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A Urna Que Ninguém Quis Apostar
O paradoxo de Ellsberg mostra que a cabeça paga caro para fugir do desconhecido, mesmo com a chance de ganho igual.
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Duas urnas, a mesma chance, um preço
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Imagine duas urnas em cima de uma mesa. A primeira tem cinquenta bolas vermelhas e cinquenta pretas, contadas na sua frente. A segunda tem cem bolas vermelhas e pretas em proporção que ninguém revelou. Você escolhe uma cor, tira uma bola às cegas e ganha mil reais se acertar.
A pergunta é de qual urna você quer tirar. Quase todo mundo aponta para a primeira, e aponta rápido, com a sensação de estar sendo sensato.
Só que a chance de ganhar é a mesma nas duas. Como você escolhe a cor antes de saber qualquer coisa sobre a mistura da segunda urna, não existe motivo para ela ser pior. Se a mistura desconhecida favorece o vermelho, você aposta no vermelho. Se favorece o preto, você aposta no preto. Sem informação sobre para que lado ela pende, a expectativa continua sendo meio a meio.
Agora vem a parte que dói. Se você oferecer um desconto para a pessoa escolher a segunda urna, ela ainda hesita. Muita gente só troca quando o prêmio da urna desconhecida sobe bem acima do da conhecida, o que significa que existe um preço sendo pago, em dinheiro real, pelo simples fato de o rótulo estar faltando.
Essa preferência não é uma curiosidade de laboratório. Ela aparece inteira na pessoa que fica cinco anos num emprego que ela já sabe que é ruim, porque a vaga nova não tem histórico. Aparece no fornecedor caro que nunca foi cotado de novo em três anos. Aparece no dinheiro que dorme numa conta com rendimento ruim e conhecido enquanto qualquer alternativa exige ler um documento novo.
Em todos esses casos a cabeça faz uma troca silenciosa: aceita um resultado pior e previsível para não ter que lidar com um resultado incerto e possivelmente melhor. E chama essa troca de prudência.
A economia experimental deu nome e número a esse comportamento faz mais de sessenta anos, num experimento simples o bastante para caber numa mesa de bar e incômodo o bastante para derrubar o modelo de decisão dominante da época.
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I O Viés da Semana
Trinta vermelhas e sessenta que ninguém contou
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Em 1961, Daniel Ellsberg publicou no Quarterly Journal of Economics um artigo chamado Risk, Ambiguity, and the Savage Axioms. Ele não estava propondo uma teoria nova. Estava mostrando que pessoas inteligentes, informadas e avisadas do problema continuavam violando um axioma que a teoria da decisão da época tratava como óbvio.
O experimento mais famoso do artigo usa uma urna só, com noventa bolas dentro, distribuídas assim:
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| 30 bolas vermelhas, contadas e confirmadas |
| 60 bolas pretas ou amarelas, em proporção não informada |
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Você sabe que existem trinta vermelhas. Sobre as outras sessenta, você não sabe nada: podem ser sessenta pretas, podem ser sessenta amarelas, pode ser qualquer combinação entre os dois extremos.
Primeira rodada. Você ganha cem dólares se tirar vermelha, ou ganha cem dólares se tirar preta. Qual aposta você prefere? A maioria escolhe vermelha, porque vermelha tem um número em cima e preta não tem.
Segunda rodada. Você ganha cem dólares se tirar vermelha ou amarela, ou ganha cem dólares se tirar preta ou amarela. Agora a maioria escolhe preta ou amarela, porque essa aposta cobre sessenta bolas garantidas enquanto a outra depende da fatia amarela, que ninguém contou.
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Nas duas rodadas o jogador foge do que não tem rótulo, e as duas fugas se contradizem. |
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A contradição é aritmética, não filosófica. Quem prefere vermelha na primeira rodada está dizendo que acredita haver menos de trinta pretas. Quem prefere preta ou amarela na segunda está dizendo o contrário, que as pretas somadas às amarelas valem mais que trinta mais amarelas, o que só é possível se houver mais de trinta pretas.
