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Contra Maré

Edição #071

O Grupo Que Preferiu Ganhar Menos pra Vencer o Outro

Meninos de Bristol foram divididos por uma preferência entre Klee e Kandinsky. Passaram a favorecer o próprio grupo e aceitaram ganhar menos pra aumentar a diferença.

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Contra Maré 

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O Grupo Que Preferiu Ganhar Menos pra Vencer o Outro
 
I

O Viés da Semana

 

Em 1971, Henri Tajfel projetou slides de quadros abstratos pra meninos de catorze e quinze anos numa escola de Bristol. Cada um dizia quais telas preferia, as de Paul Klee ou as de Wassily Kandinsky. Uma preferência sem peso nenhum, e era exatamente o que ele procurava.

Os meninos souberam que a escolha os separava em dois grupos, turma Klee e turma Kandinsky. Na verdade a divisão foi aleatória. Depois, cada um foi colocado sozinho numa sala pra distribuir pontos que valiam dinheiro entre dois colegas anônimos, identificados só pelo número e pelo grupo.

 

Eles favoreceram o próprio grupo, e várias vezes escolheram ganhar menos, contanto que a diferença pro outro grupo aumentasse.

 

Ninguém distribuía pontos pra si mesmo, então não havia interesse próprio em jogo. Os grupos não tinham história, rivalidade nem contato. A etiqueta tinha minutos de idade e nasceu de um sorteio disfarçado de gosto. Mesmo assim, bastou pra criar lado.

 

As planilhas de escolha mostravam pares de valores, tantos pontos pra um menino de cada grupo. Numa das combinações, dava pra dar dezenove pontos pro colega do próprio grupo e vinte e cinco pro do outro. A alternativa entregava sete pro próprio grupo e um pro rival.

A conta fria manda escolher os dezenove. É mais ponto, mais dinheiro no fim da sessão, e o que o outro grupo recebe não muda nada na vida de ninguém. Os meninos preferiram a segunda opção com frequência demais pra ser acaso: sete pontos, contanto que o rival ficasse com um.

O nome que o campo deu ao desenho é paradigma do grupo mínimo. A pergunta do estudo era quanto de estrutura um grupo precisa ter antes de gerar favoritismo. A resposta veio antes do esperado: precisa de quase nada, uma etiqueta arbitrária já liga o mecanismo inteiro.

E houve réplicas de sobra. O experimento rodou com sorteio de moeda declarado, com chutes sobre quantidade de pontos numa tela, com grupos batizados por letras. A cada versão mais pelada, o favoritismo continuava aparecendo, mesmo quando os participantes sabiam que a divisão era puro acaso.

 

A diferença vale mais que o ganho

Os meninos não estavam maximizando o que o próprio grupo levava. Estavam maximizando a distância entre os grupos, e aceitaram pagar por ela com os pontos que deixaram na mesa.

 

Ninguém percebe a troca na hora. Escolher o lado parece lealdade, defender o grupo parece justiça, e o prejuízo fica invisível porque vem fantasiado de vitória: o outro lado ficou mais longe, e a distância é a única régua que a etiqueta ensina a ler.

 

Um grupo não precisa de motivo pra virar um lado. Precisa de um nome, e a cabeça fabrica o resto do conflito por conta própria.

 
 
~ ~ ~
 
 
II

Na Prática

 

A torcida herdada é a turma Klee com escudo. A maioria dos torcedores não escolheu o time: recebeu do pai, do bairro, da primeira camisa. Mesmo assim discute com estranho na fila, mede a semana pelo placar e sente o resultado do rival quase tão forte quanto o próprio.

Repare no detalhe que o experimento prevê: a derrota do rival vale tanto quanto a vitória do próprio time. Tem torcedor que abre o domingo conferindo primeiro o jogo do outro. São os sete pontos de Bristol de novo, o prazer mora na diferença, não no ganho.

 

O crachá que vira trincheira

No trabalho, a divisão por áreas faz o mesmo serviço do sorteio de quadros. Marketing contra comercial, produto contra operação. Ninguém escolheu o organograma, mas a reunião de segunda vira disputa de território, e informação que ajudaria o outro time fica presa na gaveta.

 

Quando um time esconde dado do outro pra chegar melhor na diretoria, a empresa inteira paga os sete pontos.

