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O Aumento Que Chegou Como Corte
Um reajuste de 5% num ano de inflação de 8% devolve 2,8% a menos de poder de compra, e a cabeça lê só o número escrito no contracheque.
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O número no papel subiu, o carrinho encolheu
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O email chega numa terça de manhã com assunto em tom de boa notícia: reajuste anual aprovado, 5% a partir do próximo mês. Você abre a calculadora do celular, multiplica o salário atual, e o número novo aparece maior na tela. No grupo do trabalho a conversa vira comparação, quem pegou 4, quem pegou 6, quem ficou de fora.
Nenhuma conta feita ali usa o segundo número. No mesmo período, o índice de preços fechou em 8%. O aluguel subiu, o plano de saúde subiu, o mercado da esquina reprecificou duas vezes, e cada um desses aumentos entrou no orçamento sem email de aviso e sem assunto em tom de boa notícia.
A conta correta também não é 5 menos 8. É 1,05 dividido por 1,08, que dá 0,972. O contracheque cresceu e o poder de compra caiu 2,8%. Num salário de 6 mil reais, o valor novo compra o que 5.833 compravam doze meses antes, uma perda de 167 reais por mês e perto de 2 mil no ano.
O estranho não é errar a divisão. É a comemoração acontecer antes de qualquer divisão, e resistir depois que o número real aparece. O salário nominal é escrito, assinado, depositado e comparável no grupo do trabalho. O poder de compra não tem documento, não chega por email e não aparece em nenhuma linha do contracheque.
A mesma cegueira trabalha longe do salário. Rendimento de 9% ao ano parece ganho num ano em que os preços correram a 10%. A parcela fixa de um financiamento longo parece a mesma todo mês e vai pesando menos sem ninguém perceber. O aluguel que não subiu neste ano subiu, porque o resto subiu em volta dele.
A mente trata a moeda como régua fixa, e régua que encolhe deixa de medir. A falha tem nome desde 1928, e já foi medida com duas colegas de faculdade, um parágrafo de enunciado e uma pergunta que troca uma única palavra no meio do questionário.
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I O Viés da Semana
A colega que ganhou menos e comemorou mais
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Em 1928, Irving Fisher, economista da Universidade Yale, publicou um livro curto chamado The Money Illusion. A tese cabe numa frase: quase ninguém percebe que a própria unidade de medida muda de tamanho, e a maioria acaba medindo o mundo com uma régua que encolhe sem avisar.
Fisher tinha visto a falha ao vivo. Em viagem à Alemanha em 1922, no meio da desvalorização do marco, ele perguntou a uma comerciante se os preços da loja tinham subido. A resposta foi não. Para ela os preços estavam parados, e o que tinha subido era o dólar.
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A régua fixa é uma conveniência mental barata. O valor nominal está escrito na nota, no boleto e no extrato; o poder de compra exige um segundo número que ninguém carrega no bolso. |
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Contar em moeda é imediato. Contar em poder de compra exige buscar o índice do período e fazer uma divisão. O primeiro caminho está sempre pronto; o segundo chega com semanas de atraso.
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Onde a falha foi batizada "A ilusão monetária é a falha em perceber que o dólar, ou qualquer outra unidade de dinheiro, se expande ou encolhe em valor." Irving Fisher, The Money Illusion, 1928 |
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Quase setenta anos depois, Eldar Shafir, Peter Diamond e Amos Tversky publicaram no Quarterly Journal of Economics um artigo com o mesmo título do livro de Fisher. Em vez de discutir teoria, eles montaram enunciados curtos e mediram a resposta de gente comum.
Um deles descreve duas formadas na mesma faculdade, com um ano de diferença, contratadas por editoras parecidas, as duas com salário inicial de 30 mil dólares por ano. Ana passou o primeiro ano sem nenhuma inflação e recebeu reajuste de 2%. Bárbara passou o primeiro ano com 4% de inflação e recebeu reajuste de 5%.
