandeza que não decide o problema em jogo.
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Daniel Kahneman e Amos Tversky descreveram em "Prospect Theory: An Analysis of Decision under Risk", publicado na revista Econometrica em 1979, a assimetria entre ganho e perda: a mesma quantidade pesa mais quando avaliada como perda do que quando avaliada como ganho.
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Um gole a mais de doçura entra como ganho pequeno; a lata que sai de linha entra como perda inteira. |
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A empresa mediu o ganho pequeno com precisão de laboratório e deixou a perda inteira fora do formulário. Nenhum participante foi avisado de que a original sairia de circulação, então nenhum deles precisou considerar a hipótese enquanto escolhia o copo.
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O valor do que fica escasso "As oportunidades parecem mais valiosas para nós quando sua disponibilidade é limitada." Robert Cialdini, "Influence: The Psychology of Persuasion", 1984 |
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Cialdini publicou o livro no ano anterior ao lançamento, descrevendo experimentos em que o mesmo item ganhava valor declarado ao ficar escasso. Atlanta produziu a demonstração em escala industrial e sem querer: a bebida retirada virou estoque de garagem, mercado paralelo e abaixo-assinado, sem que uma gota dela tivesse mudado.
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Havia ainda sinal dentro da própria casa. Mark Pendergrast, em "For God, Country and Coca-Cola", de 1993, relata que em parte dos grupos de discussão, quando o moderador avisava que a fórmula nova substituiria a antiga em definitivo, a conversa azedava e a rejeição aparecia. O achado existia e ficou fora da conta principal, que era estatística e vinha de amostra muito maior.
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II Na Prática
Quem responde não sabe o que vai perder
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A reação não começou pela queda de vendas. Começou pelo telefone. A linha de atendimento ao consumidor da companhia, que recebia algumas centenas de ligações por dia antes de abril, passou a receber milhares, e a empresa contabilizou mais de 400 mil ligações e cartas sobre a troca ao longo daqueles meses.
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O teor das cartas ajuda a dimensionar o erro de medição. Muita gente não escreveu sobre sabor. Escreveu sobre infância, sobre a garrafa na mesa do avô, sobre a lata que acompanhou uma mudança de cidade. O objeto retirado carregava memória, e memória não aparece em prova de gole.
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Em Seattle, Gay Mullins fundou a Old Cola Drinkers of America, entidade que juntou assinaturas, ameaçou processo e distribuiu material contra a mudança. Em teste cego feito pela imprensa com o próprio Mullins, ele não identificou corretamente qual copo continha a fórmula que dizia defender.
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O que estava em disputa não cabia no copo, e por escapar do copo escapou também da pesquisa. |
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Aqui mora a parte desconfortável para quem decide com dado. A empresa não agiu por palpite. Gastou milhões, contratou pesquisa e seguiu o resultado. O procedimento estava correto e a conclusão saiu errada, porque a pergunta feita ao público não era a pergunta que a decisão exigia.
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TESTE MEDE O QUE VOCÊ COLOCA NA MESA Ele nunca mede o que ficou de fora. Quem desenha a prova escolhe, sem perceber, quais consequências entram no campo de visão do participante. A opção retirada de circulação não constava do formulário, então não apareceu no resultado, e a ausência de sinal foi lida como ausência de problema. |
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Donald Keough, então presidente da companhia, resumiu o episódio na coletiva de 11 de julho de 1985 dizendo que a paixão pela Coca-Cola original tinha pegado a empresa de surpresa, e que nenhuma pesquisa que eles conduziram foi capaz de medir aquele apego.
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A volta da fórmula antiga não apagou a nova. As duas passaram a conviver na prateleira, a Coca-Cola Classic recuperou vendas no ano seguinte, e daí nasceu a lenda persistente de que tudo teria sido jogada de marketing planejada. Keough respondeu à acusação com uma frase seca: a empresa não é tão burra nem tão inteligente assim.
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O aprendizado transferível não depende de refrigerante. Sempre que uma decisão retira algo que as pessoas já têm, a prova precisa incluir a retirada. Encerrar um plano, desligar um recurso de produto, mudar cardápio, alterar horário de atendimento: em todos esses casos o comparativo entre opções disponíveis subestima a reação de quem perde a alternativa antiga.
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