 

O custo aparece na conta consolidada. A meta da empresa é o ganho total dos dois grupos, mas a etiqueta faz cada área otimizar a diferença interna. Segurar informação atrasa o vizinho e atrasa o resultado, só que o placar que a cabeça acompanha é o outro.

 

A briga de comentário é o laboratório a céu aberto. iPhone contra Android, console contra console, uma linguagem de programação contra a outra. Gente defendendo com fervor de sócio uma empresa que nem sabe do comentário, e atacando quem comprou um aparelho diferente.

Observe o padrão nas respostas. Quase nenhuma defende o próprio produto, a maioria ataca o produto alheio. O objetivo da conversa deixou de ser acertar na compra faz tempo. O objetivo virou aumentar a distância entre as etiquetas, e cada comentário paga um ponto a mais.

 

Ninguém escolheu nascer na cidade, herdar o time ou cair naquele departamento. A etiqueta veio por sorteio, e a lealdade que ela cobra chega depois, com juros.

 

Fora das brigas visíveis o mecanismo segue rodando. O condomínio contra o condomínio vizinho, a sala 1 contra a sala 2 na gincana da escola, o grupo do churrasco contra o grupo da van. Onde uma etiqueta separa gente parecida, a mecânica de Bristol já está de plantão.

 
 
~ ~ ~
 
 
III

Teste Rápido

 

O teste desta semana não pede pra você abandonar seus grupos. Pertencer faz bem, torcida enche estádio, camisa de time é memória de infância. O problema não é ter lado, é deixar a etiqueta fazer a conta no seu lugar.

A conta desanda quando aumentar a diferença passa a valer mais que o próprio ganho. São três passos, e o primeiro é o que incomoda, porque obriga a admitir quantas das suas bandeiras foram sorteadas.

A etiqueta antes do argumento

1. Nomeie o sorteio antes de defender a posição. Pergunte se você escolheu aquele lado ou se ele veio junto com o nascimento, o crachá ou a primeira compra. Defender uma escolha é opinião. Defender um sorteio com fervor de escolha é a etiqueta falando por você.

2. Refaça a conta em pontos absolutos. Diante de uma disputa, pergunte o que o seu grupo ganha de fato com a sua próxima jogada. Se a resposta se resume a deixar o outro lado pior, você está pagando os sete pontos de Bristol, e a moeda sai do seu bolso.

3. Troque a etiqueta e releia o argumento. Imagine a mesma frase dita pelo outro grupo, o mesmo dado publicado pelo rival. Se a força do argumento muda com a troca de camisa, você não estava avaliando o argumento, estava conferindo o crachá de quem falou.

Você quer o seu grupo na frente, ou só quer o outro atrás?

 

Repare que a técnica não pede neutralidade. Ela separa duas coisas que vivem grudadas: a disputa em que o seu grupo ganha algo concreto, e a disputa em que a única recompensa é ver o outro grupo diminuir enquanto todo mundo empobrece junto.

E a régua vale pra quem monta os grupos também. Dividir gente em times pra dar energia a um projeto é legítimo. Alimentar rivalidade interna pra extrair esforço é outra coisa, e o time que percebe a manobra passa a jogar contra a empresa, não contra o rival.

 

Vale na parte incômoda também. A etiqueta mais cara raramente é a do estádio. É a que você carrega sem perceber que carrega, a que decide em quem você acredita, que dado você aceita e que erro você perdoa, tudo antes de qualquer argumento entrar na sala.

Os meninos de Bristol não levavam vantagem nenhuma com a diferença. Os pontos que davam nunca eram pra si mesmos, os colegas eram anônimos e os grupos se desfaziam no fim da tarde. Ainda assim deixaram dinheiro na mesa pra ampliar a distância de um rival inventado naquela manhã.

Ninguém precisa te dar um motivo pra brigar. Basta te dar um lado, e o experimento mostra que qualquer lado serve.

 

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No experimento de Tajfel, qual par de pontos os meninos escolheram com mais frequência ao dividir entre os dois grupos?

ADezenove pontos pro próprio grupo e vinte e cinco pro rival
BSete pontos pro próprio grupo e um pro rival
CVinte e cinco pontos pro próprio grupo e dezenove pro rival
DUm ponto pro próprio grupo e sete pro rival

Defenda seu título de Vigia do Cais (3 acertos seguidos garantem o primeiro).

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