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Onde a lacuna ganhou nome "A ambiguidade é uma qualidade que depende da quantidade, do tipo, da confiabilidade e da unanimidade da informação disponível." Daniel Ellsberg, Risk, Ambiguity, and the Savage Axioms, 1961 |
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A mesma pessoa, na mesma mesa, com o mesmo intervalo de dois minutos entre as perguntas, sustenta duas crenças incompatíveis sobre a mesma urna. E, quando o experimentador aponta a inconsistência, boa parte dos participantes não quer corrigir a escolha. Prefere manter as duas e admitir que simplesmente não gosta de apostar no que não foi contado.
Ellsberg chamou essa preferência de aversão à ambiguidade, e ela é diferente de aversão ao risco. Risco é quando você conhece as probabilidades e não gosta da variação. Ambiguidade é quando você nem sabe qual é a probabilidade, e a cabeça responde a essa lacuna como se ela fosse uma probabilidade ruim.
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Esse é o ponto que vira ferramenta. Falta de informação não é a mesma coisa que informação negativa. A cabeça trata as duas iguais, e quem opera decisão profissional precisa separá-las de novo, no papel, toda vez. |
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II Na Prática
O emprego ruim tem planilha, a vaga nova não tem
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O caso mais caro dessa distorção mora no trabalho. Uma pessoa sabe exatamente quanto ganha, quanto demora no trânsito, como o chefe reage numa segunda-feira ruim e quantas horas o mês pesado consome. É um pacote medido, e o resultado desse pacote é medíocre.
A alternativa é uma proposta com salário melhor numa empresa que ela não conhece por dentro. A cultura é uma incógnita, o gestor é um nome no LinkedIn, o produto pode não vingar. A conta que a cabeça faz não compara os dois cenários, ela penaliza o segundo por ser opaco.
O detalhe que quase ninguém nota é que o cenário conhecido também tem incerteza. A empresa atual pode reestruturar a área, o gestor bom pode sair, o setor inteiro pode encolher. A diferença é que essas incertezas já foram absorvidas e viraram paisagem, então elas não entram na coluna de risco.
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O conhecido não é mais seguro. Ele só é mais fácil de descrever. |
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Na operação de uma empresa o mesmo padrão vira custo direto. Um fornecedor atendido há quatro anos entrega no prazo e cobra caro, e a cotação com três concorrentes novos fica adiada indefinidamente porque cada um deles é uma urna sem rótulo. O contrato se renova sozinho, e a diferença de preço vira despesa fixa.
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O fornecedor que nunca foi cotado de novo Peça a um gestor a lista dos contratos revisados no último ano e compare com a lista dos que foram renovados sem cotação. A segunda costuma ser bem maior, e a justificativa é sempre a mesma: o atual funciona. Funciona é uma afirmação sobre entrega, não sobre preço. O único jeito de saber se o preço está certo é abrir a urna que ninguém quis abrir, e abrir custa algumas horas de trabalho, não dinheiro. |
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No dinheiro pessoal a ambiguidade cobra pedágio mensal. Deixar o saldo numa conta de rendimento baixo e conhecido é confortável porque o número está ali, visível. Qualquer alternativa exige entender um documento novo, um prazo de resgate, uma regra de tributação.
O que a cabeça registra é a diferença de esforço mental, e ela converte esforço mental em risco. O papel não concorda: um título público indexado ao IPCA tem regra pública, liquidez definida e histórico longo. Ele é menos conhecido pelo investidor, não mais arriscado.
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Vale marcar o outro lado antes que a régua vire desculpa para pular na primeira coisa nova. Existe ambiguidade que é sinal legítimo de perigo. Investimento sem prospecto, sócio sem histórico verificável, promessa de retorno acima do mercado sem explicação de onde ele vem: nesses casos a falta de informação é a informação, e recusar é a decisão correta.
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A régua útil separa dois tipos de desconhecido. Um pode ser reduzido com trabalho, uma ligação, uma cotação, uma conversa com quem já usou. O outro não pode ser reduzido de jeito nenhum, porque a informação não existe ou porque alguém está escondendo. O primeiro tipo é uma tarefa. Só o segundo é um risco. |
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