|
|
Os Fósseis Batiam, o Motor Faltava
Em 1912, Alfred Wegener mostrou o encaixe das margens do Atlântico e os mesmos fósseis nas duas costas, sem dizer o que movia os continentes.
|
Atlântico Sul: as duas margens encaixam
|
| ▼ |
|
Em janeiro de 1912, Alfred Wegener apresentou à Associação Geológica de Frankfurt o encaixe das margens do Atlântico e os fósseis do réptil Mesosaurus catalogados tanto no Brasil quanto na África do Sul. Em 1926, a American Association of Petroleum Geologists reuniu em Nova York um simpósio inteiro para demolir a mesma tese, com as mesmas evidências sobre a mesa.
Nenhuma prova nova entrou contra ele entre uma data e outra. Os fósseis continuavam nas duas costas, o desenho das margens continuava batendo, e as camadas de carvão da África do Sul seguiam com a assinatura das camadas da Argentina.
O que pesou foi a assinatura no rodapé. Wegener era meteorologista, doutorou-se em astronomia na Universidade de Berlim em 1905, subiu em balão para medir a atmosfera e chegou à geologia sem o crachá de geólogo. Quem o ouvia em 1926 dizia com todas as letras que a geologia não deveria aceitar lições de fora.
Havia também um buraco real na tese, e vale dizer o tamanho dele. Em "Die Entstehung der Kontinente und Ozeane", publicado em 1915, Wegener propôs que os continentes se deslocavam empurrados pela fuga dos polos e por forças de maré. O matemático Harold Jeffreys demonstrou em "The Earth", de 1924, que essas forças eram pequenas demais, por ordens de grandeza, para arrastar um continente através da crosta oceânica.
Duas objeções viajaram juntas por quatro décadas. Uma perguntava quem estava falando. A outra perguntava o que fazia a Terra se mexer. A primeira nunca teve valor científico nenhum. A segunda tinha, e foi respondida por outras pessoas, com instrumentos que ainda não existiam quando o livro saiu.
Quando o magnetômetro rebocado por navio começou a ler o fundo do oceano, nos anos 1950 e 1960, a conta virou em poucos anos. A mesma comunidade que havia recusado a deriva reescreveu os manuais e passou a ensinar tectônica de placas para calouros.
A seção seguinte reconstrói o que estava efetivamente sobre a mesa em 1912, e o que a plateia escolheu enxergar.
Continue lendo ↓
|
|
|
|
I O Viés da Semana
O crachá pesou mais que o fóssil
|
| |
| |
|
Wegener não chegou com uma intuição. Ele chegou com uma lista de coincidências que exigiam explicação, e a lista era pública, verificável e razoavelmente chata de contestar item por item.
|
|
O encaixe das costas era a peça mais fácil de ver e a mais fraca como argumento isolado, porque linha de praia muda com o nível do mar. As outras peças eram bem mais duras.
|
| Apresentação: Associação Geológica de Frankfurt, janeiro de 1912 |
| Livro: "Die Entstehung der Kontinente und Ozeane", Alfred Wegener, 1915 |
| Fóssil de água doce: Mesosaurus, catalogado no Brasil e na África do Sul |
| Flora fóssil: Glossopteris, presente na América do Sul, África, Índia, Austrália e Antártida |
| Formação: Alfred Wegener, doutor em astronomia pela Universidade de Berlim, 1905 |
| Objeção física: Harold Jeffreys, "The Earth", 1924 |
|
| |
|
Mesosaurus é um réptil pequeno de água doce. Ele não atravessava um oceano nadando, e a alternativa oferecida pelos críticos, pontes de terra que teriam afundado sem deixar vestígio, exigia acreditar em continentes inteiros submersos sem crosta correspondente no fundo do mar.
|
|
A flora de Glossopteris repetia o mesmo problema em escala maior. As mesmas folhas fósseis apareciam em cinco massas de terra hoje separadas por milhares de quilômetros de água salgada, e as camadas de carvão que as continham tinham espessura e sequência comparáveis.
|
A objeção que derrubou Wegener em 1926 não tratava dos fósseis: tratava de quem os havia colocado na mesa. |
|
| |
|
A ata do simpósio da American Association of Petroleum Geologists foi publicada em 1928 sob o título "Theory of Continental Drift", e o tom aparece inteiro na fala do geólogo Rollin T. Chamberlin, da Universidade de Chicago.
|
O tom da plateia de 1926 "Se formos acreditar na hipótese de Wegener, teremos de esquecer tudo o que foi aprendido nos últimos setenta anos e começar de novo." Rollin T. Chamberlin, "Some of the Objections to Wegener's Theory", em "Theory of Continental Drift", AAPG, 1928 |
|
| |
|
O argumento tem uma honestidade involuntária. Ele mede o custo de aceitar a tese e não a chance de ela estar correta, e essas duas contas respondem a perguntas diferentes. Uma pergunta quanto trabalho vai dar. A outra pergunta o que a rocha mostra.
|
| |
|
| |
|
II Na Prática
O buraco que os críticos acertaram
|
| |
| |
|
Seria confortável contar esta história como teimosia de gente com diploma contra um gênio solitário, e a versão confortável é falsa. Jeffreys estava certo no cálculo que fez.
|
|
Wegener precisava de uma força capaz de mover blocos continentais, e as duas que ele ofereceu, a fuga dos polos e o arrasto das marés, produzem valores minúsculos perto da resistência da crosta. Jeffreys quantificou a distância entre o necessário e o disponível, e a distância era enorme.
|
|
O erro da comunidade não foi exigir mecanismo. Foi tratar a ausência de mecanismo como prova de que os fósseis, o carvão e as costas eram coincidência.
|
Uma tese sem motor é uma tese incompleta, não uma tese refutada, e as duas situações pedem condutas opostas. |
|
| |
|
Quem trata a tese como incompleta financia a busca do motor. Quem a trata como refutada arquiva as evidências e passa quarenta anos explicando cada uma delas com hipóteses separadas, cada vez mais improváveis quando colocadas lado a lado.
|
|
O motor apareceu por um caminho que Wegener não tinha como prever. Arthur Holmes propôs em "Radioactivity and Earth Movements", publicado nas Transactions of the Geological Society of Glasgow em 1931, que o calor radioativo do interior do planeta produzia correntes de convecção no manto capazes de carregar a crosta por cima.
|
O QUE FALTAVA NÃO ERA A PROVA, ERA O INSTRUMENTO O fundo do oceano permaneceu praticamente inexplorado até a Segunda Guerra empurrar o desenvolvimento do sonar e do magnetômetro rebocado. Sem ler o assoalho oceânico, ninguém tinha como testar se a crosta nascia em algum lugar. |
|
| |
|
Harry Hess descreveu em "History of Ocean Basins", de 1962, a expansão do assoalho oceânico: material novo sobe nas dorsais meso-oceânicas, empurra a crosta para os lados e mergulha de volta nas fossas. Os continentes deixavam de arar o oceano e passavam a viajar de carona sobre placas inteiras.
|
|
Frederick Vine e Drummond Matthews publicaram na Nature, em 1963, a leitura que fechou a conta. As faixas magnéticas do fundo do mar apareciam em pares simétricos dos dois flancos da dorsal, com polaridade alternada, exatamente como um gravador de fita registraria as inversões do campo terrestre enquanto a crosta se afastava.
|
|
O que era discurso virou medida. E aí a resistência ruiu depressa, porque ninguém precisava mais confiar na palavra de quem apresentava: bastava conferir o registro do magnetômetro.
|