Em termos econômicos, 71% dos entrevistados apontaram Ana, e apontaram certo: 2% acima de inflação zero vale mais que 5% acima de 4%. A pergunta seguinte trocava uma palavra. Quem estava mais feliz? 64% escolheram Bárbara. E 65% responderam que Ana era a mais propensa a aceitar proposta de outra empresa.
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A mesma pessoa, no mesmo questionário, sabe quem ficou mais rica e inveja quem ficou mais pobre. O acerto aparece na pergunta técnica; a decisão de vida sai pelo número escrito. |
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O artigo traz a versão com imóvel. Três pessoas compraram casa por 200 mil dólares e venderam um ano depois. A primeira vendeu por 154 mil num ano de deflação de 25%. A segunda vendeu por 198 mil com preços parados. A terceira vendeu por 246 mil num ano de inflação de 25%. |
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Em poder de compra, só a primeira saiu ganhando, e a terceira saiu perdendo. Na avaliação dos entrevistados, a terceira foi a mais votada como o melhor negócio, porque a escritura dela trazia o maior número escrito. A ordem correta e a ordem percebida saem quase invertidas.
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II Na Prática
O corte que ninguém chama de corte
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Em 1986, Daniel Kahneman, Jack Knetsch e Richard Thaler publicaram na American Economic Review uma pesquisa sobre o que as pessoas consideram justo. Uma das perguntas descrevia uma empresa de lucro pequeno, numa região com desemprego alto e inflação zero, que decide cortar salários em 7%.
62% dos entrevistados classificaram a decisão como injusta. Outro grupo recebeu a mesma empresa num cenário com 12% de inflação, concedendo reajuste de 5%. A perda de poder de compra é praticamente a mesma nos dois casos. Só 22% acharam injusto.
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Vestir a perda de aumento derrubou a resistência a um terço. Nada mudou no bolso; mudou o sinal do número impresso no comunicado. |
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Onde o número escrito cobra o preço A poupança fechou 2021 com rendimento perto de 3%, contra 10,06% de inflação medida pelo IPCA. O saldo do extrato subiu, e o dinheiro parado ali perdeu cerca de 6% do que comprava. Nenhum extrato imprime linha vermelha nesse caso: ele mostra crédito de juros, em preto, todo mês. |
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Ernst Fehr e Jean-Robert Tyran mediram em laboratório o que a leitura nominal custa em tempo. No experimento publicado em 2001 na American Economic Review, os participantes fixavam preços depois de um choque monetário.
Com os ganhos exibidos em valor nominal, o grupo levou muito mais rodadas para chegar ao novo equilíbrio do que com os mesmos ganhos já convertidos.
Em 2009, Bernd Weber e colegas publicaram na PNAS um exame de ressonância com o mesmo desenho: poder de compra idêntico, duas roupagens nominais. O córtex pré-frontal medial, ligado à recompensa, respondeu mais forte na versão com o número maior na tela.
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O Brasil já pagou caro o bastante para tratar a ilusão como problema de engenharia. Em março de 1994, a Unidade Real de Valor entrou em circulação sem ser dinheiro: ninguém tinha uma cédula de URV no bolso. Preços, salários e contratos passaram a ser cotados nela, e o pagamento seguia em cruzeiro real, pela cotação do dia.
Durante quatro meses o país leu dois números ao mesmo tempo, o nominal que mudava toda manhã e o real que ficava parado. Em 1º de julho a URV virou moeda, ao preço de 2.750 cruzeiros reais, e o nome dela virou o nome do dinheiro.
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Trocar a unidade de conta mudou o comportamento de um país inteiro meses antes de qualquer nota nova entrar na carteira. |
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A mesma cegueira também trabalha a favor de quem deve. Parcela fixa de financiamento longo não muda de número, e a cada ano de inflação ela pesa menos no orçamento. Quem assinou em juro fixo pagou o fim do contrato com dinheiro mais barato, e nunca sentiu o desconto, porque o boleto chegou sempre com o mesmo valor impresso.
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Vale saber onde a leitura nominal não é burrice. Contrato, imposto e boleto são cobrados em número escrito. O erro não está em usar a moeda como unidade de troca: está em comparar dois anos diferentes sem converter, e em comemorar dentro dessa comparação torta. |
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